2007/05/05

Liberais da treta

"O capital económico colectivo da sociedade civil foi e será sempre mais do que suficiente para colmatar toda a pobreza de uma sociedade, se ela estivesse inclinada para tal. O welfare-state surgiu historicamente precisamente porque essa mesma vontade da sociedade civil não existia..."
Filipe Brás Almeida (nos comentários deste post)

"...chegaremos a uma sociedade potencialmente totalmente discriminatória, na qual certos cidadãos poderão nem ter a possibilidade de entrar numa mercearia para comprarem um pão para comer. Chegaremos a uma sociedade onde não haverá quaisquer serviços mínimos nem quaisquer serviços públicos. Basta que todos os proprietários de todos os estabelecimentos de um determinado tipo decidam boicotar um certo tipo de clientes..."
Luís Lavoura (nesta caixa de comentários, lá pra baixo)

Não tinha propriamente intenção de abordar este assunto, até porque em tempos simpatizei com a ideia de pertencer a um partido liberal (no caso, uma tentativa que tal aconteça). Mas este tipo de opiniões abriu-me o apetite comentativo.

Sobretudo, porque considero que para se publicar opinião, no pressuposto de se ser liberal (seja qual for a tendência), é absolutamente imprescindível que se compreenda com alguma correcção os mecanismos do mercado LIVRE.

Mesmo que se verse com mais enfoque (o que é o caso) nas liberdades individuias e comportamentais. Coisa que até me parece justificável, pois a totalidade das revindicações (à lá Bloco) da causa deveria, na minha opinião, decorrer naturalmente dos direitos dos cidadãos face ao estado mínimo, e não constituir um cavalo de batalha dos meninos das manifs da moda.

Infelizmente, esta linha argumentativa demonstra:
1. - Uma grave ignorância na projecção do comportamento dos agentes económicos não condicionados pela sobre-regulamentação.
2. - Um brutal desconhecimento histórico do impacto causado pela adopção de algumas políticas de liberalização do mercado em diversas latitudes.

Pior ainda, retenho a sensação de que o pensamento que sustenta estes statements é intrinsecamente centralista e intervencionista, com alguma dose de naivité em relação a este facto (aquilo que J. M. Pedroto apelidava de estupidez natural).

Um pouco na onda do "somos liberais porque queremos fumar umas ganzas e achamos que todas as pessoas devem ter uns trocos no bolso".

Nada de enganos, isto é uma opinião, não um argumento.

15 comentários:

Helder disse...

Subscrevo e já agora, o que é "o capital económico colectivo"?

Filipe Brás Almeida disse...

Seria o total do PIB ou riqueza privada. Já percebi que o pessoal é alérgico à palavra «colectivo». Colectivo no sentido da soma abranger a totalidade.

Provavelmente até nem divergimos muito nas políticas concretas apesar de sermos muito diferentes nas mensagens. Não acho que a redistribuição (and the rationale behind it) deve ser um tabu para os Liberais.

A referência às ganzas por exemplo (um strawman como quase todos os argumentos do post também são), só hostiliza o debate.

AA disse...

Não acho que a redistribuição (and the rationale behind it) deve ser um tabu para os Liberais.

Claro que não. Deve ser combatido com todas as nossas forças intelectuais. Redistribuição* _é_ socialismo.

* (forçada)

Miguel Duarte disse...

Já te interrogaste se não és tu que estás errado a escolher a palavra "liberal" assim sozinha para ti e te arrogares do seu uso exclusivo para o liberalismo que tu defendes? ;)

É que, viaja um pouquinho, e em maior ou menor nível, todos os partidos liberais por essa Europa fora defendem algum Estado social e alguma intervenção do Estado.

Não conheço nenhum partido liberal "clássico" puro, no sentido que vocês defendem. Tu conheces algum? O mais parecido que conheço é o partido libertário americano, e outros com o mesmo nome na América do Sul, mas então, deveriam usar a palavra "libertário" e não "liberal".

E para te dar um exemplo prático, até Adam Smith, esse herói do Liberalismo Clássico, defendia que o Estado devia subsidiar a Educação (no fim do livro "A Riqueza das Nações").

Miguel disse...

Os partidos liberais europeus são muito pouco liberais no sentido clássico.

Miguel disse...

Falo dos partidos da Europa ocidental, é claro. Às vezes é difícl distingui-los dos sociais-democratas.

A expressão usada pelo FBA é digna de qualquer teorico do marxismo.

Miguel Duarte disse...

Miguel,

Suponho que não estás a sugerir que os partidos liberais da América do Norte são mais liberais que os Europeus, pois não? ;)

Será o Japonês? O Australiano? Os Brasileiros?

