2007/05/09

Comentário

Comentário ao que diz o Filipe Melo Sousa:

"Se quiseres ser um agente prático da mudança, como diz o Ricardo, nada ganhas em salamizar a classificação do liberalismo. Ao associar-te com outros indivíduos assumes a diluição da tua identidade num objectivo comum."

A questão é que, na ânsia de alargar o espectro para ganhar margem de sustentação para ser esse "agente de mudança", fazem-se sacrifícios que quanto a mim desqualificam e penalizam a classificação de "liberal" que o próprio projecto político apregoa aos demais.

Não tenho nada contra soluções de compromisso e de bom senso. Mas há limites, e não valem todos os meios para um fim. E esses limites já foram, quanto a mim, largamente ultrapassados em mais do que uma ocasião, ou foram claramente ultrapassados por comentários e posições políticas dos seus associados mais influentes.

Ora é exactamente a essa perspectiva de ausência de ideologia que já há muito nos habituámos no panorama político português. Daqueles que avançam sem rumo e sem estratégia e mudam ou constroem o discurso por navegação à vista, eternamente apostados somente na estratégia para não chegar a lado nenhum.

A tentação de ser um albergue espanhol do liberalismo, além de me parecer um erro estratégico que insiste em levar muitos ao desengano, é desmentida pela própria prática quotidiana do movimento. Aliás, o seu nome é bem o espelho que esse albergue espanhol só tem quartos para alguns fregueses bem definidos, e foi clara a sua escolha.

Se o movimento pretendesse caminhar no sentido de "partido guarda-chuva", porventura inspirado nalguns princípios liberais, escusava (e seria bem mais sincero) de sequer tentar apontar para alguma conotação com o liberalismo. Escolhia um nome apolítico e definia um programa de medidas avulsas de pendor utilitarista.

Mas não é a isso que eu assisto. Assisto sistematicamente a uma tentativa de apropriação do exclusivo do "bom liberalismo", do "liberalismo moderno", e do empurrar de correntes mais que firmadas do liberalismo para rótulos depreciativos e caricaturais.

São os próprios responsáveis do movimento (nomeadamente pelo programa político) que afirmam que estás desenquadrado no movimento, e a separar bens as águas do discurso "da maioria" de alguns arrojos atípios de quem anda ao desengano.

Aliás, se houvesse essa predisposição agremiadora, assistiriamos a um movimento que trataria de igual modo liberais sociais, clássicos, anarco-capitalistas e liberais conservadores (e os tentaria cativar a todos), apontando para uma intervenção sustentada em compromissos equilibrados entre essas várias vertentes ou facções. Se assim fosse, compreenderia a tua aceitação das regras e a vontade de participar.

Mas face ao que se assiste, é de perguntar se essa vontade de compromisso e de ser "agente prático de mudança" está a ser bem ocupada no local onde está. Afinal, para viver politicamente numa perspectiva de facção, ainda por cima claramente minoritária e hostilizada, porque não fazê-lo nos partidos "tradicionais"? Conseguirias concerteza por lá uma aproximação em termos estatísticos que eu julgo maior ao que defendes, com a vantagem de teres hipóteses acrescidas de criar essa mudança.

Se não estiveres muito preocupado em coerência ideológica.

10 comentários:

AA disse...

Se não estiveres muito preocupado em coerência ideológica.

confirma-se

Anónimo disse...

JLP,

Eu, de fora, não vejo o Filipe a fazer nenhum sacrifício ideológico. Vejo-o dentro de um movimento com indivíduos que têm ideias diferentes da dele. Alguns com ideias mais diferentes do que outros. Ao ter a força de tentar levar o único movimento liberal português para um caminho ideologicamente mais próximo daquele que é o seu está a ter vários impactos. Um dos quais é tornar mais atractivo o mls a indivíduos que embora concordem com os princípios não concordam com muitas das ideias apresentadas pelos quadros do mls.

Aqui chego ao meu exemplo, também para justificar as minhas constantes inerferências nestas trocas de comentários.

