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2008/01/04

Nós os ultra


Toda e qualquer mudança de valores ao longo da história sempre foi um exercício de extremismo e de fundamentalismo. Sempre que se entrou em rasgo com os valores estabelecidos, os novos valores propostos sempre foram percepcionados por aqueles que defendiam o status quo como drásticos, radicais e extremistas.

Note-se que o simples facto de rotular uma posição de fundamentalista é desde já uma visão parcial e etnocêntrica do assunto, pois apenas qualifica o modo como este terceiro se posiciona em relação a ele. Quem qualifica de extremista ou fundamentalista parte também do princípio que o outro tem desde já uma concessão moral a fazer quanto ao seu posicionamento.

A denúncia do extremo é por isso uma postura de defesa do poder. O direito à propriedade encontra-se hoje sujeito a regulamentação pública. Isso significa que aos cidadãos não é consentida a emancipação e o livre exercício do património. Um liberal pretende devolver a liberdade ao seu proprietário. Um proibicionista não. Quando o Miguel Duarte fala de "fundamentalismo liberal", deixa subjacente a ideia de concessão perante a regulação estatal e perante um certo conceito de liberdade máxima, que não chega a definir.

Nem é o rótulo de extremista ou fundamentalista do qual discordo. Pois o extremo depende tanto da escala, como do universo de hipóteses excluídas. O CDS estava no extremo do hemiciclo após as primeiras eleições em 1975, depois de se excluir e proibir todos os partidos de direita. Logo, o CDS passou a ser rotulado de partido de extrema-direita e teve a sua sede saqueada por diversas vezes. Foi apupado por votar contra a constituição de 1976. Irónico precisamente após 30 anos, lendo os programas dos outros partidos da época, inspirados na via ao socialismo, constatar que é esse mesmo extremo que hoje mais se assemelha aos programas do PS e do PSD, ou seja o status quo de hoje. Mas esse é um banal e insípido exemplo da nossa história. Vejamos onde nos poderia ter levado a lógica da denúncia do extremo ao longo do tempo:

- as sufragistas são umas extremistas que defendem o voto ao extremo, logo hoje em dia as mulheres deveriam ter meio voto
- os abolicionistas defendem a abolição da pena de morte ao extremo, logo a cadeia eléctrica deveria deixar o condenado meio morto
- Darwin defendia a evolução das espécies ao extremo, logo o correcto é explicar às crianças que o homem surgiu do consenso entre Deus e a natureza
Se alguém se lembrar de mais exemplos, fico grato.

2007/06/18

Pelo financiamento privado dos partidos (1)

Quando o PNR ganhar um deputado a malta da extrema esquerda vai-se juntar a esta causa....

2007/05/02

Luta por quota de mercado

O líder do Partido Nacional Renovador (PNR) defendeu hoje o "trabalho nacional" e o combate à imigração, num discurso com críticas ao Governo socialista, ao "mentiroso Jerónimo de Sousa" e aos "burgueses de caviar do Bloco de Esquerda".

[...]

"O estado deve ser interveniente no que diz respeito à justiça social, às reformas e à família e tem de intervir no equilíbrio salarial", defendeu.

"Não é só atirar pessoas para o desemprego, prejudicar o interior ao fechar centros de saúde e a seguir abrir clínicas privadas que favorecem bancos e seguradoras", acusou, salientando que "os nacionalistas não são contra a iniciativa privada".

"As instituições são boas mas o capital e a iniciativa privada terá de estar ao serviço da nação", afirmou.

Pinto Coelho acusou o Governo de ter "ideias como a mobilidade (dos trabalhadores) que cortam a estabilidade, a segurança e o equilíbrio do país".

O líder do PNR lembrou que a classe média portuguesa está cada vez mais endividada, enquanto os governantes "acumulam o tacho", "servem e servem-se do capitalismo selvagem em nome do lucro e da competitividade".

Público Última Hora.

2007/04/30

Leituras

A ler, Programa do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores e Comunismo versus nazismo e fascismo, pelo João Miranda no Blasfémias, e A ignorância liberal, por João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas.

Porque torna-se cada vez mais premente compreender que a divisão entre esquerda e direita, herdeira da escolha de cadeiras no aftermath da Revolução Francesa, está cada vez mais morta e faz cada vez menos sentido.

2007/04/20

Até parece um debate de campanha de cá (not)


(Via Filipe Melo Sousa.)

Não sou particular simpatizante ou detractor de Sarkozy. Não acompanho a sua carreira política nem o programa político que propõe com suficiente proximidade para poder ter uma posição ponderada sobre a sua candidatura.

Mas não pude deixar de acompanhar com gozo o excerto da troca de argumentos televisiva entre ele e Le Pen, em que se confirma de forma paradigmática aquilo que eu (entre várias pessoas) tenho vindo a defender: não é com proibições que se erradicam ou que se esmagam os discursos xenófobos. É desmontando o absurdo e a irracionalidade dos argumentos e confrontando aqueles que os usam em estratégias populistas.

Sobre a problemática concreta do critério de sangue vs. critério territorial na questão da nacionalidade, Le Pen foi bem encostado à parede, inclusivé pela introdução em cena por Sarkozy da sua história familiar.

Mas o melhor ficou para o fim: o já visivelmente excitado Le Pen (en grande parte pela réplica e pela postura serena de Sarkozy), arremessa a acusação de que Sarkozy prometera demitir-se se falhasse, acrescentando que na sua opinião este falhou e é um falhado. Vejam a réplica, a que nem o público resistiu.