2007/10/09

Rituais de Iniciação Homoeróticos

Se já me pronunciei neste blog contra a promoção estatal na aceitação pública de relações homossexuais consentidas, mal de mim se não me insurgisse contra a promoção de práticas não consentidas de iniciação homoeróticas com a participação coerciva de participantes contra a sua vontade.



É fácil de perceber que os rituais de recepção aos caloiros universitários apresentam veteranos e caloiros em papéis clássicos de dominação e submissão. O problema de recrutamento de parceiros dispostos a desempenhar o papel de submissão é contornado através da coacção que é permitida aos membros da comissão de praxe. A sua posição de força pontual concretiza-se esporadicamente, uma vez todos os anos no momento em que é possível reunir os novatos em inferioridade numérica, e sem que estes tenham tido previamente contacto entre eles. A direcção das faculdades tolera e promove de certa forma o recrutamento em massa. A oportunidade muito apetecível apresenta-se uma vez por ano, e quem desempenha o papel de dominação não está de modo nenhum disposto a desperdiçar a dádiva. Uma fornada de carne fresca para seu júbilo.

Seguem-se os jogos sexuais clássicos, ajudados com álcool para desinibir. Não é por acaso que existe uma regra nos jantares de caloiro segundo a qual só serão concedidos os talheres após os caloiros beberem seis copos seguidos de sangria. Um caloiro desinibido é mais fácil de manipular. Ninguém quererá quebrar a regra, pois o argumento da intimidação indica de forma clara que esse é o caminho certo a seguir. Ninguém afirmará que o rei vai nu. Quem não discernir as belas vestes de seda do soberano passará de certo pela sanção de se desfazer das suas. O despojo progressivo das roupas ao longo do ritual de iniciação indica claramente o seu intuito. O jogo quer-se gratificante, e bidimensionalmente gratificante.

O jogo do palito, ou do Tic-Tac, em versões mais hard são uma forma de quebrar a barreira da intimidade. Num ambiente de igualdade de submissão, despojados de roupas, autoridade, eventualmente de cabelo, os caloiros facilmente entrarão no jogo sem oferecer resistência. Poder-se-á desempacotar o presente, e usufruir do ansiado presente de natal, que se fez esperar por 12 meses.

Dou neste ponto razão ao João Miranda: a humilhação é um pequeno sacrifício, e um investimento altamente rentável, premiando sobretudo os repetentes com maior número de matrículas. E acrescento: o facto de ter sido exposto em anos anteriores aumenta substancialmente o o apetite de retribuição. A dominação apenas faz sentido quando praticada com conhecimento de causa.

Não se preocupem rapazes. Isto é para o vosso bem, pois para o ano serão vocês, e vão-nos agradecer por isto. Deixem-se levar.

11 comentários:

JLP disse...

Acho que o passo seguinte (à proibição da praxe), é naturalmente a proibição dos bares de solteiros e dos bares de swinging e com orientação sexual definida.

Afinal, uma pessoa ainda se sujeita a ir beber uma cervejola e a acabar coagido a fazer coisas do demo...

Ricardo G. Francisco disse...

Filipe,

Não gostas de praxes ou queres ir mais longe e proibir as ditas ou coisa parecida?

Pedro Morgado disse...

Caro Filipe,

1. A adesão à praxe e a todas as suas actividades é voluntária. O que as pessoas fazem nesse âmbito só a elas próprias diz respeito. As universidades não tem nada que ver com praxe, apenas têm que zelar para que os estudantes, no interior das suas instalações, tenham um comportamento condicente com as regras.

2. É intolerável que a não adesão à praxe implique qualquer tipo de perda de direitos que não os relacionados com a mesma, isto é, o direito de praxar.

3. É inaceitável que haja associações de estudantes que financiem a impressão de um código de praxe que prevê que aqueles que não se querem submeter à praxe tenham que se declarar anti-praxe e, pior que isso, estejam impedidos de entrar nas instalações da associação de estudantes. Parece-me que isto é manifestamente ilegal.

4. Acho que esta associação da praxe ao homoerotismo é um devaneio do Filipe que pretende capitalizar a homofobia latente na sociedade portuguesa. A maioria das actividades da praxe estão relacionadas com heteroerotismo.

JB disse...

1. A adesão à praxe e a todas as suas actividades é voluntária. O que as pessoas fazem nesse âmbito só a elas próprias diz respeito. As universidades não tem nada que ver com praxe, apenas têm que zelar para que os estudantes, no interior das suas instalações, tenham um comportamento condicente com as regras. - Pedro Morgado

A partir do momento em que as direcções das universidades permitem que a praxe ocorra nas suas instalações, em que se interrompe aulas, com o beneplácito dos professores, para que os alunos sejam praxados ou para que sejam para a praxe, é óbvio que as direcções das universidades e os professores universitários têm tudo a ver com a praxe. Há uma óbvia aceitação e até conivência com tais práticas e é isso que eu, pelo menos, critico.

dizia ela baixinho disse...

Filipe,

do teu texto retive a seguinte frase (com a qual concordo, aliás):

"a dominação apenas faz sentido quando praticada com conhecimento de causa".

por mim, acabava o post por aí. não sei se a tua 'fina' ironia passa no último parágrafo.

Pedro Morgado disse...

Caro jb,

Concordo que há excessos e que esses excessos devem ser impedidos no interior das universidades.

Carlos Guimarães Pinto disse...

Parece que nesta questao estamos todos de acord, mas a falar linguas diferentes.
De qualquer forma, o que quer que seja que os praxistas fizeram ao Filipe, deve ser proibido imediatamente!!

Ricardo G. Francisco disse...

