2007/07/22

Persistência da memória

A mensagem principal que eu retirei da minha visita ao Museu Judeu de Berlim foi a de a comunidade judaica poder dizer ao mundo "Olhem o que os alemães nos fizeram...", e fazê-lo a partir do centro da capital da Alemanha.

O Museu visa lembrar os alemães, de forma permanente, que eles são culpados para sempre. Imagino aquilo que pode pensar a actual geração de alemães, que nada tem que ver com o holocausto, e mais ainda as gerações futuras. Aquele Museu, cravado ali no coração da sua capital, não pode ser senão um factor de irritação permanente.
Aparentemente, a História e a memória provocam uma "irritação permanente" em Pedro Arroja. Ou seja, um edifício-monumento onde se homenageiam vitimas dos desvarios totalitários do passado, construído no seio da capital do estado que os patrocinou, não é um sinal de catarse e paz civilizacional para com os abusos do passado, mas sim uma permanente afronta aos presentes, que serão diariamente relembrados do seu passado pouco brilhante.

Ou seja, a função de aprendizagem da História, no sentido de que não se esqueça o que se fez e que não se repitam os erros do passado, não é uma maisvalia, mas uma inconveniência permanente que assombra o presente.

Mais curiosa ainda é a afirmação de que a "mensagem principal que retirou da sua visita", foi afinal, a da acusação feita aos alemães do passado pelos judeus em relação aos que lhes foi feito. Entre considerações sobre, por exemplo, os limites a que se pode chegar em democracia, do que pode significar o totalitarismo de um estado e o desaparecimento do indivíduo face a um estado plenipotenciários e opressor directo dos cidadãos, Pedro Arroja escolhe "a afronta" que é relembrar hoje todos os dias o que foi feito. Os factos e as megalomanias. Curiosa escolha de mensagens e prioridades.

Mais do que isso, quando se poderia louvar a capacidade dos presentes em tentar compreender e fazer a paz com o passado, e em se prestar uma justa homenagem, afinal, às vitimas, parece que tudo isto está mal. Que irrita. Provavelmente, o que já não acontecerá em relação às igrejas que povoam no nosso país e na vizinha Espanha os terreiros onde no passado se materializaram Autos de Fé, e onde ainda hoje se glorifica e se presta homenagem à instituição culpada, mas se esquece a homenagem às vítimas. Aí, confiamos que Pedro Arroja achará que está tudo bem.

Mas as pérolas não ficam por aqui:
Como cidadão português, eu nunca aceitaria que a comunidade judaica em Portugal fosse colocar no centro de Lisboa um museu evocativo das perseguições que os judeus foram alvo no país - e estou persuadido que seria nisso acompanhado pela esmagadora maioria dos portugueses. Recomendaria que fizessem o Museu no centro de Telavive.
Fica a dúvida: o que estaria Pedro Arroja preparado para fazer com que tal não acontecesse, ou seja, para que não fosse construído esse museu, em propriedade privada e com dinheiro de privados. Ou até no que toca à propriedade privada o seu liberalismo já sucumbiu?

Adenda: sobre o mesmo assunto, ler o que diz o Adolfo Mesquita Nunes e Júlio Silva Cunha (1, 2)

21 comentários:

CMF disse...

JLP, Pedro Arroja inaugurou a sua presença na blogosfera, há alguns meses, com um chorrilho de disparates sobre Leo Strauss e o neoconservadorismo. Depois disso, tudo se podia esperar. Estamos perante um mestre na arte de inventar premissas e de encontrar fenómenos de causa-consequência onde olhares mais rigorosos só vêm correlação positiva.
Pedro Arroja cria os seus próprios axiomas e daí prossegue para a demonstração de teoremas. Assim é fácil.

JB disse...

Muito bom post.

Era difícil imaginar que o Pedro Arroja pudesse descer tão baixo.

Luis Carlos disse...

