2009/05/30

as acções da SLN de Cavaco Silva

Os líderes do PCP, Jerónimo Sousa, e do CDS/PP, Paulo Portas, e o cabeça de lista do Bloco de Esquerda às europeias, Miguel Portas, já vieram defender o Presidente da República, Cavaco Silva, considerando “legitima” a operação de aquisição e de venda das acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), ex-proprietária do BPN.
(Publico, hoje)


Confesso, embaraçado, que esperava outro tipo de reacções. Esperaria aquele tipo de comentários, à la Rui Tavares e João Rodrigues, que, sem explicitamente atacarem o carácter de CS (mais não poderiam fazer do que isto), poluíssem tanto a imagem do PR como o PSD, numa camada de crude que terminaria em Paulo Rangel e Manuela Ferreira Leite.

Foi, decididamente, um momento nobre da Democracia. Quanto ao Expresso, teve o seu momento Manuela Moura Guedes. Não censuro, mas também não aplaudo.

left-wing genetics ou o post que de tudo fala e nada diz

Um texto interessantíssimo sobre a origens da esquerda (via O Afilhado), ainda mais interessante sendo o facto do artigo ser do LvMises Institute e escrito por alguém cujo nome soa a Rousseau. Dentro destas interessantíssimidades, destaco esta parte:

Robespierre, who represented himself as spokesman for the people, first said that the division of the powers of government was a good thing when it diminished the authority of the king. But when Robespierre himself became the leader, he claimed that the division of the powers of government would be a bad thing now that the power belonged "to the people."

Já há umas décadas que se diz isso -- até há quem diga que, fosse a sociologia matemática, é um teorema provado. Mas, por mais que me expliquem, eu nunca consigo explicar de volta, re-explicar portanto, porque é que algo tão bucolicamente romântico como a ditadura do proletariado acaba irredutivelmente em ditadura dos Robespierres, sem que os robespierres sejam proletários ou os proletários robespierres.

A propósito, parece que se encontrou o corpo de Rosa do Luxemburgo. Deixo aqui a minha reverência aos movimentos de esquerda, desde Robespierre a Hugo Chavez, sem os quais o Mundo seria muito diferente. Às vezes um pouco melhor.

Quanto à pobre Direita, esgotada de ter andado atrás da Esquerda durante este tempo todo, é hoje pouco mais do que o direito de porte de arma à caça de terroristas pelas Igrejas Adventistas.

E viva o Movimento Mérito e Sociedade, que nem é da esquerda nem da direita mas da frente. E, já agora, o Manuel Alegre.

2009/05/29

Ana Gomes


número I.
Nem é preciso ler o post da Ana Gomes (acima). Visualmente é fácil perceber que o metabolismo da senhora está perto do ponto crítico. Basta ver o jardim zoológico de links, itálicos, negritos, pontos de exclamação.
Não se admirem se amanhã for notícia "Ana Gomes entra em combustão instantânea após José Manuel Barroso lhe ter dados os bons-dias"

número II.
Quanto ao PSD/PPE ter defendido um imposto europeu, AG mostra aqui isso. Alguém que me explique onde é que isso está. Talvez seja devido ao excesso de negritos, mas eu só vejo coisas como (em tradução livre)
- muitos consideram que ainda não chegou a hora de um imposto europeu
- embora a possibilidade exista
- mais tarde isso pode acontecer
- ir-se-á analisar a possibilidade de
- será importante analisar, no futuro, a ideia de a Europa ter recursos próprios (...) recorrendo a um imposto
- (...) (...)

Mas são os negritos que me fazem mal ou eu só leio o equivalente a um "depois vê-se" porque agora-já-maintenant ninguém quer o imposto?

2009/05/28

vital moreira e o grande capital

via Arrastão




alguém imagina este homem a dizer "Nós, Europeus"?

uma grande perda para a Esquerda (II)

João Miranda n'O Blasfémias:




(nota: A quem me pergunta porque é que não consegue votar: é uma imagem. Se quiser votar, vá ao Blasfémias.)

Vital Tiro-no-pé Moreira

Tenho de concordar. O que parecia ser uma grande aposta estratégica de Sócrates: puxar à esquerda onde estão muitos votos perdidos, com um candidato ex-PCP, com mérito intelectual e (diz-se, nem sei bem) com ideias claras sobre a Europa (sobre a Europa basta ter ideias, ninguém quer muito bem saber quais são).

O problema é que virou tudo ao contrário. Ainda que esteja fora e não consiga perceber bem como está a decorrer a campanha, Vital foi um tiro no pé: à Esquerda é um traidor, à Direita é comunista; ao vivo não diz nada de jeito, por escrito ninguém o lê; na TV o Rangel dá cabo dele, na rua fala de penteados.

