Totalitarismo empresarial - o caso dos fumadores
O Dolo Eventual tem estado há meses a consolar fumadores com classe e simpatia. Temo é que sem sucesso...
Lê-se na Dia D que há 3 empresas nacionais que se recusam a contratar fumadores. Algumas outras empresas utilizam o critério tabágico na escolha entre concorrentes iguais. Finalmente, muitas outras subsidiam programas de desintoxição aos seus trabalhadores com menor ou maior sucesso. Lendo a reportagem, parece haver razões para crer que o trabalhador-fumador seja ou venha a ser no futuro uma espécie em vias de extinção.
Ainda segundo os argumentos aventados pelas empresas, as razões para a sanha persecutória prendem-se com a suposta menor produtividade dos trabalhadores, mas também com a misteriosa ideia de que os fumadores contribuem para um mau ambiente de trabalho.
Quanto à primeira, não é difícil perceber que o pouco tempo perdido a fumar poderá perfeitamente ser compensado em tempo-extra ao serviço da empresa, sem aumento da remuneração.
Quanto à segunda, as razões vão mais fundo e terão que ver com o facto de a ideia da "empresa como família" estar a fazer rapidamente o seu caminho nas principais empresas sediadas em Portugal. Está hoje na forja um novo totalitarismo empresarial, de acordo com o qual os trabalhadores, não têm apenas que trabalhar bem, mas ser bons colegas e boas pessoas. Têm de oferecer prendas de aniversário aos colegas e ao patrão, têm de participar nos desportos disponibilizados pela empresa, têm ainda de frequentar as festas organizadas pela mesma ou de ajudar nos programas de apoio a pessoas carenciadas que a empresa utiliza para promover a sua imagem. Qualquer dissidência, neste sentido, poderá ter repercussões óbvias na carreira do trabalhador. Logo, o trabalhador come e cala: faz o frete com boa cara, mesmo que ele não conste do seu contrato de trabalho.
É assim que funciona: a empresa é propriedade do empresário e ele faz o que bem entende; quem não está de acordo pode denunciar o contrato ou será lentamente empurrado até à porta de saída.
A lei não pode, nem deve ajudar. Decerto que é proibida a discriminação publicitada de fumadores por empresas privadas. Mas só um empresário bronco é que revelará os motivos da preterição. Por outro lado, mesmo que o trabalhador fumador seja contratado, o empresário poderá usar o período experimental para despedi-lo sem necessidade de aviso prévio, sem necessidade de justificar o despedimento e sem necessidade de indemnizar. Não é, pois, minimamente crível que se possa atacar juridicamente este tipo de discriminações. E apesar de a Constituição querer aplicar o princípio da igualdade a tudo quanto mexe, a verdade é que a liberdade contratual deve permanecer o menos restrita possível, pelo que qualquer solução jurídica da questão seria sempre má de um ponto de vista liberal (cf. este meu post).
Dito isto, a solução poderia ser outra: numa sociedade civil forte, os fumadores podem juntar-se e constituir eles próprios um forte grupo de pressão. Podem, por exemplo, encher de hate-mail as ditas empresas que se recusam a contratar fumadores ou, pura e simplesmente, boicotar os seus produtos. Há várias maneiras de embaraçar este tipo de intolerância até ao ponto em que se torne a um empresário, e em termos de gestão, irracional persistir com a discriminação.
Isto, claro está, é wishful thinking meu.
Não temos essa tradição activista em Portugal. Por cá, a tradição é comer e calar.
Ps: as três empresas que, por princípio, excluem fumadores são estas: Eurodiver (produção de espectáculos), Elipse (importação/exportação) e Aofimdodia (Design E Publicidade).
17 comentários:
Viva,
as empresas que discriminam o trabalhador fumador apenas por ser fumador praticam, felizmente, à luz da lei portuguesa, um facto ilícito.
Abraço
Não tinha visto o «ver mais». Pois, o grande problema de boas leis como esta é a dificuldade em ser levada à prática.
Gostei da ideia do junk mail. :-)
Caro Pedro Santos Cardoso,
É, sem dúvida, ilegal discriminar pessoas em função do facto de serem fumadoras.
Mas o legislador parte do princípio discutível de que o princípio da igualdade também deve aplicar-se a entidades privadas, o que pôe em causa a própria natureza da liberdade contratual enquanto acto de puro arbítrio de quem contrata. E, por outro lado, a proibição é facílima de contornar, havendo até alguma incoerência entre a proibição e o simples facto de no período experimental se poder despedir alguém sem justa causa.