A presença do museu no centro de Berlim irrita de facto muitos alemães. Eu também não gostaria de ser associado aos Portugueses colonialistas, nem o mereço. Para não esquecer a história não precisamos de Museus e marcos historicos, precisamos de educação. Mais o museu não é forma de elogiar as vitimas, se o fosse teria que consagrar todas as religiões e credos que sofreram o holocausto. Lembram-se dos 12 milhões de sovieticos? 1 milhão morreu em campos de concentração muito antes do holocausto judeu. Mas a verdade é que nunca ninguém aceitaria um monumento aos sovieticos, seria uma afronta.... Aos judeus já não é. E já agora... o holocausto parece que trouxe a maior censura de todas, o não poder criticar seja de que forma for uma obra judaica...

Anónimo disse...

Aprendizagem da história? Será mesmo essa a função do museu? Eu aprendo a história, mas também recusaria a humilhação permanente. Alias a história mostra-nos que este tipo de situações apenas gera ressentimentos e reanima nacionalismos. Estou bem mais de acordo com o Pedro Arroja. Esse vosso pseudo-elitismo intelectual já cheira mal. É tão grave ser xenofobo, como fazer tudo para não parecer um...

Mentat disse...

E se Pedro Arroja tivesse escrito :
""Como cidadão angolano, eu nunca aceitaria que a comunidade portuguesa em Angola fosse colocar no centro de Luanda um museu evocativo das perseguições que os portugueses foram alvo no país - e estou persuadido que seria nisso acompanhado pela esmagadora maioria dos angolanos.Recomendaria que fizessem o Museu no centro de Lisboa."
Também seria alvo de todas estas criticas de "racista" ?
.

Mentat disse...

O vosso "erro" e o de PA, se me permitem, resulta de provavelmente nunca terem conhecido mesmo, um Português de religião Judaica.

Portugal, numa determinada época histórica, em que um Governante fraco era influenciado por interesses estrangeiros (não muito diferente do que se passa agora), expulsou Portugueses de religião Judaica.
Desse acontecimento, e porque esses Portugueses eram de facto uma elite, resultou o início da nossa decadência.
Porque os Povos que esquecem a sua História, estão condenados a repetir as suas piores partes, é óbvio que um qualquer monumento que registasse a expulsão desses Portugueses, que tanta falta nos fizeram, não só seria recomendável como indispensável.
Mas esse Monumento deveria registar os feitos realizados por esses Portugueses, quando ainda cá viviam, e o que realizaram noutros países depois de terem sido expulsos por gente mesquinha, e não se limitar, à tão não moda agora, auto-flagelação e auto-comiseração.
.

Mentat disse...

Agora um monumento desse tipo só seria aceitável, se proposto por Portugueses e se possível de religião judaica ou seus descendentes e não por uma qualquer Comunidade Judaica em Portugal ( que provavelmente nem descendentes de Portugueses são).
Só que o Português Judeu, meu amigo à longos anos, donde baseio o meu conhecimento, duvido que se desse a esse trabalho.
Ele sabe a falta que os seus antepassados expulsos, nos fizeram, e não precisa de recordar isso.
Prefere recordar como foram bem aceites de volta, quando os "civilizados" alemães chacinaram parte da sua família no século XX, com requintes de crueldade, que fazem parecer a sua expulsão de Portugal no sec XVII, uma "viagem de turismo".
.

Mentat disse...

errata

"...à tão em moda agora,..."

JLP disse...

CMF,

"Estamos perante um mestre na arte de inventar premissas e de encontrar fenómenos de causa-consequência onde olhares mais rigorosos só vêm correlação positiva.
Pedro Arroja cria os seus próprios axiomas e daí prossegue para a demonstração de teoremas. Assim é fácil."

Nem mais. Faltou só acrescentar a tudo isso (o que afinal é uma consequência) o abuso de argumentos de autoridade, uma generalizada desonestidade intelectual (veja-se as críticas a Mises a que me referi no artigo recente sobre ele n'O Insurgente) e uma muito maior vontade de proclamar do que de discutir.

JLP disse...

Luis Carlos,

"Eu também não gostaria de ser associado aos Portugueses colonialistas, nem o mereço."

O que está na mesa não são juízos de merecimento ou não. São dados factuais da História, ou a afirmação de teses históricas que estão permanentemente em cima da mesa para ser refutadas.

