2007/10/15

Vai passear pá!

O primeiro parágrafo deste texto é demonstrativo da mais profunda ignorãncia sobre a situação dos Balcãs. Convido o Luís Lavoura a visitar as dezenas de milhares de Albaneses que vivem em paz e harmonia em Belgrado. Nem é preciso tanto. Convido o Luís Lavoura a vêr o que acontece de vez em quando aos carros de matrícula croata estacionados à porta do túmulo de Tito em Belgrado. Desafio-o a conversar com a população sérvia mais jovem e questioná-los sobre a sua opinião em relação aos ataques da NATO (que não os EUA - outra inexactidão). Mais interessante: desafio-o a perguntar à população mais velha o que gostariam que acontecesse aos Albaneses do Kosovo...
Também pode ir à Macedónia e à Albânia tentar saber porque raio receberam estes países dezenas de milhares de refugiados kosovares antes da intervenção da NATO, e do que fugiam essas pessoas.

8 comentários:

CMF disse...

Caro Carlos, em relação à questão da Sérvia e do Kosovo, o Luís Lavoura tem desta vez alguma razão. Houve uma manipulação muito inteligente da situação, por parte do UCK (que apanhou do outro lado um Milosevic que ansiava o poder total, e daí o célebre: Nunca mais ninguém vos baterá, em 1987). E podíamos entrar aqui nos planos, desde o Plano Cutileiro, recusado pelos bósnios-muçulmanos depois de uma conversa com a admnistração de Bush-pai, até ao plano final, quase igual ao proposto pelo português quatro anos antes (o qual, caso tivesse sido aceite, teria certamente poupado a região aos conflitos mais sérios, aqueles que opuseram as três forças no território bósnio).

Em relação à opinião dos sérvios sobre os ataques, posso dizer que não é unânime. Enquanto uns os condenam violentamente, outros vêm na queda de Milosevic uma atenuante para as bombas que lhes caíram em cima. Mas eu já tive que lidar com ira (controlada e civilizada, felizmente) de um sérvio, em Belgrado, quando este percebeu que eu era português, um dos “aliados” nos bombardeamentos da Sérvia. Foi uma excepção. De resto, só fiz “amigos”, que preferem olhar para o futuro e esquecer o passado.

Do videnja!

Carlos Guimarães Pinto disse...

Meu caro,

Admito que o UCK se tenha aproveitado da situação no Kosovo, como provavelmente o movimento sionista se aproveitou do holocausto. É-me, como deve imaginar, mais importante nos dois casos os massacres em si (felizmente, não comparáveis), do que o aproveitamento realizado pelas vítimas. Com o passar do tempo, tendemos a esquecer da situação exacta no território. Lembro-me, por exemplo, de um enviado da ONU ao local ter narrado que algumas imagens lhe faziam lembrar o filme "A lista de Schindler". Não foram algumas dezenas de mortes como diz o Luis Lavoura. Milosevic sabia, pela experiência Bósnia, que a única forma de ganhar o Kosovo era fazer uma limpeza étnica rápida enquanto a força estivesse do seu lado. Felizmente, falhou. Se tem alguma sensibilidade para a situação naquela zona, saberá o que teria feito Milosevic ao povo de etnia albanesa do Kosovo, se tal lhe tivesse sido permitido.
Eu não disse que a opinião era consensual na´Sérvia. Antes pelo contrário. Em geral, as gerações mais novas tendem a concordar com a intervenção, ou, pelo menos, com os objectivos da intervenção. As gerações mais velhas, pelo contrário, discordarão fortemente.
Caro Carlos, mais do que "amigos", espero que tenha feito muitas "amigas". Afinal há que aproveitar o que de melhor um país tem para nos dar, n'est-ce pas? :)

abraço

CMF disse...

Carlos, mas o que é mais perverso nesta história toda, é que os massacres deram muito jeito ao UCK. Muito mesmo. De tal forma que a corda foi esticada até que tal coisa acontecesse (parece teoria da conspiração, mas não é; tivesse o Kosovo seguido mais a linha de Rugova, e as coisas podiam ter sido diferentes). Ou seja, o aproveitamento, se houve, não foi posterior aos massacres: foi antes e durante. Milosevic nasceu com o UCK e cresceu com o UCK. O UCK esfregou as mãos de satisfação com a emergência do poder de Milosevic. Alimentaram-se mutuamente, e no meio quem ficou a perder foram os albaneses e os sérvios.
De qualquer forma, tudo podia ter sido resolvido mais cedo, houve erros atrás de erros que culminaram nos ataques a Belgrado (falo da segunda vaga; e já a primeira, sustentada pelo bombardeamento ao mercado de Sarajevo, havia sido uma farsa, pois não tardou que se suspeitasse que afinal as forças sérvias nada tinham a ver com esse massacre no mercado.) E o ataque era a única solução? Não creio. E foi conduzido de uma forma a minimizar os estragos e destruir, como se diz agora, “cirurgicamente”? Acho que não. Novi Sad, por exemplo, está cheia de ruínas desnecessárias, mesmo se tomarmos uma posição favorável aos ataques.

