2007/10/25

Sólidos Valores Morais

Em declarações à Lusa, Clara Ledo, directora do colégio, não tem dúvidas em afirmar que o programa de ensino e as actividades extracurriculares são tão importantes como "a formação espiritual e religiosa das alunas".

No entanto, a frequência desta escola, com quase 30 anos de experiência, só parece ser acessível às bolsas mais recheadas, já que são cobrados cerca de 4.500 euros por ano, o que dá um total de mais de 13 mil euros, no conjunto do secundário.

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Segundo o padre Amadeu Pinto, director da instituição, "as escolas confessionais são entidades com valores e alma que zelam por manter elevados os padrões de qualidade do ensino".
Porém, também aqui a frequência do ensino diurno não está ao alcance de todas as famílias. No secundário, a propina mensal ultrapassa os 400 euros, um valor que não inclui a alimentação nem várias actividades.
Sólidos valores morais por 4500 Euros ao ano.

Deus está caro, bolas.

17 comentários:

Filipe Melo Sousa disse...

O valor da propina não me parece excessivo para um colégio de elite. Mas temos de ter a noção que é mesmo disso que se trata: de um colégio onde a direcção escolhe muito bem os alunos que recebe. Em resultado disso, os pais dispostos a colocar os filhos num ambiente seleccionado também escolhem bem os colegas com que os filhos se vão relacionar. Temos reunidas todas as condições para leccionar num ambiente intelectualmente estimulante. Resolvido o problema dos alunos problemáticos, os professores falam para uma plateia de alunos receptivos, cujos pais estão empenhados no seu melhor resultado, e dispostos a tomar acções atempadas em caso de maus resultados.

O que leva portanto os pais a pagar 4.500 euros anuais? Será uma verba necessária a uma boa educação? Eu conheço infelizmente casos de alunos em escolas públicas que não entraram no curso que queriam, fruto dos professores terem leccionado metade do programa, em cadeiras específicas de acesso à faculdade. Fruto de outro sólido valor moral: de que o ensino deve acompanhar não o programa, mas antes as dificuldades dos alunos mais problemáticos. Perante o descalabro, estas instituições servem de refúgio para pais preocupados com a qualidade de ensino.

Anónimo disse...

A frase final do post não é bem exata. De facto, os pais não são os pais quem compra sólidos valores morais por 4.500 euros por ano. É a escola quem escolhe as alunas que já têm sólidos valores morais, e não o contrário. Ou seja, naquela escola só deixam entrar as meninas que são de uma família católica e bem educadinhas - não deixam nem jamais deixariam entrar uma menina cigana ou de um bairro de lata, mesmo que essa menina, supostamente, tivesse o dinheiro para pagar a propina e até tivesse ido à primeira comunhão.

Ou seja, a escola seleciona alunas das melhores famílias, para garantir um ambiente propício. São as alunas que já vêem com sólidos valores morais para a escola, porque a escola não aceita à entrada alunas que não venham com os valores morais propícios.

É a escola como instrumento da exclusão social.

Luís Lavoura

JoaoMiranda disse...

Quanto é que custa um aluno no ensino público?

Ricardo G. Francisco disse...

Os últimos números que vi estavam perto de 4k para o pré-secundário e 5k para o secundário.

Não tenho a certeza mas parece-me que as escolas privadas tambem são apoiadas senão directamente pelo menos indirectamente com dinheiros públicos...

Anónimo disse...

Resolvido o problema dos alunos problemáticos, os professores falam para uma plateia de alunos receptivos, cujos pais estão empenhados no seu melhor resultado, e dispostos a tomar acções atempadas em caso de maus resultados.

Acha que é assim que se resolve o problema dos alunos problemáticos?

Anónimo disse...

Boa pergunta, a do anónimo anterior.

Luís Lavoura

JoaoMiranda disse...

««Acha que é assim que se resolve o problema dos alunos problemáticos?»»

O alunos não problemáticos não têm nada a ver com isso.

Cirilo Marinho disse...

Ricardo, esta escola não recebe tusto do estado.
Algumas particulares recebem, em locais sem escolas públicas ou para cursos profissionais, mas com a contrapartida de não cobrar propinas.

No ensino publico cada aluno custou entre 3500 e 4000 em 2006 (difícil de acertar devido ao facto de ser sempre obrigatoriamente existente uma estrutura central e devido à contabilização dos alunos).

Já agora, no privado de qualidade, é assim que se resolve o problema, Luis e anónimo. Uma descoberta recente apelidada de lei da oferta e da procura. Já as escolas públicas, são obrigadas a aceitar matriculas de alunos de 16 anos no 5º ano de escolaridade.

