2007/10/16

Seguraça social (2) - Máquina trituradora

Após um ano em casa. Após um ano em que recusou propostas de trabalho, algumas com remunerações líquidas bastante acima do subsídio de desemprego, o João acha que chegou a altura de recomeçar a trabalhar.

Tem vários problemas, mas os pior vai ser vencer a inércia que o prende ao sofá e à grelha televisiva. Vai ter de enviar CV's de novo, que deixou de fazer há mais de 6 meses quando percebeu que dificilmente iria encontrar um empregador que desse melhores condições que o subsídio de desemprego. Só de pensar nisso fica cansado. É que já não está habituado a trabalhar. Só de pensar nisso lembra-se que tem de escolher bem o trabalho. É melhor que seja um emprego e não um trabalho, pensa. Já não é um jovem e não pode trabalhar nem demais nem com demasiado stress, pensa. Por outro lado, a experiência tem de ser reconhecida, pelo que não poderá aceitar um trabalho qualquer. De facto, qualquer desculpa será boa para adiar a decisão de efectivamente começar à procura de trabalho. E de começar a levar nãos. Tanto trabalho para um não, pensará. Vai chegar à conclusão que é quase impossível arranjar emprego. A economia está de pantanas, isto está muito difícil. A culpa é das políticas neo-liberais que o puseram na rua e que permitem a continuação de baixos salários sem condições, dirá.

O que me lixa é que a culpa não é do João. É de quem fez e alimenta o sistema que transformou o João de um bom profissional reconhecido e procurado no que é hoje.

O que me lixa ainda mais é que este sistema é vicioso. O João que ontem apoiaria partidos que defendem a liberdade e consequente responsabilidade individual hoje apoiará um partido que defenda o sistema que o destruiu.

11 comentários:

Pedro Sales disse...

Não, a culpa foi mesmo do João.
O João que tem gostos caros. Acha que pagar o passe de transportes públicos e tomar refeições de 9 euros não é para ele. Entretanto o João foi perdendo oportunidades de enriquecer o currículo e adquirir oportunidades que lhe permitam frequentar restaurantes carotes.
Também se esqueceu que os empregadores vêm os candidatos “entre empregos” como refugo que pouco vale, ou como alguém que está desesperado ao ponto aceitar qualquer coisa.

Anónimo disse...

"o sistema que transformou o João de um bom profissional reconhecido e procurado no que é hoje"

(o sofá, a televisão...)

LL

Junq disse...

Maria, 34 anos, residente em Lagares da Beira, recém viúva, mãe de dois filhos, o Pedro e o António, perdeu o emprego num café que fechou porque o dono morreu. Maria ganhava 400 euros com gorjetas incluídas por mês. Devido à dimensão da terrinha onde vive os empregos são escassos, e ao facto de ter ido para lá viver em virtude do casamento e não ter outra família, Maria está sozinha. A casita, herdou-a via marido.
Sem subsídio de desemprego, Maria deve viver da esmola alheia.

João, perdeu o seu emprego e não tem subsídio. João é um calão. Detesta trabalhar e gosta mesmo do sofá e da televisão. Como não tem dinheiro para pagar a tvcabo e as pevides, João decide começar a fazer pequenos furtos enquanto finge procurar emprego. Os pequenos furtos correm bem até João ser apanhado pela polícia e entrar no sistema judiciário.

Maria entretanto, sobrevive à custa da beneficência privada e do trabalho de mulher-a-dias que faz em casa de uns senhores que vão à aldeia apenas nas férias. Está mais magra, os filhos estão bem mas o seu futuro pode estar comprometido. Quanto a Pedro e António, as suas oportunidades sociais estão limitadas e a falta de proteínas em virtude do baixo rendimento familiar prejudica o crescimento dos seus pequenos cérebros.

- RGF, não estará a confundir a ineficiência no controlo do sistema com ineficiência de todo o sistema? Estará também a querer dizer que os malefícios da protecção social se sobrepõem aos benefícios?

Ricardo G. Francisco disse...

Caro junq,

Acredito firmemente na necessidade de uma rede social solidária. Por estranho que lhe possa parecer acredito que não devem existir muitos bloggers da esfera "liberal" que sejam avessos a essa rede. A discórdia está na intensidade, não na existência.

O que temos hoje é muito mais do que isso e independentemente do controle que possa ou não ser feito ou da sua eficácia, esse controle é necessário porque o sistema actual dá incentivos errados considerando a sua função.

A sua função deveria ser amparar durante o período provisório de desemprego, não deveria ser incentivar ao desemprego voluntário.


Dá dois exemplos diferentes. Uma rede social deveria ter recursos suficientes para amparar a Maria.

O caso do outro joão que começa a roubar não entra nesta equação. Entra em outra...

Junq disse...

Pois é, como definir a equação social? Do que nos protege um sistema e quando se deve passar a outro? Não será preferível ter a rede de segurança social também a contribuir para o controle de potenciais desvios à normalidade? O custo de manter na franja da legalidade o João, com conselheiros de emprego, acompanhamento personalizado, fiscalização e apoio, não é comparativamente melhor a tê-lo descontrolado e socialmente nocivo?
De qualquer modo, o peso estatístico, dos exemplos dados da desgraçada vida do João, será provavelmente reduzido no universo da população activa.
Haverá muitas formas de utilizar um seguro de desemprego, bem como há de utilizar um seguro de vida ou de saúde. Nas seguradoras só uma via para impedir usos incorrectos: gestão da informação, avaliação, acompanhamento dos clientes, capacidade de decisão e diferenciação no tratamento mantendo condições uniformes em oferta.
Não é nas fraudes que as seguradoras perdem dinheiro. É quando deixam de as controlar. A fraude faz parte do sistema e o seu custo é conhecido, acompanhado e mantido dentro de limites racionalmente conhecidos.
Isto para significar que o problema talvez não esteja no João, mas sim no sistema de protecção social que é caro e tem ineficiências endógenas na gestão.
O João e a Maria são vítimas. Não interessa se das circunstâncias ou de si próprios Mas o sistema deve existir para os dois sem que obrigatoriamente os trate da mesma maneira.
Não é só menos Estado, é também melhor Estado. Não será mais difícil mudar o João que mudar o Estado?