A primeira surpresa [desta campanha eleitoral] veio das sondagens. Ninguém esperava o empate técnico entre os dois maiores partidos. Ora nas sondagens, tal como na Bolsa, mais do que as cotações diárias, interessa a tendência de fundo e, neste caso, verifica-se uma subida progressiva do PSD que deixa tudo em aberto para as eleições de 7 de Junho.
A segunda surpresa chama-se Vital Moreira. Já não é apenas a fraca prestação nos debates. Vital parece deslocado, fora de contexto. Apesar de brilhante, a sua pose professoral (estilo “lente” de Coimbra) não entusiasma ninguém. É visto à esquerda como um “traidor”, como se viu no triste episódio do 1.º de Maio. E à direita como ex-comunista da linha dura. Até mesmo os socialistas têm dificuldade de o ver como um dos “seus”.
(Paulo Marcelo, O Cachimbo de Magritte)

2009/05/27

uma grande perda para a Esquerda

um grande ganho para a Direita:

Dias Loureiro renuncia ao Conselho de Estado

O que é uma chatice porque, agora, certas e determinadas pessoas como o Valupi já não podem atirar um Loureiro ao ar de cada vez que se fala em campanhas negras.

justiça em Portugal

Parece que o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) considerou hoje que o sistema de Justiça "não é tão mau" como algumas avaliações "pouco objectivas" pretendem transmitir.

Eu de Justiça, e principalmente sobre a malha de procedimentos legais, pouco percebo. Mas relembro o que se passou bem recentemente fora de Portugal, com exemplos que me parecem absolutamente comparáveis:

- Madoff foi julgado e condenado em poucos meses nos US; o caso BPN não tem fim à vista
- Josef Fritzl foi julgado e condenado em poucos meses na Áustria; o caso Casa Pia já leva anos.

Se, aoo olhos do leigo, isto não é comparável, não sei o que será. Estarei a ser injusto?

aditamento: João Cândido da Silva, Justiça e vingança

2009/05/26

um caso de sucesso de uma comunidade comunista

(passe o pleonasmo, que até nem o é, porque é mais cacofonia)

Now that Spain’s real estate bust is fueling rampant unemployment, this Communist enclave, surrounded by sloping olive groves, is thumbing its nose at its countrymen’s capitalist folly. Attracted by its municipal housing program and bustling farming cooperative, people from neighboring villages and beyond have come here seeking jobs or homes, villagers and officials say.
(NYTimes, hoje)


Mas tenho uma questão a colocar aos residentes desta magnífica aldeia que conseguiu atingir a utopia que tantos outros não conseguiram:
- caso usem telemóveis, de que marca são?

The Road of Venezuela

Para quem ainda acha que pode haver comunismo livre e democrático:

Álvaro Vargas Llosa ha acusado este viernes a las autoridades venezolanas de retenerle durante dos horas y confiscarle el pasaporte en el aeropuerto internacional de Caracas. El intelectual peruano ha declarado posteriormente que fue advertido de que no debe opinar de política interna.
(El Pais, hoje)

2009/05/25

divórcios e pobreza

Sempre que Cavaco Silva se lembra de associar a lei do divórcio à pobreza, eu fico algo perplexo. Nem consigo perceber bem a relação entre o que me parece um fenómeno de escala muito limitada - o divórcio - e um fenómeno de escala social, a pobreza, nem consigo perceber muito bem o porquê da preocupação de Cavaco Silva, o grande arquitecto económico que apenas se preocupa com grandes linhas de orientação.

Depois lê-se assim no Expresso

João Costa Reis explica que, no caso da habitação, a principal causa de incumprimento é o divórcio (incluindo separações de uniões de facto). "Em 55% dos casos é exactamente assim". A segunda causa é o desemprego, que representa 40% das situações.


Afinal, talvez o fenómeno não seja de escala tão limitada quanto a que imaginava.

De qualquer forma, e aqui alinho pelo anti-economicismo, querer manter duas pessoas juntas por causa do empréstimo da casa continua a ser desproporcionado. O que não mata engorda e a próxima geração talvez venha a adorar aquele papelinho da separação de bens.

2009/05/24

reinvenção do emprego

O cabeça de lista do BE às europeias, Miguel Portas, exigiu hoje que o Estado não coloque "a corda na garganta" nos projectos de desenvolvimento local, sublinhando o papel das associações de todo o país na "reinvenção do emprego".
(Publico, hoje)

É um excelente exemplo de como a exacta mesmíssima coisa se pode dizer por duas pessoas que pensam radicalmente diferente. A questão é que um tem na ideia uma comprativa e outro tem na ideia um "deixai-os trabalhar".