Naturalmente que a conotação dos cidadãos de um país com a sua História nunca é um exercício de Justiça, nem é isso que está em causa. Ninguém está a dizer que os alemães de hoje têm algo a ver ou alguma forma de culpa pelo que aconteceu com os seus antepassados. Eu também não gosto de ser conotado com a escravatura ou com os desvarios da 1ª república, mas não é por essa razão que posso banir a História, nem achar que devo deixar de ser lembrado do que aconteceu. Quando muito, no extremo, posso ponderar os prós e os contras e deixar de ser português...

"Mas a verdade é que nunca ninguém aceitaria um monumento aos sovieticos, seria uma afronta..."

É uma coisa diferente, apesar de achar que seria perfeitamente legítima a construção (não fosse, porventura, a memória recente do que depois também fizeram na antiga Alemanha de Leste). Uma coisa será talvez conceder e homenagear contra o que foi feito a estrangeiros, num contexto de guerra e da anomia generalizada que ela causa. Outra coisa, substancialmente diferente foi o que a Alemanha (e nomeadamente o estado alemão) fez a uma parcela significativa dos seus próprios cidadãos.

"E já agora... o holocausto parece que trouxe a maior censura de todas, o não poder criticar seja de que forma for uma obra judaica..."

Acho que falta de crítica aos judeus, e a essas leis absurdas que procuram legislar a Verdade e limitar a liberdade de expressão e de discussão da História (com a chancela conveniente da União Europeia, numa prática de legitimidade muito muito duvidosa que segue a olhos vistos), é algo que não encontrará por estas paragens.

Pessoalmente, não sofre de "judeofilias" ou de "judeofobias". Prefiro concentrar-me a criticar o que acho que está certo e o que acho que está errado, e a justificar esses raciocínios na medida do que saiba e possa.

JLP disse...

"Como cidadão angolano, eu nunca aceitaria que a comunidade portuguesa em Angola fosse colocar no centro de Luanda um museu evocativo das perseguições que os portugueses foram alvo no país - e estou persuadido que seria nisso acompanhado pela esmagadora maioria dos angolanos.Recomendaria que fizessem o Museu no centro de Lisboa.

Também seria alvo de todas estas criticas de "racista" ?"

De "racista" não. Possivelmente de que não é um liberal e, mais do que isso, que não vive num país livre (e aparentemente gosta). Como referi no meu artigo, vai tudo do que quer dizer "nunca aceitaria"...

De resto, e em relação à temática, somos inundados sistematicamente por monumentos e profissões de fé, no nosso país, em sentido contrário (com as mais diferentes motivações ideológicas e históricas). Eu, por mim, não concordo com a generalidade delas, nem gosto particularmente da mensagem que se tenta transmitir com elas. Mas acho que não deixam de relatar um facto concreto, e que têm um papel em esclarecer as gerações presentes em relação às suas conclusões que tiram em relação aos factos que lhes são apresentados.

JLP disse...

"Mas esse Monumento deveria registar os feitos realizados por esses Portugueses, quando ainda cá viviam, e o que realizaram noutros países depois de terem sido expulsos por gente mesquinha, e não se limitar, à tão não moda agora, auto-flagelação e auto-comiseração."

Não acha que formatar o que é ou não aceitável ou desejável em relação ao monumento, sobrepondo-se até ao juízo dos principais afectados pelos factos, é um tanto ou quanto abusivo?

JLP disse...

"Agora um monumento desse tipo só seria aceitável, se proposto por Portugueses e se possível de religião judaica ou seus descendentes e não por uma qualquer Comunidade Judaica em Portugal ( que provavelmente nem descendentes de Portugueses são)."

Idem em relação ao comentário anterior.

Acrescentando que a legitimidade dessa comunidade advém do facto do motivo da perseguição passada não ser pessoal em relação aos atingidos em concreto, mas apontar genericamente a todos os que professavam a fé que essa comunidade presente representa.

Mentat disse...

"Possivelmente de que não é um liberal e,..."

Eu decididamente não sei o que é essa coisa de ser "liberal"...

Não percebo se é "doença", se é "crime", se é "título de nobreza" ou "password" para se ser aceite nos meios "bem pensantes".

Vejo o termo ser usado como palavrão acusatório ou como título abonatório.

Quem se não identificar, com o ser, ou não ser, essa "coisa", tem porventura o direito de ter opinião e manifestá-la, ou deve-se resignar à sua vil condição de pária pensante ?
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Mentat disse...