Bem, mas como dizia o húngaro-sérvio de Novi Sad que conheci no Avala Express, pelo menos Milosevic caiu. Deixemos a História julgar a NATO “liderada” pelo bem-amado Bill Clinton. (E um dia destes tenho que renovar os livros, para ver o que se diz actualmente sobre a Krajina, e a perseguição aos sérvios efectuada pelas tropas croatas.)

Quanto às sérvias, caro Carlos, é melhor nem falar do assunto. Se as conhece, sabe tão bem como eu que aquilo deve vir de outra galáxia. Não há genes daqueles na Terra. Não pode haver. ;) (Bem, a Europa Selvagem, como lhe chamavam no início do século XX, tinha que ser compensada de alguma forma; a natureza acaba por ser justa.)

Um abraço.

Anónimo disse...

Que existe inimizade entre os diversos povos dos Balcãs, é sabido. Também há carros portugueses que são defenestrados em Madrid e Sevilla, também há inimizade ou tensão entre alguns portugueses e alguns espanhóis... daí não decorre que bombardear Portugal ou Espanha seja uma boa forma de acabar com esse estado de coisas.

De facto, bombardear só piora as coisas, pois faz subir a inimizade e os ressentimentos. Naturalmente que albaneses que, antes da guerra, viviam em paz na Sérvia, serão agora mal-vistos pelos sérvios - não admira, depois daquilo que os sérvios sofreram por causa deles...

As grandes colunas de refugiados do Kosovo ocorreram DEPOIS de os bombardeamentos começarem, tal como aliás seria de esperar. Se te caem bombas em cima, é normal que fujas... De qualquer forma, já antes da intervenção da NATO havia de facto combates no Kosovo, tal como é bem sabido, uma vez que havia uma guerrilha separatista albanesa, tal como eu escrevi no meu post. Havendo combates, pois bem, é normal que haja refugiados. Mas, do facto de haver combates, refugiados, inimizade, guerrilha, massacres, etc, de nada disso decorre que bombardear um dos países seja a melhor forma de resolver o problema.

Luís Lavoura

Carlos Guimarães Pinto disse...

Duas coisas que nao percebi, caro Luis:

1. Portugal e' o Kosovo, a Bosnia ou a Croacia da Peninsula Iberica?

2. Afinal, havia ou nao refugiados antes dos ataques da NATO?

Lord Jeremias disse...

"as, do facto de haver combates, refugiados, inimizade, guerrilha, massacres, etc, de nada disso decorre que bombardear um dos países seja a melhor forma de resolver o problema."
claro que não. os massacres são desporto saudável e longe de nós querer interromper isso.

e não, bombardear também não é a melhor solução.isso de intervir por bombardeamentos cirúguicos, causando o menor número de vítimas mas forçando o lado agressor a pausar a guerra e retirar-se é obivamente uma imbecilidade.. o ideal mesmo é esperar que se matem todos e depois os massacres param. uma ideia genial.

Anónimo disse...

CGP:

antes da intervenção da NATO havia uma guerrilha do UÇK combatida pelo exército sérvio. Uma e outro cometiam violências sobre civis. Isso gerou refugiados. Como é natural, sempre que há uma situação de guerra.

Com a intervenção da NATO, os perigos para a população civil aumentaram brutalmente, o que aumentou brutalmente o número de refugiados.

Os refugiados antes da intervenção da NATO não se deviam a qualquer limpeza étnica ou a qualquer genocídio que estivesse a ser levado a cabo. Investigações posteriores à guerra mostraram, de facto, não haver quaisquer indicações de quaisquer matanças sistemáticas. Os refugiados antes da intervenção da NATO deviam-se simplesmente à situação de guerra que se estava a desenvolver no território.

lord jeremias: os bombardeamentos da NATO não fizeram, de facto, grande número de vítimas. Mas destruíram a Sérvia, as suas instalações industriais civis, etc. Não sei se Você considera isso uma forma legítima de guerra. Eu não considero.

Luís Lavoura

Gabriel disse...

totalmente de acordo com este último comentário de Lui avoura.

E relembro que a limpeza étnica sob o comando colonial europeu se acentuou, sob o seu olhar bovino, passando os sérvios de 7% para 3% da população no kosovo.