2007/01/31

Resposta ao desafio

Recebido por e-mail:

  1. Concorda com a realização do referendo e a formulação da pergunta?

    Não. O direito de viver não se referenda em prol do conforto financeiro de uma mulher. Mas pelo andar da carruagem cá estaremos em 2016: “concorda, apesar de já ter dito duas vezes que não, com o aborto por qualquer motivo que a mulher possa alegar, num país rico em que ninguém passa fome?”

  2. Considera que as mulheres que abortam antes das 10 semanas de gestação deverão ser efectivamente condenadas a penas de prisão? E depois das 10 semanas?

    Claro que não. Quem deve ser responsabilizado são os médicos e as parteiras que o praticarem ilegalmente sobre mulheres que recorram a eles. Isto não quer dizer que se legalize o aborto. O aborto deve continuar a ser ilegal. Mas a penalização deve é recair sobre as pessoas certas. Despenalizar a mulher que recorre ao aborto não é legalizar o aborto. Isso é um argumento desonesto do sim. Idem para o aborto após as 10 semanas, caso a lei passe.

  3. Concorda com as excepções da actual lei?

    Sim

  4. Considera a pílula do dia seguinte um método abortivo? Concorda com a sua utilização?

    Não, a pílula apenas inibe a ovulação. Mas falha caso esta ocorra durante a noite, se a comprarmos no dia seguinte.

    Sim, e já dei por mim a comprá-la na farmácia

  5. Caso o Não vença e o referendo não seja vinculativo, aceitaria a realização de um novo referendo nos próximos 10 anos?

    Então a primeira pergunta não condiciona esta? Se não concordo com um segundo referendo, não concordo com um terceiro.

    Pressuposto: nunca haverá um referendo vinculativo na nossa história. E pressuponho que muito raro será o sufrágio com mais de 50% de participação.
Filipe Melo Sousa

3 comentários:

SMP disse...

Não é verdade que a pílula do dia seguinte apenas iniba a ovulação; pode expulsar um óvulo já fecundado. Aliás, em abono da verdade, e por muito desconcertante que isto seja para algumas das posições do Não, a pílula vulghar também não funciona sempre com efeito preventivo. Trabalha em três frentes: provoca alterações no muco cervical de forma a dificultar a passagem dos esperamtozóides; inibe a ovulação; se as duas falharesm, impede a nidação. Do ovo, entenda-se. De um óvulo já fecundado, portanto. Se não acreditam, leiam uma bula...

Bruno Carrilho disse...

Gostaria de corrigir 2 erros cientificos que foram cometidos no último post de SMP.
Em 1º lugar, a pílula do dia seguinte não é de facto ABORTIVA. É uma das primeiras coisas que os alunos de Medicina aprendem nas aulas de planeamento familiar.
Em 2º lugar, a pílula vulgar não inibe a nidação.

Começando por explicar o último ponto, não recorrendo a resumos enviezados mas sim à literatura cientifica, a combinação estro-progestativa (vulgar pílula) não inibe a nidação pela seguinta razão: NÃO HÁ OVULAÇÃO. O etinilestradiol (componente estrogénico da pilula) impede que os foliculos ováricos se desenvolvam e, portanto, impede que se formem óvulos no óvário. Por outro lado, a Progesterona (o segundo componente da pílula) inibe efectivamente a ovulação, i.e., inibe que qualquer óvulo que se desenvolvesse nos ovários seja expulso para as trompas. Portanto, mulher que toma a pílula durante 21 dias pontualmnete, NÃO TEM OVULAÇAO.
(Se quiserem certificar-se, podem consultar a bula de uma qualquer pílula: pertencem todas ao grupo dos anovulatórios)
Portanto, sem ovulação, não haverá óvulo para fertilizar, não haverá fecundação, não haverá ovo nem nidação.
Mas à parte deste erro, tudo o que foi disto àcerca da pílula vulgar está certo: actua inibindo a ovulação e alterando o muco cervical, tornando-o mais inóspito à progressão dos espermatozoides. Mas esta alteração estrutural só acontece porque a impregnaçao hormonal do endométrio e endocolo é CONSTANTE e CONTINUA durante os 21 dias que a mulhe toma a pílula.