Filipe Melo Sousa disse...

Mais duas achas:

- os pais que pagaram os 4-5k€ estão a pagá-lo pela segunda vez, uma vez que a escolaridade gratuita já está descontada nos seus impostos

- quanta custa um aluno no ensino público, naquelas escolas em que existem 5-10 alunos por turma?

Conclusão: o estado nosso amigo oferece-nos pão com chouriço mediante pagamento da taxa de caviar. De seguida, quem quiser de facto comer caviar tem de o pagar pela segunda vez. Raciocínio também válido para o sistema nacional de saúde (ops.. acho que já vou em 3 achas!)

Filipe Melo Sousa disse...

Mais uma acha, que eu não resisto: os pais que pagam os 4-5k€ são normalmente pessoas que pagam 3 ou 4 taxas de caviar, graças ao sistema fiscal "progressivo". É a justiça social!

Carlos Guimarães Pinto disse...

Zé,
Há ensino religioso gratuito e disponível para alunos problemáticos. Olhe-se para as casas do gaiato, seminários e outras que tal... Não me parece é que tenham tanto sucesso como as escolas de luxo...

abraço

JB disse...

Caro Carlos,

O post, como é óbvio, é apenas uma provocação. Ainda bem que gerou comentários interessantes.

Não está em causa a vocação da Igreja para a caridade, visto que há muitas escolas católicas ajudam míudos e pais de poucos recursos.

O que está em causa são as ideias - veiculadas pelo AAA e por outras pessoas -, segundo as quais:

1) O lugar nos rankings de escolas deste tipo mostra a superioridade do ensino privado.

2) O lugar nos rankings destas escolas mostra a superioridade do ensino que ministra aos alunos "sólidos valores morais" (ou valores religiosos, que, para o caso, é a mesma coisa).

Estão em causa estas ideias - dizia eu - pelas razões que o Filipe Melo Sousa e o Luís Lavoura apontaram, se bem que eu não concorde com a ideia da suposta exclusão social que estas escolas praticam. Parece-me tão só que as ditas legitimamente apontam a um segmento específico do mercado. Também por isso não fornecem argumento nenhum para a superioridade das escolas privadas em confronto com as públicas.

Já a privatização do ensino é toda uma outra questão que tem que ver com a liberdade. E, na minha opinião, só com a liberdade de escolha dos alunos e dos pais.

Anónimo disse...

JB,

1) O lugar nos rankings de escolas deste tipo mostra a superioridade do ensino privado.

E se fizermos a mesma análise nas faculdades?

Anónimo disse...

Escreveu JB:

"a privatização do ensino é toda uma outra questão que tem que ver com a liberdade. E, na minha opinião, só com a liberdade de escolha dos alunos e dos pais"

Concordo com JB. E faço notar que estas escolas (Mira Rio, etc), não são nenhuns modelos de liberdade de escolha para alunos e pais. Nestas escolas, são elas - as escolas - quem tem a liberdade de escolher os alunos que deseja ter. Não são os pais quem tem liberdade, são as escolas.

Luís Lavoura

Anónimo disse...

Escreveu JB:

"[estas escolas] legitimamente apontam a um segmento específico do mercado"

Sem dúvida, concordo. Mas, precisamente porque elas decidem apontar a um segmento específico, que se quer diferenciar do restante, do mercado, acho que estas escolas não devem ser financiadas, nem direta nem indiretamente, por dinheiro do Estado. Quem quer estar no seu segmento específico do mercado, deve financiar esse segmento.

Que é o que hoje em dia acontece, e acho muito bem que assim continue a ser.

Luís Lavoura

JB disse...

Sem dúvida, concordo. Mas, precisamente porque elas decidem apontar a um segmento específico, que se quer diferenciar do restante, do mercado, acho que estas escolas não devem ser financiadas, nem direta nem indiretamente, por dinheiro do Estado. - Luís Lavoura

Eu ponho a questão de outro modo completamente diferente: pela precisa razão de que estas pessoas já pagam a educação dos seus filhos não devem ser obrigadas a pagar a educação dos fihos dos outros. Para mim, é só essa a questão.

Dito de outra forma: se estas pessoas andam a pagar o ensino dos filhos dos outros, então também podem exigir que lhes paguem a elas o ensino dos seus filhos.

Como diz o ditado: ou há moralidade ou comem todos.:)

Carlos Guimarães Pinto disse...

"Como diz o ditado: ou há moralidade ou comem todos.:)"

Lá está: a importância da moral na educação.