2009/05/23

Major Marinho Pinto

Sobre a "entrevista" que MMG deu a MP (Marinho Pinto, não Ministério Público...), ocorre-me dizer isto

- Acho delicioso ao que se presta MMG. Tenho de concordar que aquilo não foi bem uma entrevista mas antes um combate de boxe. Muito longe de censurar o jornalismo que MMG faz, devo dizer que ser figura pública com responsabilidades públicas (principalmente qdo se defende uma classe) tem destas coisas: está sob escrutínio. Pelo menos, MP não parece andar a processar ninguém. A ver vamos.

- MP lembra-me Valentim Loureiro. Ao princpio (tinha eu quê? 13 anos...?) achava que quem fala assim, num tom moralistico-assertivo-autoritário, não pode ter nada a esconder. É o verdadeiro herói popular, o verdadeiro Zé do Telhado sec XX/XXI. O problema são depois os frigoríficos.

- como sumariza AAAlves:
acto I (21.05.2009): "Vice-presidente de Lisboa da Ordem dos Advogados diz “basta” a Marinho";
acto II (23.05.2009): "Marinho Pinto anuncia proposta para extinguir Conselhos Distritais".

- por fim, relembro que um dos papéis fundamentais da comunicação social é colocar sob escrutínio a democracia, dado que os restantes cidadãos delegaram esse papel (parcialmente) nela própria. Claro que daria jeito que a Justiça funcionasse bem. É nesse sentido que tanto aprecio o papel de MMG como não recomendo a forma como conduz as "entrevistas". Dado que, felizmente, valorizo bem mais conteúdo do que forma, não há propriamente um empate ou conflito interno.

- usando uma das minhas expressões favoritas: caro Marinho Pinto, é a vida. A minha segunda expressão favorita, que só funciona em inglês, é esta: "just dream and entertain". Também se aplica neste caso.

2009/05/22

Carlos Santos é socialista

...se dúvidas houvesse, aqui fica a prova, a propósito do doutoramento honoris causa de Belmiro de Azevedo:

Cabe-me ainda perguntar: o fulano que acabou um curso de contabilidade como trabalhador estudante, casou e teve 3 filhos, que educou e mandou para a Universidade estudar, fundou um escritório onde dá emprego a 5 pessoas, e poderia ganhar mais no fim do mês se só desse a 4, (...) esse fulano não gerou certamente "um valioso contributo para a economia portuguesa" (...)?


ou seja: ou há doutoramentos honoris causa para todos ou não há para ninguém. A lei urge ser redigida.

aditamento: "socialista" no sentido da ideologia, não no sentido de uma ligação ao Partido Socialista.

a culpa é do neoliberalismo irlandês


a boa notícia é que a estimativa diz que só nos faltam 46 anos para chegarmos ao rendimento médio da UE
(imagem aqui, via Blasfémias)

2009/05/15

manifesto liberal sem querer

Pode não parecer, mas isto está perto de ser um manifesto liberal. É preciso é perceber o que é o liberalismo.

Leonel Moura fala das Universidades. Mas é uma questão de substituir no texto "universidade" e "instiuições de ensino" por tãp-somente "instituições".

Temos assim um contexto cultural em que cada um aprende por si, em que o saber é intensamente combinado e recombinado e em que a produção de inovação deriva de uma forte cooperação entre distintos e muito diversos indivíduos. Ora, acontece, que a generalidade das instituições culturais e de ensino não estão preparadas para um tal dinamismo.
(Leonel Moura, JNeg)


As minhas sinceras desculpas a Leonel Moura, no caso de se sentir ofendido ao ter escrito isto... Já aconteceu.

2009/04/29

‘Se perder, perdi’

Ao contrário do Bernardo, eu gostei do 'Se perder, perdi' de Manuela Ferreira Leite.
(André Azevedo Alves n'O Insurgente)

leitura adicional no SB: às vezes acontece-me uma utopia

Tudo Pelo Estado

A grande questão, pós Abril, está em saber que Estado proporcionará o melhor do Homem numa sociedade verdadeiramente livre, se aquele que requer mais individualismo (não é o mesmo que egoísmo), que responsabilize cada um de nós pelo nosso futuro, individual e colectivo, ou se aquele que centraliza numa elite, em nome de uma maioria ausente, e da desconfiança, uma inexorável mediocridade.

Num Estado que, apesar do enorme dispêndio de recursos, falha logo nos seus atributos básicos (Segurança e Justiça), não pode deixar de ser uma suprema ironia a reinvenção da máxima de Salazar: "tudo pelo Estado, nada contra o Estado".
(Sociedade Aberta, Angelo Ferreira)


Eu acrescentaria mais um atributo básico que é a dimensão social do Estado: neste momento, temos uma Safety-Net mínima pelo preço de um Estado-Providência máximo.