Em relação ao segundo ponto: A pílula do dia seguinte não é abortiva porque SÒ inibe a ovulação. Isto é A caracteristica endócrina da pílula do dia seguinte que vem em todos os tratados de ginecologia médica. Não altera o muco, não impede a nidação NEM EXPULSA O ÓVULO. E a razão é muito simples: Não há tempo para que essas alterações estruturais ocorram.
A pilula do dia seguinte consiste numa combinação das mesmas 2 hormonas que compõem a pilula vulgar (ou então, só progesterona). A diferença está que na pilula do dia seguinte, tomam-se grandes concentraçoes dessas hormonas num curto espaço de tempo. Dá-se um BOOM hormonal! É um pico intenso mas rápido, éfemero, que não dura mais de 30 minutos. Esses 30 minutos são suficientes para que a ovulação seja inibida mas não é tempo suficiente para alterar o endométrio nem o endocolo, ie, não ha alterações do muco nem da putativa nidação. Para além disto, nenhuma pílula actua no musculo do utero (miometrio) logo, é impossivel que possa expulsar o óvulo,
A inibição da ovulação funciona por um mecanismo complexo de retro-controlo negativo que a progesterona exerce nas células gonadotróficas da hipófise, inibindo a libertação de LH (hormona fundamental para a ovulação).
Finalizando, se uma mulher tiver relações sexuais desprotegidas às 21h e só tomar a pílula às 9h do dia seguinte poderá engravidar se a ovulação ocorrer nessa noite. Se o ovulação ocorrer durante essas 12h, o óvulo vai encontrar os espermatozoides que já estao na trompa desde as 21h10 (ou mais cedo até lol) e a fecundação ocorre. O ovo desce a trompa e 5 dias depois implatanta-se na decidua materna. A pilula do dia seguinte só funciona se a ovulação nao tiver ocorrido ANTES da administração. Se a mulher for a tempo de tomar a pílula antes da ovulação (logo, quanto mais depressa a tomar maiores sao as hipoteses de impedir a ovulação), o óvulo que estava no ovário pronto para ser expulso para as trompas fica retido e nunca encontrará os espermatozoides que ansiosamente o aguardam. As 72h que se estabelece como limite correspondem à esperança media de vida de um espermatozoide. Se a ovulação ocorrer 3 dias da relação, nao vale de nada tomar a pilula porque os espermatozoides estarao mortos.
Portanto, se ler a bula de uma pílula do dia seguinte é isto que encontrará: Nenhuma pílula é abortiva.

SMP disse...

Prezado Bruno Carrilho: sem discutir que oarece saber mais do assunto que eu, aí vão as fontes das minhas reservas:

- quanto à pilula do dia seguinte, veja-se particularmente a bula da Norlevo, ali onde diz, sob "Propriedades farmacodinâmicas":

O mecanismo de acção do Norlevo não está totalmente esclarecido. Nas doses utilizadas, o levonorgestrel
poderá bloquear a ovulação prevenindo assim a fecundação caso a relação sexual tenha ocorrido na fase
pré-ovulatória, quando a probabilidade da fecundação é maior. Poderá também evitar a implantação do
ovo.
No entanto, Norlevo não é eficaz, caso o processo de implantação do ovo já se tenha iniciado.


- quanto à pílula vulgar, veja-se por exemplo a bula da Minulet, sob a mesma epígrafe:
Os COA actuam por um mecanismo de inibição das gonadotrofinas. Embora o
mecanismo principal desta acção seja a inibição da ovulação, também originam
alterações no muco cervical (o que aumenta a dificuldade do esperma atravessar o muco
cervical e assim penetrar na cavidade uterina) e no endométrio (reduzindo a
probabilidade de implantação)
.


Dali, penso, se conclui: uma e outra podem actuar evitando a implantação do ovo (portanto, do óvulo já fecundado). Ora, penso que isto não sai da definição de abortivo...