Filipe Melo Sousa disse...

Viva Junq, sejas bem aparecido cá por casa,

a minha convicção, e a do Ricardo provavelmente é que devemos responsabilizar as pessoas quando estas recorrem a uma rede de ajuda social. Eu vejo-a como um seguro, e o subsídio nunca poderá ser inteiramente a fundo perdido. Desse modo, quem auferir da rede social deverá ter uma actualização em alta dos seus descontos.

A política actual incentiva as pessoas a agir como se estivesse numa feira das misérias, e alegar a situação o mais deplorável possível, de modo a maximizar as transferências do estado para seu proveito, o que cria necessidades acrescidas e gastos acrescidos para o estado indagar as condições de cada um. Fiscalizar mais e cada vez mais, intrometer-se na vida financeira de cada um, acabar com a privacidade financeira não é para mim solução, e vai contra aquilo que eu acredito ser um país livre. Neste momento beneficia do sistema quem melhor sabe aproveitar as suas falhas, que são muitas. O erro é precisamente criar um sistema que não incentiva cada um a ganhar mais para si, e cria pelo contrário um sistema de selecção natural, ao contrário, em que a irresponsabilidade e a gestão danosa são premiadas.

Junq disse...

Obrigado Filipe, não deixei de ir lendo…
“Desse modo, quem auferir da rede social deverá ter uma actualização em alta dos seus descontos.”
Se por uma qualquer externalidade fatal uma fábrica fechar, e alguns dos seus trabalhadores recorrerem ao subsídio de desemprego, posteriormente devem subir o valor das suas prestações sociais? Tal como acontece na utilização do seguro automóvel por um acidente em que fomos responsáveis? Repara que os trabalhadores podem não ter qualquer responsabilidade na situação de desemprego. A relação com o seguro de desemprego é necessariamente diferente da outra com o seguro automóvel.
Parece-me socialmente injusto tratar as duas situações da mesma forma.
Quanto à privacidade, chapéu. Se recorremos a um seguro de saúde deixamos que nos escrutinem muito mais a vida íntima. Do ponto de vista fiscal já não temos segredos para o estado. Porque havemos de ter na assistência e protecção social?

Filipe Melo Sousa disse...

Sim, definitivamente defendo que quem usufrui do seguro de desemprego deve ver a sua prestação revista.

Agora para reflectir um pouco sobre a responsabilidade individual na situação de desemprego, deixo um vídeo da TVI, que talvez já conheces.

(por volta do minuto 4)
http://www.youtube.com/watch?v=AUwzR5hgotQ

A senhora depara-se com o fecho da fábrica, e quando a jornalista lhe pede a opinião sobre os motivos de fecho, depara-se com o alheamento no seu esplendor máximo. ("Eu sei lá se foi o chinês ou se foi o cuar**** ") O problema é mesmo este: ninguém se preocupa com as perspectivas da empresa ao aceitar um emprego, pois haverá sempre a garantia estatal em manter a remuneração quando nem a pessoa nem a empresa são mais necessárias. Quem se preocupa em dedicar a carreira a uma empresa com perspectivas não é minimamente recompensado. Quem faz vigílias para manter a empresa obsoleta aberta acaba por defender que se adie o fecho inevitável da fábrica, para ser devolvido ao mercado de trabalho sem qualquer valor ou possibilidade de reconversão. Essa pessoa simplesmente não é útil.

Tenho de ser eu a pagar esse erro dos outros, via maior carga fiscal? Lamento mas não é justo. Tenho muita pena, mas coloco a minha vida em primeiro lugar. Tenho projectos de vida importantes para mim e para as pessoas de quem gosto. Tenho direito ao tempo que perco todos os dias na empresa, e ao valor monetário equivalente. É uma parte substancial da minha vida, que não me podem confiscar. Tenho direito a ela, ao meu corpo, as minhas decisões e à minha liberdade.

Junq disse...

Infelizmente é um pouco difícil separar a “minha” e a vida dos outros de que gostamos da vida em geral. A senhora que “cuaraga” ignorante e nas tintas para a sua responsabilidade de seleccionar correctamente o empregador, é incapaz, regra e fruto da mesma sociedade em vivemos. A esfera, instruída, reflectida, filosoficamente empenhada em procurar responsabilidade, navegação e sentido é relativamente pequena face à turbe. Além disso, da mole viemos e com ela vivemos. Usufruímos também das vantagens criadas pelos baixos salários que lhe podemos pagar e dos serviços que estão dispostos a desempenhar. Enquanto a mole for mole, paguemos os custos e compremos a paz. Desenvolvê-la? Isso será outra conversa, mas quem deve pagar esses custos também?

Anónimo disse...

O mais interessante e verosímil (?)desta história é que ao João bastaram 6 meses a enviar CVs ("Após um ano em casa" ... "que deixou de fazer há mais de 6 meses") para receber logo várias propostas de trabalho "algumas com remunerações líquidas bastante acima do subsídio de desemprego". Como é fácil fazer ficção!!!!

Migas disse...

se o anónimo lê-se com atenção os posts do Ricardo, veria que ele refere que o que descreve é baseado em casos reais e não ficcionados. Eu também presenciei esses casos. Não há nada aqui de ficção.