Nós os ultra

Toda e qualquer mudança de valores ao longo da história sempre foi um exercício de extremismo e de fundamentalismo. Sempre que se entrou em rasgo com os valores estabelecidos, os novos valores propostos sempre foram percepcionados por aqueles que defendiam o status quo como drásticos, radicais e extremistas.
Note-se que o simples facto de rotular uma posição de fundamentalista é desde já uma visão parcial e etnocêntrica do assunto, pois apenas qualifica o modo como este terceiro se posiciona em relação a ele. Quem qualifica de extremista ou fundamentalista parte também do princípio que o outro tem desde já uma concessão moral a fazer quanto ao seu posicionamento.
A denúncia do extremo é por isso uma postura de defesa do poder. O direito à propriedade encontra-se hoje sujeito a regulamentação pública. Isso significa que aos cidadãos não é consentida a emancipação e o livre exercício do património. Um liberal pretende devolver a liberdade ao seu proprietário. Um proibicionista não. Quando o Miguel Duarte fala de "fundamentalismo liberal", deixa subjacente a ideia de concessão perante a regulação estatal e perante um certo conceito de liberdade máxima, que não chega a definir.
Nem é o rótulo de extremista ou fundamentalista do qual discordo. Pois o extremo depende tanto da escala, como do universo de hipóteses excluídas. O CDS estava no extremo do hemiciclo após as primeiras eleições em 1975, depois de se excluir e proibir todos os partidos de direita. Logo, o CDS passou a ser rotulado de partido de extrema-direita e teve a sua sede saqueada por diversas vezes. Foi apupado por votar contra a constituição de 1976. Irónico precisamente após 30 anos, lendo os programas dos outros partidos da época, inspirados na via ao socialismo, constatar que é esse mesmo extremo que hoje mais se assemelha aos programas do PS e do PSD, ou seja o status quo de hoje. Mas esse é um banal e insípido exemplo da nossa história. Vejamos onde nos poderia ter levado a lógica da denúncia do extremo ao longo do tempo:
- as sufragistas são umas extremistas que defendem o voto ao extremo, logo hoje em dia as mulheres deveriam ter meio voto
- os abolicionistas defendem a abolição da pena de morte ao extremo, logo a cadeia eléctrica deveria deixar o condenado meio morto
- Darwin defendia a evolução das espécies ao extremo, logo o correcto é explicar às crianças que o homem surgiu do consenso entre Deus e a natureza
Se alguém se lembrar de mais exemplos, fico grato.