Conheci o mls salvo erro quando ele tinha acabado de começar. Conheci o Miguel Duarte e ele apresentou-me a carta de princípios com mais detalhe. Tenho a certeza que concordas que a carta é uma base de trabalho infinitamente melhor do que qualquer carta de princípios de qualquer partido português. Porque é que não sou um mls activo? Porque o (1) movimento tem um peso grande de pessoas com ideias com que não concordo e (2) não quis ter a paciência e dedicação para fazer a diferença e aproximar mais as linhas programáticas ao que eu acredito. Mantive-me no blog porque não deixei de concordar com a carta de princípios, mas não estive para me “chatear” a tentar moldar o mls mais ao que acredito que deveria ser um movimento liberal com preocupações sociais e outras mais utilitaristas (já me assumi como um liberal “impuro”).

Este prelúdio para chegar a um ponto. Com um mls com um Filipe e outros como ele as iniciativas do mls são para mim muito mais atractivas. E tenho a certeza que para muitos outros como eu. E tenho a certeza que se muitos como eu e o Filipe se juntarem amanhã o mls será muito mais atractivo para pessoas como tu.

Em relação à comparação de entrada em um psd ou afins só posso entender que achas possível um ilustre anónimo ter alguma influência no PSD ou no CDS. Mas se acreditas que de facto é comparável podemos entrar nessa discussão. Eu acho que estás apenas a provocar…

Ricardo Francisco

Filipe Melo Sousa disse...

João, eu sou Portista em Lisboa, estou habituado em viver em minoria. E estou habituado a ver o meu clube ganhar.

Acontece que no futebol, ao contrário da política não prevalece o princípio um sócio um voto. Se assim fosse, coitados dos não-vermelhos dentro das quatro linhas. De qualquer forma, tu sabes que eu considero viver num mundo lógico sem contradições. Se algo não faz sentido, revê as tuas premissas, e se o fizeres de maneira adequada, vais perceber que de repente tudo faz sentido.

Anónimo disse...

Quanto à coerência ideológica...

Eu acabo por não entender. A ideia é que um indivíduo não se pode associar a um grupo que tem ideias diferentes, mesmo que outras em comum, para não comprometer a sua coerência ideológica.

Como tenho a certeza que não vejam as coisas de forma absoluta, podem dar aqui umas luzes de quanto é que se pode comprometer em função de que resultados?

Esta pergunta é provocatória. Se houve uma coisa que o Filipe não arriscou foi a sua coerência idelógica. Arriscou-se a ser hostilizado pela maioria no mls, mas dificlmente perdeu a coerência.


Disclaimer1: Embora esteja aqui a defender a posição do Filipe, tenho que dizer que não o conheço mais do que o que tenho lido no blog do mls. Dei-me ao trabalho de ver quais as suas posições na última assembleia no mls.

Disclaimer 2: Sim, defendo o Filipe porque muitas das críticas tambem as encaixo.


Ricardo Francisco

Anónimo disse...

JLP,

Para acabar a minha pequena diatribe.

Não consegues imaginar as grandes discussões que tenho com o meu pai, um "homem de esquerda". Ele acaba a conversa invariavelmente da mesma maneira:

"Muda de país"

Eu reconheço que é o caminho mais fácil, mudar de país. Muito mais fácil do que mudar o país.

Eu estive e estou muito mais perto de mudar de sistema do que tentar mudar o sistema.

Ricardo Francisco

JLP disse...

Ricardo,

"Vejo-o dentro de um movimento com indivíduos que têm ideias diferentes da dele. Alguns com ideias mais diferentes do que outros."

Uma coisa é diferença puntual. Outra é concordância pontual.

Uma pessoa pode diferir na estratégia, mas tem que haver algum nível de consenso em termos de objectivos.

O que eu vejo, e aliás o que também senti, é que essa diferença, no caso das posições como as do FMS, não é tolerada pelo "outro lado" com a mesma tolerância com que este tolera as suas opiniões. É mesmo, sim, claramente hostilizada e repudiada.

Ora será que vale a pena estar a trabalhar em prol de um grupo, quando a nossa opinião no seio desse grupo vale próximo de zero, e ainda por cima a generalidade desse grupo nos hostiliza e demonstra que o rumo dele é outro?

"Ao ter a força de tentar levar o único movimento liberal português para um caminho ideologicamente mais próximo daquele que é o seu está a ter vários impactos. Um dos quais é tornar mais atractivo o mls a indivíduos que embora concordem com os princípios não concordam com muitas das ideias apresentadas pelos quadros do mls."