Um abraço,
Ps: Agora que as empresas que discriminam são conhecidas podíamos lançar uma micro-causa no sentido de lutarmos contra a discriminação dos fumadores. Que diz?:)
Caro JB,
o trabalhador sempre pode dizer na entrevista que não fuma e, durante o período experimental, fazer um esforço de Job - para depois se vingar cruelmente. ;-)
Fumo desde os treze anos de idade. Apesar de ainda estar na casa dos vinte, é muito tempo. E estou cansado.
Neste caso, vejo-me divido: por um lado, a minha consciência de jurista sabe que é um atentado aos direitos fundamentais do fumador; por outro, há uma voz cá dentro «proiba-se, proiba-se em toda a parte, aumente-se 50000% o preço do tabaco - é da maneira que fumas menos; ou vai ou racha».
Fumar é um vício terrível, daí uma certa resignação minha - favorecendo o instinto em detrimento da razão.
Não se pode ser perfeito.
Porém, há pouco, em conversa com o David Afonso (autor das imagens reconfortantes para fumadores em tempos difíceis), queixava-se ele da discriminação incipiente mas prestes a explodir dos fumadores. Ele decerto teria mais vontade do que eu.
Caro Pedro Santos Cardoso,
Fumo desde os 16 anos. Também já pensei muitas vezes que me faz mal e que devo parar. Contudo, essa decisão deve ser fruto de uma vontade livre de uma pessoa autónoma e não uma imposição do Estado ou da sociedade.
A proibição do fumo, mais do que zelar com justiça pelos interesses dos não fumadores, tornou-se pura e simplesmente uma perseguição aos fumadores. Uma forma de tratar os fumadores como gente de segunda, como degenerados. E isto é que é inaceitável. Quando falo do totalitarismo empresarial falo de um fenómeno cada vez mais visível nas empresas e que passa por negar aos trabalhadores a sua individualidade a pretexto do fomento do espírito de equipa ou do bem-estar da empresa enquanto "família".
Sendo liberal - e nisto nos distinguimos politicamente :)- não posso acreditar que a igualdade se sobreponha à liberdade contratual nas relações privadas, nem posso considerar como o Garcia Pereira que existe uma qualquer obrigação de contratar por parte das empresas que discriminam fumadores.
Mas posso - isso sim - acreditar que a luta contra a discriminação - seja de fumadores, seja de homossexuais ou de pretos - é uma luta da sociedade civil que cabe às pessoas livres de espírito promover.
Lancei a ideia da micro-causa um pouco por piada. Mas levada a sério, seria algo em que me empenharia de bom grado. O mal português é o de se aceitar estas limitações à liberdade e à dignidade das pessoas de ânimo demasiado leve.
Um abraço,
Ps: o fumador que conseguisse passar 90 dias sem fumar seria pouco inteligente se voltasse a fazê-lo.:)
Pps: quanto à micro-causa, vou sondar os small brothers, a ver o que dizem. Se o David Afonso levar a ideia a sério, os dois promovemos a coisa.:)
JB,
concordo plenamente que a decisão de deixar de fumar deve ser um acto individual. A minha resignação resulta de puro acto de irracionalidade e apenas me impede de força anímica para iniciar uma micro-causa. Mas não me turva o raciocício.
Não nos distinguimos tanto assim politicamente: considero-me um liberal que entende que o Estado deve assegurar as prestações sociais essenciais. Uma espécie de esquerdista-liberal, portanto. A discussão sobre o que seriam as prestações sociais essenciais é que nos levaria longe... :)
Quanto à micro-causa, proponho como imagem de campanha os cartazes feitos por ordem de Hitler relativamente ao tabaco.
PS: Não quis dizer que o fumador tivesse que passar 90 dias sem fumar: apenas que não fumasse no local de trabalho. Depois, vingar-se-ia. Pessoalmente, já fui pouco inteligente 3 vezes: deixei de fumar por uma vez 9 meses, e por duas outras 8 meses cada...
Caro Pedro Santos Cardoso,
1.Hoje, em almoço com o meu pai, ele disse-me que deviam aumentar o preço do tabaco e que achava muito bem que as empresas discriminassem fumadores. O meu pai é pior que um cristão-novo; deixou de fumar com muita dificuldade há uns anos atrás e ainda sofre das consequências do tabaco.
Isto para dizer que compreendo a sua reacção instintiva. E compreendo que muitas pessoas reajam da mesma forma. Vejo as coisas de outra forma: preocupa-me que se preze tão pouco a liberdade das pessoas que se ache desejável aterrorizá-las com imagens de pulmões carbonizados ou discriminá-las no acesso a um trabalho, etc...
