Comentário ao que diz o Filipe Melo Sousa:
"Se quiseres ser um agente prático da mudança, como diz o Ricardo, nada ganhas em salamizar a classificação do liberalismo. Ao associar-te com outros indivíduos assumes a diluição da tua identidade num objectivo comum."
A questão é que, na ânsia de alargar o espectro para ganhar margem de sustentação para ser esse "agente de mudança", fazem-se sacrifícios que quanto a mim desqualificam e penalizam a classificação de "liberal" que o próprio projecto político apregoa aos demais.
Não tenho nada contra soluções de compromisso e de bom senso. Mas há limites, e não valem todos os meios para um fim. E esses limites já foram, quanto a mim, largamente ultrapassados em mais do que uma ocasião, ou foram claramente ultrapassados por comentários e posições políticas dos seus associados mais influentes.
Ora é exactamente a essa perspectiva de ausência de ideologia que já há muito nos habituámos no panorama político português. Daqueles que avançam sem rumo e sem estratégia e mudam ou constroem o discurso por navegação à vista, eternamente apostados somente na estratégia para não chegar a lado nenhum.
A tentação de ser um albergue espanhol do liberalismo, além de me parecer um erro estratégico que insiste em levar muitos ao desengano, é desmentida pela própria prática quotidiana do movimento. Aliás, o seu nome é bem o espelho que esse albergue espanhol só tem quartos para alguns fregueses bem definidos, e foi clara a sua escolha.
Se o movimento pretendesse caminhar no sentido de "partido guarda-chuva", porventura inspirado nalguns princípios liberais, escusava (e seria bem mais sincero) de sequer tentar apontar para alguma conotação com o liberalismo. Escolhia um nome apolítico e definia um programa de medidas avulsas de pendor utilitarista.
Mas não é a isso que eu assisto. Assisto sistematicamente a uma tentativa de apropriação do exclusivo do "bom liberalismo", do "liberalismo moderno", e do empurrar de correntes mais que firmadas do liberalismo para rótulos depreciativos e caricaturais.
São os próprios responsáveis do movimento (nomeadamente pelo programa político) que afirmam que estás desenquadrado no movimento, e a separar bens as águas do discurso "da maioria" de alguns arrojos atípios de quem anda ao desengano.
Aliás, se houvesse essa predisposição agremiadora, assistiriamos a um movimento que trataria de igual modo liberais sociais, clássicos, anarco-capitalistas e liberais conservadores (e os tentaria cativar a todos), apontando para uma intervenção sustentada em compromissos equilibrados entre essas várias vertentes ou facções. Se assim fosse, compreenderia a tua aceitação das regras e a vontade de participar.
Mas face ao que se assiste, é de perguntar se essa vontade de compromisso e de ser "agente prático de mudança" está a ser bem ocupada no local onde está. Afinal, para viver politicamente numa perspectiva de facção, ainda por cima claramente minoritária e hostilizada, porque não fazê-lo nos partidos "tradicionais"? Conseguirias concerteza por lá uma aproximação em termos estatísticos que eu julgo maior ao que defendes, com a vantagem de teres hipóteses acrescidas de criar essa mudança.
Se não estiveres muito preocupado em coerência ideológica.