Ou seja, está a promover o MLS dizendo que não se deve seguir as suas políticas e que não se deve ligar á sua posição maioritária?

A menos que considere a hipótese de fazer um "takeover" do movimento, o que não considero muito moral, não compreendo essa linha de acção.

"Tenho a certeza que concordas que a carta é uma base de trabalho infinitamente melhor do que qualquer carta de princípios de qualquer partido português."

Conheces a declaração de princípios do PND?

As declarações de princípios são um somatório de vacuidades e banalidades, e atrevo-me a dizer que provavelmente concordariamos com a de todos os partidos não extremistas portugueses.

O que faz a diferença é a definição do programa político, nomeadamente a definição de quais são os objectivos que se preconizam (e porquê), mais dos que as medidas avulsas anunciadas de forma mais ou menos reactiva. É isso que permite cativar pessoas com total clareza para onde se quer ir. Ora a minha opinião, desde o início (inclusivé quando fiz parte do movimento), é que há claramente uma vontade de não definir esse programa político, para não hostilizar ninguém e agradar a gregos e a troianos (num segmento político bem definido) e pôr a margem de apoio do movimento à frente da vontade de clarificar para onde quer ir.

Ora isso, para mim, é perpetuar o que já acontece na generalidade dos partidos portugueses, que são amálgamas de interesses e de estratégias de navegação à vista sem rumo. E para mim, não vou por aí. Não gosto de ser enganado, nem como eleitor, e muito menos naquilo em que gasto o meu tempo.

"Este prelúdio para chegar a um ponto. Com um mls com um Filipe e outros como ele as iniciativas do mls são para mim muito mais atractivas."

Estás a dizer que as iniciativas e decisões tomadas pela maioria do MLS (maioria essa com que tu próprio afirmas que não concordas, e que claramente é hostil) vão melhorar somente pelo facto de vocês lá estarem a discordar delas?

"E tenho a certeza que se muitos como eu e o Filipe se juntarem amanhã o mls será muito mais atractivo para pessoas como tu."

Ou seja, dizes que o MLS vai ser atractivo quando deixar de ser o MLS... ;-)

Que vai ser mais atractivo para mim, quando não me cativa e hostiliza a dele fazer parte...

"Em relação à comparação de entrada em um psd ou afins só posso entender que achas possível um ilustre anónimo ter alguma influência no PSD ou no CDS."

Eu também não acho que esse seja o caminho, como já defendi várias vezes por aqui, exactamente por uma questão de coerência ideológica e por achar que não faz sentido promover o liberalismo junto do eleitorado estando integrado num partido do actual poder instalado. Mas, se eu estiver à partida predesposto a uma solução utilitarista, acho que é um caminho coerente. Vê por exemplo o caso do João Almeida (lider da JP do CDS): a moção que ele apresentou no último congresso do CDS conseguiu ter grande visibilidade, e até por em cima da mesa várias questões de índole liberal. Não considero que seja um liberal, e nem seria (a não ser pelo seu cargo) alguém com particular relevância no partido. Mas conseguiu passar alguma mensagem.

"A ideia é que um indivíduo não se pode associar a um grupo que tem ideias diferentes, mesmo que outras em comum, para não comprometer a sua coerência ideológica."

É um bocado ires inscrever-te (para usar a analogia do FML) no Benfica só porque gostas de futebol, ou na ICAR só porque gostas da gastronomia associada às festas religiosas... :-)

A pergunta, se calhar, é qual é a percentagem dessas ideias comuns versus a das que são diferentes. E o porquê.

E quantas "vacas sagradas", quantas questões consideradas por ti como pontos assentes para além de discussão, são vilipendiadas por essa maioria.

"Esta pergunta é provocatória. Se houve uma coisa que o Filipe não arriscou foi a sua coerência idelógica. Arriscou-se a ser hostilizado pela maioria no mls, mas dificlmente perdeu a coerência."

Eu não digo que a tenha perdido. Mas acho que está claramente em cima da mesa que a vai perder se insistir. A menos que se demarque sistematicamente das suas iniciativas, o que poderá fazer pensar no que está lá a fazer em primeiro lugar. E a ser acusado pelos outros de empata e que se é assim tão diferente que seja consequente e saia e faça o seu próprio movimento.