2. Ah, pensei que politicamente estivéssemos mais afastados. Eu também aceito algumas prestações sociais e, por isso, passo por ser o mais socialista dos Small Brothers.:)
3. Excelente ideia quanto à micro-causa; podemos divulgar as imagens no Small Brother e no Dolo Eventual acrescentadas de um pequeno texto, eventualmente sujeito a subscrição. Se a adesão for boa, podemos enviar o texto às empresas (e só essas) que se recusam terminantemente a contratar fumadores.
Um abraço, Zé
Ps: Sim, o trabalhador podia aguentar estoicamente a proibição de fumar no trabalho. Mas imagine que o patrão vinha a saber que ele fumava em casa. Como à partida tem por princípio não contratar fumadores, podia despedi-lo no período experimental.:)
Eu nunca consegui parar por mais de 1 dia. Sou um fumador muito regular. 10-15 cigarros por dia, 1 por hora e meia, aproximadamente. Daí que lhe tire o chapéu...:) Quemn chegou até aí, um dia conseguirá parar definitivamente.
Só uma última questão:
Onde encontro os cartazes do Hitler? Convinha que a publicação nos blogues fosse simultânea para ter mais impacto.
jb,
obrigado por este admiravel texto.
e acho que sim! que devemos avançar para a ofensiva! fumadores unidos jamais serão vencidos! :)
será esta a primeira parceria small brother/doloeventual?
Uma das razões pelas quais subscreverei a vossa micro-causa é precisamente a que se prende com o ataque à liberdade que a frente anti-tabagista significa. Como disse, sou um monstro com cabeça de Jano: metade racional, metade irracional. Em certos campos, a metade irracional prevalece. Não neste.
Quanto às imagens, não fiz pesquisa, nem tenho nenhuma. É uma questão de investigar.
Entretanto, apenas escrevi no Google «Hitler smoking» e apareceram alguns resultados relacionados. Não sei se contêm citações de Hitler, já é tarde. Mas também poderiam ser usadas.
http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=hitler+smoking&meta=
Caro David Afonso,
Obrigado. Fico muito contente com o seu entusiasmo. Sim, será a primeira parceria Dolo Eventual/Small Brother e espero que tenha um grande sucesso.
A minha ideia é colocar no blogue os cartazes do Hitler, sugeridos pelo Pedro Santos Cardoso, acompanhados de um texto a condenar a discriminação arbitrária e cada vez mais generalizada dos fumadores nas empresas. O texto será submetido a subscrição. Quem quiser assina. Eventualmente, podemos enviar o post para outros blogues que queiram aderir à causa. Se obtiver suficiente visibilidade, a campanha pode demover as empresas ou, pelo menos, torná-las cientes da ilegalidade e imoralidade dos seus actos.
Um abraço,
Caro Pedro Santos Cardoso,
Vou ver o link e procurar nos servers. Amanhã escrevo um pequeno texto sujeito a correcções suas e do David Afonso por forma a "postar" o mesmo com as imagens dos cartazes. É importante que o texto fique aberto a subscrição. Simultaneamente, podemos perguntar aos principais blogues se se associam à causa. Se a causa tiver um sucesso significativo, podemos depois enviar o texto com as assinaturas às empresas referidas neste post.
Um abraço, Zé
Há um post das 1:50 que foi misteriosamente apagado. Não tive nada a ver com o assunto. Nem sabia que existia tal mecanismo nestas caixas de comentário. Estranho...
Fui eu que apaguei, JB. Como estava a escrever com uma pressa doida, a 1ª versão ficou cheia de gralhas. Efeitos colaterais da blogosfera.
Consegues (prefiro que nos tratemos por tu, se não te importares) ver um caixote do lixo (apenas surge quando inseriste o username e password) por debaixo do post? É aí que se apaga.
Caro Pedro Santos Cardoso,
Ah, ok, já percebi. Na altura, fiquei preocupado, porque não queria, nem quero apagar comentários.
Sim, também acho que podemos usar o "tu". É mais simples e também mais do meu agrado, mas não gosto de ser desrespeitoso. É só por isso que não usei até agora essa forma de tratamento.
Quanto à micro-causa, amanhã trato disso. Ando cheio de trabalho e não tive hoje tempo de escrever o texto. Envio-o, se não te importares, para o mail do Dolo Eventual antes de o postar. Vou ver também se encontro as imagens.
Depois de enviado o texto decidimos o que a estratégia a seguir...:)
Um abraço, Zé
Certíssimo.
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