2007/01/11

Quem é que continua a ser amigo?

Como seria de esperar, o artigo anterior já suscitou resposta. O Miguel Duarte, no blog do MLS e em stereo no blog de um dos movimentos pelo Sim, apressou-se a fazer as despesas do damage control.

A campanha do Não, à falta de argumentos convincentes, resolveu já há algum tempo sacar do bolso o argumento económico. O que me espanta é que alguns e outros, caiam na esparrela e digam que esta é a razão porque vão votar não.
Aparentemente o argumento, de tão claro e óbvio, parece que foi "sacado do bolso" para toldar o raciocínio dos ingénuos, num acto de desespero das mentes maquiavélicas por detrás da campanha do Não. Mas, se calhar, era melhor reavaliar as coisas. É que confirmando a data do meu artigo original de tomada de posição (aliás também ligado abaixo), pode-se concluir que a sua publicação neste blog, provavelmente num rasgo de presciência, antecedeu a referida campanha. São coisas...
A título de exemplo, tive conhecimento de uma amiga na Dinamarca que entrou em desespero porque até neste país, estava complicado conseguir abortar no sistema público dentro do prazo legal. Ora, se por cá, se demora frequentemente 3 meses para se conseguir uma consulta médica, e vários anos para uma operação, alguém com tino na cabeça acredita mesmo que em uma questão de poucas semanas alguém vai conseguir marcar um aborto num hospital público?
A questão, caro Miguel, não é quem faz. É quem paga. Ninguém está a dizer que a generalidade dos abortos eventualmente a serem liberalizados vão ser feitos nos hospitais públicos. O que não inviabiliza que sejam feitos no âmbito do SNS, resultando em despesa para todos os contribuintes.

O que o Miguel está convenientemente a omitir é que, de entre pessoas que "esperam 3 meses por uma consulta" estão muitas vezes pessoas que sofrem essas sim de patologias graves, muitas vezes descobertas tardiamente ao fim desses 3 meses porque o estado não lhe confere o direito de ir à privada a expensas do SNS como agora afoitamente se apressa a garantir para o caso do aborto. Assim como não o garante a pessoas que fazem parte das enormes listas de espera para cirurgias (em muitos casos largamente superiores aos referidos 3 meses) do SNS, que acarretam tempos de espera muitas vezes lancinantes a pessoas que não "escolheram" estar na situação que estão, mas que são vítimas de um infortúnio inevitável.

Além disso, do raciocínio apresentado resulta uma conclusão: sendo os recursos humanos e materiais disponíveis limitados, e principalmente fixos para uma determinada despesa associada ao funcionamento do SNS, a introdução desta nova despesa e competência poderá ter uma de três conclusões óbvias:
  • Ou vão ser reafectados recursos e despesas de outras competências do SNS e genéricamente da Saúde;
  • Ou vão ser reafectados recursos e despesas de outras partes da administração do estado
  • Ou vão ser aumentados os impostos.
No caso dos cortes ou reafectação de recursos, seria interessante saber dos apoiantes do Sim onde é que estes vão ser feitos, quer na Saúde quer noutros sectores do estado. No caso do aumento dos impostos, seria, pelo menos, um gesto de honestidade e de responsabilidade que viessem a público assumir a sua defesa.

Mas, de pessoas tão voluntariosas, tenho pena que ainda não tenha recebido uma crítica ou comentário à proposta construtiva que fiz. Afinal, seria um caminho expedito para resolver o problema, e ficaria demonstrada uma vontade sincera de resolver o problema, em que os que o proporiam poderiam demonstrar que colocavam o seu dinheiro where there mouth is. E não que somente se preparam para expoliar os do costume para levarem a deles avante e cumprirem a sua agenda política.

8 comentários:

anacruses disse...

e o aborto musical?

Miguel Duarte disse...

"As mulheres que queiram realizar um aborto nos hospitais públicos, se for despenalizado, têm de ser identificadas como em qualquer acto médico, caso contrário terão de fazê-lo no privado e pagar a intervenção, segundo fonte oficial.

Fonte do gabinete do ministro da Saúde adiantou que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) assegura o custo da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), mas apenas para as mulheres que dêem o nome aos serviços, tal como acontece com qualquer outro acto médico.

Isto não significa, esclareceu a mesma fonte, que a privacidade da mulher possa ser posta em causa nos serviços de saúde públicos, tratando-se antes de um procedimento normal e comum a todos os utentes.

As mulheres que optem pelo anonimato poderão realizar a IVG no sector privado, pagando o seu custo.

