Persistência da memória
A mensagem principal que eu retirei da minha visita ao Museu Judeu de Berlim foi a de a comunidade judaica poder dizer ao mundo "Olhem o que os alemães nos fizeram...", e fazê-lo a partir do centro da capital da Alemanha.Aparentemente, a História e a memória provocam uma "irritação permanente" em Pedro Arroja. Ou seja, um edifício-monumento onde se homenageiam vitimas dos desvarios totalitários do passado, construído no seio da capital do estado que os patrocinou, não é um sinal de catarse e paz civilizacional para com os abusos do passado, mas sim uma permanente afronta aos presentes, que serão diariamente relembrados do seu passado pouco brilhante.
O Museu visa lembrar os alemães, de forma permanente, que eles são culpados para sempre. Imagino aquilo que pode pensar a actual geração de alemães, que nada tem que ver com o holocausto, e mais ainda as gerações futuras. Aquele Museu, cravado ali no coração da sua capital, não pode ser senão um factor de irritação permanente.
Ou seja, a função de aprendizagem da História, no sentido de que não se esqueça o que se fez e que não se repitam os erros do passado, não é uma maisvalia, mas uma inconveniência permanente que assombra o presente.
Mais curiosa ainda é a afirmação de que a "mensagem principal que retirou da sua visita", foi afinal, a da acusação feita aos alemães do passado pelos judeus em relação aos que lhes foi feito. Entre considerações sobre, por exemplo, os limites a que se pode chegar em democracia, do que pode significar o totalitarismo de um estado e o desaparecimento do indivíduo face a um estado plenipotenciários e opressor directo dos cidadãos, Pedro Arroja escolhe "a afronta" que é relembrar hoje todos os dias o que foi feito. Os factos e as megalomanias. Curiosa escolha de mensagens e prioridades.
Mais do que isso, quando se poderia louvar a capacidade dos presentes em tentar compreender e fazer a paz com o passado, e em se prestar uma justa homenagem, afinal, às vitimas, parece que tudo isto está mal. Que irrita. Provavelmente, o que já não acontecerá em relação às igrejas que povoam no nosso país e na vizinha Espanha os terreiros onde no passado se materializaram Autos de Fé, e onde ainda hoje se glorifica e se presta homenagem à instituição culpada, mas se esquece a homenagem às vítimas. Aí, confiamos que Pedro Arroja achará que está tudo bem.
Mas as pérolas não ficam por aqui:
Como cidadão português, eu nunca aceitaria que a comunidade judaica em Portugal fosse colocar no centro de Lisboa um museu evocativo das perseguições que os judeus foram alvo no país - e estou persuadido que seria nisso acompanhado pela esmagadora maioria dos portugueses. Recomendaria que fizessem o Museu no centro de Telavive.Fica a dúvida: o que estaria Pedro Arroja preparado para fazer com que tal não acontecesse, ou seja, para que não fosse construído esse museu, em propriedade privada e com dinheiro de privados. Ou até no que toca à propriedade privada o seu liberalismo já sucumbiu?
Adenda: sobre o mesmo assunto, ler o que diz o Adolfo Mesquita Nunes e Júlio Silva Cunha (1, 2)

A minha regra é a de usar dupla precaução a interpretar a análise de jogos, arbitragens ou meramente de artigos de opinião escritos predominantemente por intelectuais adeptos do Futebol Clube do Porto. Estão neste caso o Miguel Sousa Tavares, o Pôncio Monteiro e o Manuel Serrão e vários bloggers desta casa.