Qual é o partido liberal algures no mundo que consideras verdadeiramente Liberal? Dá-me um exemplo. Não precisa sequer de ter a palavra liberal no nome.

Miguel disse...

Refiro-me mais aos da Europa de Leste.

Cirilo Marinho disse...

Miguel:

De facto tenho-me interrogado constantemente. Num comentário lá abaixo falei das alterações do meu teste de orientação política em 2 anos. Também fui mudando de opinião acerca do MLS.
Acho que não me podem acusar de não ter abertura de espírito (também à custa das viagens, é certo!).

Continuo sem perceber como é que o facto de haver ou não partidos com esta ou aquela tendência é relevante para a definição do que é ou não é liberal.

Mas por mim podes usar a expressão liberal à vontade. Mesmo que eu não concorde. Só não me digas (como já fez o Filipe) que te estou a censurar.

De resto, desejo-te a melhor sorte, pois concordo com diversos dos teus pontos de vista.

Para acabar, acho um pouco abusivo o recurso estilístico "voçês". Tu é que estás a trilhar um caminho de diferença face ao especrto político, mas mesmo assim não te coibes de aplicar os rótulos às críticas e citar as respostas standard.

Abraço

Cirilo Marinho disse...

Filipe:

Nesse caso, a citação é ainda mais azarada. Por acaso pensei que te estavas a referir à riqueza coercivamente colectivizada (que não é nada pequena). Contudo, não deixa de ter piada que te estivesses a referir ao PIB.

Pensei que a referência à ganza, pelo contrário, tornasse o debate mais descontraído :).

Filipe Melo Sousa disse...

Todos nós sabemos o que é ser liberal. E como liberal defendo as liberdades individuais (isso inclui ser livre de dispor do seu corpo, do seu dinheiro, da sua vida, da sua opinião, do seu credo..)

Ser liberal é defender liberdades individuais. E não as liberdades colectivas, se é que existe tal coisa. Pois ao colectivizar uma liberdade, perdemo-la.

Helder disse...

Filipe, não é uma questão de alergia ao colectivo.
Se quiseres o que escreveste poderia ser posto assim: no actual nível de riqueza disponível na sociedade não há razão nenhuma para que haja pessoas com fome. Foi mais ou menos isto que escreveu Hayek no Road to Serfdom.
É possível defender uma safety net mínima para acudir a casos dramáticos. O problema, mesmo nesse caso, são os incentivos lançados tanto aos receptores dessa safety net como aos governantes. Os segundos verão nos primeiros uma fonte de votos e tenderão a aumentar o seu número provendo a necessidades cada vez mais vastas, desejos e caprichos, os segundos, cumpridas as necessidades básicas, tenderão a reivindicar apoios crescentes para outras necessidades e pronto, entorna-se o caldo. Enfim. Não há soluções fáceis.

Miguel Duarte disse...

"Continuo sem perceber como é que o facto de haver ou não partidos com esta ou aquela tendência é relevante para a definição do que é ou não é liberal."

Cirilo, o meu ponto é apenas, que o liberalismo que se defende em muita da blogosfera Portuguesa, é tão simplesmente um liberalismo utópico que não é praticado em lado nenhum.

Aliás, muita gente gosta de seguir basicamente o que radicais como Hayek defendem, que não são propriamente a mainstream do Liberalismo.

Miguel Duarte disse...

"Refiro-me mais aos da Europa de Leste."

Isso é um elogio ao MLS, certamente. ;) É que nós defendemos algumas das políticas implementadas pelos países da Europa de Leste, como a Flat Tax.

Snowball disse...

Na verdade, grande parte dos "liberais" da blogosfera são anarco-capitalistas.

O que é ligeiramente diferente de liberal.

E também há uma divergência entre o conceito de liberdades:

Liberdades teóricas: não ser impedido de nada ou coagido a nada.

Liberdades práticas: que pressupõe que existem condicionantes básicas à liberdade de escolha, e que esta não existe para alguém que passa fome, não tem que vertir, não tem onde dormir, é discriminado pelas suas crenças, não tem educação, não tem segurança, não tem acesso a sistemas básicos de sáude.

Quem defende o liberalismo das liberdades práticas é sistematicamente acusado de "socialista" ou "comunista" pelos outros "liberais". Nada mais falso - o verdadeiro "liberal prático" defende que as pessoas devem ter condições que lhes permitam aceder ao pão, à roupa, à casa...não que estes devam ser atribuidos, sem mais, pelo Estado.