2007/01/29

Reality check

1. Este post é para pedir às pessoas que contribuam com dinheiro para a campanha do SIM. Este é talvez um ponto em que o SIM perde por estar associado à esquerda: recebe menos apoios privados (a esquerda costuma ser menos generosa; não sei se há dados para Portugal).

2. Uma campanha custa dinheiro. Muito dinheiro. Quem faz campanha dedica-se, esforça-se, mas há coisas que só com dinheiro. Outdoors custam mais do que o suor do rosto.
Caro Luis Pedro: lendo as suas palavras, ficar-se-á com a ideia que a campanha do Sim é feita por meia dúzia de carolas, que andam a pintar tarjas nas garagens e a fazer fotocópias de prospectos. Que os desgraçados penam por meia dúzia de trocados. Ora, face aos orçamentos apresentados que totalizam em torno de 1,4 milhões de euros para o apoio do Sim, num total de 2,3 milhões de euros orçamentados por todas as associações, movimentos e partidos que vão participar da campanha, pergunto-me se esses números não serão já mais que suficientes, e em grande parte um atentado a quem tem dificuldades bem piores dos que as que estão na mesa. Eu sei que a economia está difícil, e também sei que a indústria da publicidade passa por dificuldades, que acompanham naturalmente esses tempos difíceis. Mas não me parece que torrar dinheiro em propaganda seja uma qualquer prioridade nacional.

Se essas pessoas, ao invés de pegarem nesse dinheiro (que o estado ainda lhes deixa nas mãos) para o gastarem em foguetes e festejos, o investissem ou dedicassem a causas bem mais nobres do que essa, ou a ajudar o próximo em verdadeiras dificuldades, se calhar era bem mais empregue, não acha?

Aliás, como já por aqui referi, se pegassem em grande parte desse dinheiro e constituíssem um fundo anunciado como dedicado ao pagamento do aborto por critérios económicos que definissem a quem achassem que não tinha essa possibilidade económica, num cenários de vitória do Sim (ao invés de previsivelmente chutarem isso para cima do contribuinte), se calhar mobilizariam muitas mais pessoas a votarem nesse sentido. Mais do que em andarem a colocar outdoors ou a distribuir prospectos que pura e simplesmente já vão sendo ignorados por todos.

2 comentários:

luispedro disse...

1. Os 1.4 milhões são enganadores: metade é do PS. Em termos de iniciativa privado, o NAO ganha.

Além disso, isso são números orçamentados. Não significa que essas instituições (à excepção do PS), tenham o dinheiro. Estão a angariá-lo. Esse era o sentido do pedido.

2. "Se essas pessoas, ao invés de pegarem nesse dinheiro [...] o investissem ou dedicassem a causas bem mais nobres do que essa, ou a ajudar o próximo em verdadeiras dificuldades, se calhar era bem mais empregue, não acha?"

Este argumento é sempre destrutivo de qualquer discussão, mas, por isso mesmo, deve ser evitado. Acaba com a discussão, não a avança. Por exemplo, se eu dissesse:

Se vocês que defendem a vida, defendessem mesmo a vida, estariam a blogar sobre Darfur e não sobre o aborto ou coisas menores. Posts sobre tricas na CML, pintos no google, e caça com telemoveis. Não pensa que Darfur é mais importante? Ou será que por serem negros não importam?

JLP disse...

Caro Luís Pedro,

"Os 1.4 milhões são enganadores: metade é do PS."

E o PS defende institucionalmente o quê?

"Em termos de iniciativa privado, o NAO ganha."

Iniciativa privada? Os partidos são o quê, empresas públicas?

"Além disso, isso são números orçamentados. Não significa que essas instituições (à excepção do PS), tenham o dinheiro."

Pois, mas é verdade que o PS o tem. E não acha que é mais do que suficiente para uma campanha condigna pelo Sim? É que os movimentos pelo Não, seguindo a sua lógica, partilham da mesma situação de terem o valor "orçamentado". Não primam da segurança dos diversos apoios partidários (à excepção do do CDS) da causa do Sim.

Como ficamos então?

"Se vocês que defendem a vida, defendessem mesmo a vida [...]"

Mas o meu caro já viu alguém aqui nesta casa argumentar pela "defesa da vida"? Recomendo que releia os meus argumentos (1, 2).

"Não pensa que Darfur é mais importante?"

São questões diferentes. Como já defendi sucessivamente neste blog, sou a favor da soberania absoluta dos estados. Como tal, para mim o Darfur é um problema do Sudão, e eventualmente dos estrangeiros que tenham contribuido para o que aconteceu. Sempre foi essa a minha posição.

Como português, participo das decisões e dos problemas que afectam os portugueses. É isso que está em cima da mesa. Acenar com o Darfur quando se discute uma coisa que vai afectar diariamente vizinhos e concidadãos e que ameaça ir-me sair do bolso, parece-me isso sim uma estratégia de fuga para a frente e de não querer discutir o que está em cima da mesa.