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2007/09/14

Autoridade

Há cerca de 2 anos tive a oportunidade de passar 1 mês em Dharamsala. Durante esse período ouvi muitos relatos de jovens tibetanos que se tinham arriscado passar a fronteira da Índia com a China em caminhadas de mais de um mês pelos Himalaias para se juntarem àquela comunidade. Saem de casa da família com absolutamente nada, e tudo o que o espera é acolhimento temporário da comunidade estabelecida. Não o fazem por dinheiro ou por serem perseguidos, fazem-no porque querem estar próximos do seu líder. É um tipo de autoridade que nenhuma forma de coerção consegue conquistar.

2007/06/28

O obreiro de grandes passos em direcção a um estado policial foi-se

E já foi tarde, quanto a mim. Afinal, o seu curriculum fala por si, naquilo que define um inimigo da Liberdade, que conseguiu transformar porventura um dos países europeus com maior tradição de respeito por esta e pelos cidadão num estado sob vigilância, e onde a marca da subjugação por um estado policial e com tiques totalitários se vai tornando mais distinta a cada dia.

Senão vejamos a herança Blair: as Anti-Social Behaviour Orders (ASBOs para os amigos - e onde o nome diz muito - em que se permitiu ao poder judicial a privação de liberdades e a sanção de comportamentos baseada em princípios de prova de direito civil, e não de direito penal e em juízos abstractos de perigosidade); a possibilidade de deter alguém arbitrariamente durante um período de 28 dias (que, se tivesse vingado a posição do governo seria de 90 dias); a promoção do vigilantismo como mecanismo de segurança; a imposição de um projecto megalómano de cartão de identificação nacional, com informação biométrica, num país sem tradição de identificação civil; a construção de uma massiva base de dados de ADN, englobando informação genética de todos os detidos, mesmo que nunca tenham sido acusados; o ter transformado o Reino Unido no campeão mundial da videovigilância, em que existe uma média de uma câmara por cada 14 pessoas; o ter patrocinado uma intervenção ao nível da cultura do politicamente correcto na publicidade e na actuação dos media, na melhor tradição do nanny state; afinal, last but not least, ter patrocinado e participado numa invasão ilegítima de um país soberano, e contribuído para o descrédito do direito internacional público, promovendo um clima internacional de extremismos e de unilateralismos.

São estas algumas das coisas que se pode agradecer ao senhor Blair e à sua política governativa. Numa sucessão de mandatos pautada por um total vazio de oposição, sustentado em grande reconhecimento do seu carisma e da sua visibilidade mediática, e em que poderia ter feito a diferença tentando herdar da sólida tradição política britânica, foi a este ponto que chegámos.

Assim como Thatcher não acautelou a sua sucessão (mas deixou melhor obra), também Blair sai sem o fazer, promovendo Brown ao estatuto de ser o Major do Labour.

Ontem, o Reino Unido perdeu um inimigo, que deixa marcas difíceis de reverter. Trocou-o por em cenário político em que um Cameron perdido nas suas campanhas de imagem e uns LibDems folclóricos se opõem a um cinzentão de serviço, que faz opor à opulência de carisma do seu antecessor uma imagem desprovida de qualquer gota deste.

Trocou-se a ambição desmedida e perigosa pelo deserto de ideias e de protagonistas. Mas, mesmo assim, parece-me melhor o desfecho.

(Publicado também n'O Insurgente.)

2007/04/30

The Trial of Tony Blair


Serão bem passado televisivamente ontem na RTP1, com a apresentação do telefilme The Trial of Tony Blair, uma produção do Channel4 que relata um cenário futuro de um 2010 em que Tony Blair acaba a ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional pela sua intervenção no Iraque.

Para mim, teve muita, muita piada. Por várias razões, e em relação a vários pontos que achei muito bem conseguidos. Num regísto satírico e cáustico, impiedoso em relação a todas as personagens retratadas, mas evitando cair num discurso acéfalo anti-Bush (remetido à rehab e substituído por uma Hillary Clinton pronta a trilhar o "caminho da paz" aos olhos das sondagens) e Blair, e antes apontado em construir todo um retrato satírico da política britânica, da farsa do direito internacional e das relações do Reino Unido com o seu aliado trans-atlântico.

A principal vítima, sobretudo e naturalmente Blair, retratado como obcecado pelo seu "legado histórico", pela necessidade de perdão, e pelo desconforto da sua substituição por Brown nos destinos da nação. Um Blair com problemas financeiros, num escritório que não consegue pagar aguardando ansiosamente o telefonema do amigo ou da instituição estrangeira que lhe vai pegar e garantir o futuro, desesperado ao ver a sua biografia rejeitada pelo editor, se por mais motivos não fosse pelas suas 29 repetições da memória de ter sentido a "mão da História" no seu ombro.

Mas também um Brown "sem um pingo de carisma", que vive para o o seu némesis de pertido, remetido a uma maioria eleitoral irrisória de dois deputados (em muito com o patrocínio de Blair). Ou um Cameron folclórico e inconsequente, procurando a câmara e o grupo de interesse para que fala naquele dia, insensível ao ridículo a que se expõe.

O golpe de misericóridia? Uma chamada à embaixada dos EUA, onde é informado que nos próximos dias, por força das circunstâncias, vão ter que dizer umas coisas más dele. Mas que ele pode continuar certo de que vão continuar do lado dele. Ou a votação da instituição do tribunal internacional, no Conselho de Segurança, pela unanimidade dos votos, à excepção de um embaixador inglês remetido à casa de banho durante a votação. Ou já no fim, sendo identificado numa esquadra e insurgindo-se contra a recolha compulsiva do seu ADN, sendo lembrado pelo seu advogado que tal procedimento foi instituído por si próprio.

Para algo com os pressupostos de um telefilme, muito bem conseguido. E já agora a consagração da maneira muito especial de se ser britânico, da capacidade de rir com eles próprios e de sátira mais mordaz. Da impossibilidade de se ter um filme por cá, no mesmo registo, a satirizar com os nossos políticos de mesmo estatuto, produzido por um canal de serviço público de televisão. Sei lá. Por exemplo sobre a licenciatura do nosso primeiro.