"Não acha que formatar o que é ou não aceitável ou desejável em relação ao monumento, sobrepondo-se até ao juízo dos principais afectados pelos factos, é um tanto ou quanto abusivo?"

Não é o que o JLP está a fazer agora.
Eu sugeri um tema para um monumento evocativo, que lembrasse um erro da nossa História e que homenageasse os heróis sobreviventes. O JLP pressupõe logo que os descendentes desses heróis, pudessem preferir a lembrança de quem não sobreviveu.
Quando leio a Rua da Judiaria, vejo que o seu autor usa mais espaço a lembrar Judeus famosos de origem Portuguesa do que a remoer sentimentos de vingança.
Mas isto é a minha visão da vida e de Português "Judófilo".
Prefiro ver os Judeus como Povo Escolhido de como povo mártir.
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JLP disse...

Mentat,

"Vejo o termo ser usado como palavrão acusatório ou como título abonatório."

Para mim, se for usado de forma coerente, é um "plus" (mas não eliminatório).

Mas neste caso, trata-se tão somente de auditar a coerência de uma orientação política que fora anunciada.

Não mais do que isso.

JLP disse...

"Eu sugeri um tema para um monumento evocativo, que lembrasse um erro da nossa História e que homenageasse os heróis sobreviventes. O JLP pressupõe logo que os descendentes desses heróis, pudessem preferir a lembrança de quem não sobreviveu."

Não. Só me limito a dizer que deve ser deles o direito de escolher em liberdade. Como o escolheram no caso de Berlim, e como deveriam poder escolher por cá se o entendessem.

Mentat disse...

"Para mim, se for usado de forma coerente, é um "plus" (mas não eliminatório)."


Caro JLP

E qual é a "entidade certificadora" da "coerência" ?
.

JB disse...

Não é o que o JLP está a fazer agora.
Eu sugeri um tema para um monumento evocativo, que lembrasse um erro da nossa História e que homenageasse os heróis sobreviventes. O JLP pressupõe logo que os descendentes desses heróis, pudessem preferir a lembrança de quem não sobreviveu. -Mentat

Não percebo ainda o que é que irrita o Pedro Arroja e o Mentat no museu Judeu de Berlim. Eu não teria quaisquer problemas com um museu que evocasse as vítimas da escravatura promovida pelos negreiros portugueses. Se fosse situado em Lisboa, estaria no local certo, porque era na capital que os negreiros construíam as suas mansões e gastavam o dinheiro tão mal ganho. Também não tenho qualquer problema com o Museu de Salazar. Tudo depende do financiamento: acho que devem ser privados a pagar os museus.

Quanto ao Holocausto, quem não perceba a singularidade daquele genocídio ou não percebe nada ou está de má fé. A maldade também revela graduações: o Holocausto continua a ser o paradigma do Inferno. Lembrá-lo mais do que um direito é uma obrigação. Não só para os alemães como para todos. E nisso estou particularmente à vontade, porque estudei numa escola alemã em que, durante 2 anos, tive de estudar o regime nazi. Isto, nas aulas de história alemã, por iniciativa do governo alemão (que fazia os programas) e dos professores alemães que os ensinavam. Nem me apercebi alguma vez que os alunos alemães achassem estar a ser violentados pelo seu próprio governo. Pena que os portugueses não tenham o mesmo sentido de auto-crítica.

Mentat disse...

"Não percebo ainda o que é que irrita o Pedro Arroja e o Mentat no museu Judeu de Berlim."

Caro JB

É para lhe fazer notar que eu não me irrito nada com o "museu Judeu de Berlim", pelo contrário, como pode comprovar por um comentário que deixei no PC.
Eu só quis "picar" o JLP com a acusação de "double standards" em relação ao PA, para além de compreender, quem prefira (e também preferir) monumentos enaltecedores do que acabrunhantes.
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Mentat disse...

"Quanto ao Holocausto, quem não perceba a singularidade daquele genocídio ou não percebe nada ou está de má fé. A maldade também revela graduações: o Holocausto continua a ser o paradigma do Inferno. Lembrá-lo mais do que um direito é uma obrigação. Não só para os alemães como para todos."

E com esta afirmação estou totalmente de acordo.
Gostava de ter sido eu o autor da mesma.
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