Sobre o custo da IVG, a mesma fonte corroborou as afirmações de António Correia de Campos que quinta-feira, durante uma entrevista à SIC, enumerou o exemplo espanhol que aponta para uma despesa de cerca de 300 euros com o aborto químico (comprimidos) e 700 euros no não clínico."

Dá-me lá um artigo para as notícias onde o Estado diz que vai pagar abortos no privado.

Além disso, mesmo partindo do princípio que isso iria acontecer. 700 € são mais baratos que todos os custos que irias ter que pagar caso o aborto seguisse para a frente (gravidez, segurança social, impostos perdidos, crimes, etc).

Admite lá, tu vais votar não por outras questões, não tem nada a ver com os impostos, que de um ponto de vista racional não faz qq sentido.

Miguel Duarte disse...

Quanto a colocar o dinheiro "where the mouth is"...

Que tal os do "Não" começarem a pagar a educação, comida, etc., das "crianças" que querem salvar e cujos pais não têm condições para sustentar e por isso querem abortar?

JB disse...

Caro JLP,

Há que comparar os custos para os contribuintes de abortos tendencialmente gratuitos com os cutos para os mesmos da perseguição criminal das mulheres acrescido das múltiplas iniciativas que os defensores do "não" propôem para ajudar as mulheres grávidas que escolheram fazer um aborto. Tenho muitas dúvidas de que os custos para o contribuinte sejam maiores no primeiro caso e é por isso que considero mau o argumento. Quem votar no próximo referendo decide por uma questão de princípio e não pelo facto de, num juízo de prognose, achar que, como contribuinte, paga mais por uma opção ou por outra.

Quem é a favor da descriminalização, não vai mudar de opinião pelo facto de o aborto ser pago pelos contribuintes. Se mudasse de opinião, não estaria a ser racional, uma vez que o "não" junta um resultado indesejado (criminalização) a custos indesejados (custos com a perseguição criminal das mulheres que abortaram mais custos das campanhas prometidas de ajuda às mulheres grávidas).

Resta que é muito mais fácil revogar uma lei que preveja o financiamento pelos contribuintes dos abortos praticados no SNS ou em clínicas privadas do que, em caso de vitória do "não", fazer um novo referendo. Também por aí o eventual eleitor do "sim" terá boas razões em manter a sua decisão de votar a favor da descriminalização.

Um abraço,

Ps: dito isto, muito gostaria eu de ver os liberais a preocuparem-se com os custos para o contribuinte de uma ou outra opção depois da discussão sobre o aborto. É por isso que deixei de apoiar o liberalismo "à portuguesa", o que não significa que tenha deixado de ser liberal.

Tiago Alves disse...

Caro JB,

De facto, o que os apoiantes do Não argumentam é que, se há dinheiro disponível para financiar os milhares de abortos clandestinos que se dizem existir, então que esse dinheiro seja investido nos apoios às jovens mães ou na melhoria dos centros de apoio familiar. Que convenhamos não apoiam grande coisa a não ser dar umas caixas de preservativos.

Aliás, a sua conclusão também é errónea. Se o SIM ganhar, não vai haver (não pode haver) uma redução nas verbas destinadas a estes apoios. Assim, quaisquer euros gastos a mais serão sempre "a mais": mais impostos ou carência de euros noutro sítio qualquer. Cristal clear.

Caro Miguel,

"700 € são mais baratos que todos os custos que irias ter que pagar caso o aborto seguisse para a frente (gravidez, segurança social, impostos perdidos, crimes, etc)."

Sinceramente, isto sim é sacar do bolso um argumento em cuja esparrela só alguns fanáticos que não sabem que entre o sujeito e o predicado não se mete vírgulas podem cair.. Ah, e é imoral! :P

JLP disse...

"As mulheres que queiram realizar um aborto nos hospitais públicos, se for despenalizado, têm de ser identificadas como em qualquer acto médico, caso contrário terão de fazê-lo no privado e pagar a intervenção, segundo fonte oficial."

Miguel, desculpa lá, mas eu falo-te de alhos, e tu vens-me falar de bugalhos...

JLP disse...

"Que tal os do "Não" começarem a pagar a educação, comida, etc., das "crianças" que querem salvar e cujos pais não têm condições para sustentar e por isso querem abortar?"

Honra lhes seja feita, e sou insuspeito de simpatias particulares, a ICAR tem agido desse modo, na medida das suas possibilidades. Existem diversas associações privadas desse tipo que prestam esse género de apoio. Bastante diferente do que se poderá dizer da generalidade dos movimentos que apoiam o Sim.

JLP disse...

JB,

Respondi à generalidade das tuas questões no teu comentário ao outro artigo (anterior).