"Eu estive e estou muito mais perto de mudar de sistema do que tentar mudar o sistema."

Sim, mas não estaríamos a ter esta conversa se não achássemos que valia a pena tentar, ou que a mudança é mais ou menos inevitável.

JLP disse...

"Se algo não faz sentido, revê as tuas premissas, e se o fizeres de maneira adequada, vais perceber que de repente tudo faz sentido."

Filipe, o comentário anterior também era, naturalmente, para ti.

Mas olha que, por essa razão de coisas, um dia ainda acordas social-democrata! :-D

Cirilo Marinho disse...

"João, eu sou Portista em Lisboa, estou habituado em viver em minoria. E estou habituado a ver o meu clube ganhar."

Eu sabia que havia qualquer coisa em ti não lisboeta :)

Anónimo disse...

JLP,


Tu ves muitas posicões diferentes da do Filipe. Eu, que só conheço a realidade do mls do blog, acho que têm todos posições muito diferentes. Isso misturado com uma táctica inclusiva como a que o Miguel adoptou arricas a que o resultado imediato não seja o melhor.

Dado a falta de suporte ideológico das vozes activas e agressivas contra o Filipe não me parece que o ideário do mls esteja perdido. Reforço o ponto que não vejo nenhuma corrente dominante, vejo muita discussão e devido a isso mesmo dificuldade em chegarem a acordo nas posições centrais.

Olhando para a carta de princípios (que reli além de ler a do PND - não gozes comigo com essas comparações) deste-me ideiais. Isto porque vejo muitos posts que podem ser comentados com suporte nessa carta de princípios, e não são os do Filipe. Continuo a achar que há muita gente ao engano por aquelas paragens, e mais uma vez, não é o Filipe. E nesse aspecto acho que o Miguel pode ter um papel mais forte na separação de águas, mesmo compreendendo a necessidade de massa crítica.

De qualquer forma se souberes de um movimento político onde tipos como eu nos sentíssemos bem avisa. E por favor não fales nos Partidos que andam por aí...

Como dizes é óbvio que acredito que este sistema tem que mudar, nem que seja por cair de podre.

Ricardo Francisco

JLP disse...

"Dado a falta de suporte ideológico das vozes activas e agressivas contra o Filipe não me parece que o ideário do mls esteja perdido."

A questão é que esse suposto "ideário" é definido exactamente por essas vozes activas e agressivas, à falta de ter sido estabelecido de um modo sério oportunamente.

"Olhando para a carta de princípios (que reli além de ler a do PND - não gozes comigo com essas comparações)"

I kid you not: Declaração de princípios do PND

Tive o prazer de conhecer pessoalmente e ainda falar ocasionalmente com a pessoa que a idealizou, que não é nada pessoa ajustada ao estereótipo do PND que se veio a estabelecer. Também já não está por lá.

"Continuo a achar que há muita gente ao engano por aquelas paragens, e mais uma vez, não é o Filipe."

"Um partido tem sempre de fazer uma escolha : ou deseja ser um partido de ideologia ou ser um partido de governação

Se decidir ser um partido de ideologia escolhe uma ideia bem específica e fica fechado nessa ideologia, rejeitando todos aqueles que não fazem parte da mesma. Se optássemos por esta escolha, apenas ficavam os liberais sociais, ou seja os mais semelhantes a partidos como o D66 e o LibDems.

Se por outro lado, decidir ser um partido de governação deve ter um leque bastanta abrangente e tolerante. MAs um partido de governação tem de funcionar pela concordância e diálogo com a maioria. Tem também de ser extremamente pragmático, saber dialogar, saber ceder e saber negociar.
Por isso é que um partido de governação deve ser abrangente para o centro, não para os extremos." - Hugo Garcia.

Acho que este comentário diz tudo...

Além de que é muito pouco original. Já o ouvi em outras paragens, quando mais cedo ou mais tarde surge o confronto entre os ideólogos políticos e a malta que só pensa em chegar rapidamente ao poder e pendurar pendões, independentemente do que está lá escrito. Depois na altura pensa-se.

"De qualquer forma se souberes de um movimento político onde tipos como eu nos sentíssemos bem avisa."

Note taken... :-)