O Filipe andou no técnico...a Universidade com praxes mais estúpidas e inúteis.

Os tipos são praxados, se é que se pode chamar aquilo de praxes por tipos que nunca mais vão ver na vida, de forma completamente aleatória e descontrolada juntamente com outros tipos que provavelmente nunca mais irão ver na vida.

Anónimo disse...

Não se deve confundir Praxe (e a maiúscula é propositada) com acções de abuso de poder e formas de "comezaina" heterosexual e homosexual, as chamadas praxadelas.
A Praxe não é mais que a transmissão de conhecimentos (valores, experiências, etc.) pelos mais velhos para com os mais novos de uma forma altamente ritualizada. Como todas as formas de organização precisou de um período de cristalização até chegar à sua burocracia intrínseca (código de Praxe, hierarquia, conselho de veteranos, etc.).
Ora o problema reside aí. Com a proliferação e massificação do ensino superior, em que as novas universidades, politécnicos e institutos procuraram mimetizar o mais rápido possível as instituição mais "tradicionais" portuguesas, também os seus alunos emularam os rituais de integração destas (em concreto, a Praxe). Estas novas realidades, sem anos de experiências onde se apoiar para evitar erros, sem organismos de fiscalização actuantes (conselhos de veteranos) e permeáveis à politização da tradição académica (a junção entre Praxe e associativismo estudantil é desastrosa, no meu ponto de vista) leva ás anormalidades relatadas pelo autor deste post. Fixe-se que isto não é Praxe!
Se juntarmos a toda esta receita uma espécie de cruzada pessoal por "revolucionários" saudosos (jovens de esquerda que viveram a revolução e que agora são jornalistas, professores universitários, opinion makers, etc.) que ainda vêem a Praxe como uma emanação do regime ditatorial português e que a procuram denegrir por todas as formas apresentando estes exageros na comunicação social como se fosse a norma vigente, então temos um cozinhado em que a Praxe é mal vista e criticada por todos, ainda mais por aqueles que nunca foram praxados e que pouco conhecem da realidade das instituições.
Como tempero final, juntamos um degradar da imagem do estudante superior, que graças a um sem fim de bebedeiras, um desrespeito gritante do traje académico e ao trazer estes rituais muito particulares para a praça pública como se de um espectáculo circense se tratasse, temos como resultado a opinião vigente em que a Praxe é um cancro na nossa sociedade que urge extirpar.
Num dos comentários ao post identifica-se que a experiência vivida pelo autor aconteceu em Lisboa. Assim sendo, a minha teoria que os exageros acontecem nas "novas" academias cairia por terra, já que Lisboa é uma cidade da Velha Guarda no que concerne ás instituições de ensino superior. Nada mais falso, já que embora Lisboa tenha instituições de ensino superior das mais antigas em Portugal, as suas tradições praxísticas são bastante recentes e insipientes. Basta comparar o que lá se faz com Porto ou Coimbra para perceber o que estou a afirmar...

A Praxe é altamente meritória, o problema é quem a aplica. Faz-me lembrar a Democracia...

JB disse...

Caro anónimo,

Pelos relatos de familiares meus, com mais de 60 anos, a praxe nunca meritória. Nem em Coimbra, nem noutros lados. É uma tradição, sem dúvida, que interessa a alguns e não a outros. Pena que sobreviva à custa de uma pressão ilegítima que joga com o medo dos mais novos. Mas nisso não é muito diferente de outras tradições e instituições.

Anónimo disse...

Domingo, Outubro 14, 2007
É tempo de praxe


Todos os anos por esta época as universidades portuguesas enchem-se de estudantes que fazem coisas ridículas sob orientação dos seus colegas mais velhos. Esta semana cruzei-me em Aveiro com um longa bicha de caloiros que vinham da ria acartando nas mãos, debaixo do sol, sacos plásticos cheios de lodo. Presumo que a intenção fosse levar aquela porcaria para a Universidade. Em Coimbra, ao pé da escadaria monumental, passei por um estudante com o traje académico que era escoltado ao caminhar por quatro colegas recém-chegados à capital da cultura universitária que o rodeavam de braços estendidos no ar agarrando a capa dele sobre a sua insigne cabeça para que esta não apanhasse sol de mais. Suponho que teria medo que o pequeno cérebro derretesse.
Chamam a isto a praxe, e a justificação dada para que os colegas mais novos se tenham de lhe submeter é a necessidade de “integração”. Só há integração para quem não fizer ondas e aceitar com humildade os tratos de polé. Os caloiros são mandados fazer figura de urso para se poderem integrar, com a promessa de que um dia também poderão ser superiores prepotentes e terão enfim o direito de mandar uma nova geração de inferiores (caloiros/lamas/lodos) fazer por sua vez figuras tristes. É a apologia da humilhação como estratégia pedagógica.
Dizem os praxistas que é bom como aprendizagem para a vida, como preparação para o mundo. Aprende-se assim a respeitar a hierarquia, preparam-se os jovens para um modelo de relações profissionais baseado não no respeito mútuo, mas nas pequeninas e mesquinhas maneiras quotidianas de lembrar quem é o superior. Um modelo onde pouco conta o mérito, onde as ideias novas ou diferentes são malvistas, no qual importante é saber lamber as botas de algum cacique. Aprende-se a obedecer sem questionar. Para que se perpetue uma cultura que promove o medo de ser o destravado da língua que comete a heresia de dizer que o rei vai nu. E que é saneado pela ousadia. A praxe é um reflexo do triste país que temos, portugalzinho no seu pior.

Publicada por João Paulo Esperança em 11:52 PM 0
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