2007/03/02

No pasará!

Os accionistas da Portugal Telecom foram hoje recebidos por algumas dezenas de pessoas, à entrada do local da assembleia geral extraordinária, numa manifestação contra a Operação Pública de Aquisição da Sonaecom.

Os manifestantes, entre trabalhadores e sindicalistas, aplaudiram o presidente da PT, Henrique Granadeiro, e o empresário Joe Berardo, que se tem manifestado contra a operação da Sonaecom.

"A Sonae não passará" era o cântico entoado pelos manifestantes, que se faziam acompanhar por cartazes e distribuíam folhetos do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Telecomunicações e Audiovisual a quem entrava no centro de congressos da Feira Internacional de Lisboa, na Junqueira, em Lisboa.

Público Última Hora
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Nada como uma empresa liderada por um comissário político do estado para reconciliar o capitalismo com as hostes proletárias.

Olha, o Portas falou...



A não perder, os dois artigos que para mim melhor analisaram o regresso já consumado de Paulo Portas (ao primeiro dos quais subtraí a melhor imagem que até ao momento ilustra a história):

Nos últimos tempos, Paulo Portas deve ter voltado a falar com Deus. E Deus terá, como é natural, aconselhado Paulo Portas novamente. E Deus deve-lhe ter dito que talvez fosse boa ideia regressar à liderança do partido. Que talvez fosse boa ideia regressar à liderança do partido porque a contestação ao governo começa agora a sentir-se em força. Que talvez fosse boa ideia regressar porque a oposição está nas ruas da amargura: os líderes do PSD e do CDS-PP deram a cara em momento difícil, e agora olham-se ao espelho e têm a cara velha e gasta. Que talvez fosse boa ideia regressar porque é preciso um messias para por ordem no partido de 7%. Ora, não obstante as credenciais de derrota, Paulo Portas é um messias. Vá-se lá saber porquê, mas um messias. Diz quem sabe.

Vai-vem, de Pedro Santos Cardoso no Dolo Eventual.
Sucede ainda que nesta caminhada táctica, porque é de tacticismo e não de uma verdadeira estratégia que se trata, o caminho de Portas é quase suicida e não se vê que possa ter um final feliz. Faltam-lhe, desde logo, argumentos fortes para justificar a saída e explicar o regresso. Faltam-lhe pessoas, já que tem menos do que quando saiu, altura em que, ao contrário de agora, ninguém no partido o questionava frontalmente. Não tem ideias novas, tendo-se refugiado nas banalidades que todos os políticos dizem, como a necessidade de conhecer o país e as mentalidades dos portugueses. Sobretudo, falta-lhe uma explicação plausível para o facto de reaparecer agora e não depois do seu involuntário sucessor ter ido com o partido a votos em eleições nacionais, ignorando-se, em bom rigor, se lhe poderá ou não ser útil.

Os custos da popularidade, de Rui Albuquerque no Blasfémias.

A pergunta que falta responder

Fazendo jus à sua tradição de matriz predominantemente católica, Portugal e as instituições portuguesas só parecem capazes de atingir níveis de excelência quando possuem um papa. Pelo contrário, quando os portugueses adoptam o modelo protestante da autoridade disseminada, os resultados raramente são impressionantes, senão mesmo, na generalidade, medíocres.
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Assim, nos últimos duzentos anos, o período de maior progresso económico e social em Portugal foi o do Estado Novo (tinha um papa).

Pedro Arroja, no Blasfémias.
Como poderão ver por alguns dos meus últimos artigos, tenho seguido com alguma curiosidade os recentes artigos de Pedro Arroja, e principalmente a "guerra" de argumentos que despontou com João Miranda.

Apesar de pessoalmente achar que a balança tem pendido claramente para o lado do João Miranda que tem, com o seu rigor argumentativo e com a honestidade intelectual a que nos habituou (e, honra lhe seja feita, a militância), desmontado e exposto os argumentos contrários e desse modo deixando pouca margem de manobra a uma eventual tese de Pedro Arroja, acho que há um esclarecimento que tarde ser avançado pelo último, como consequência lógica da sua cruzada argumentativa.

Quanto a mim, essa resposta e esse esclarecimento é o de se o modelo de autoridade, de organização económica e social e de prioridades do Estado Novo, a que ele parece reconhecer tanto mérito e resultados segundo ele tão eloquentes, é o modelo que ele vislumbraria para um futuro em Portugal, e se é a fórmula que defende (face aos méritos que lhe reconhece) que seja novamente aplicado ao nosso país. Se é próximo e de que forma o é do plano e do projecto político que ele gostaria de ver ser aplicado por um eventual movimento ou partido liberal em Portugal.

Acho que todos nós só poderiamos ganhar com a honestidade e com o esclarecimento de tornar consequente toda a análise que Pedro Arroja faz do passado. Afinal, permitiria a todos tomarem as suas conclusões, e ler as outras teses que enuncia e que venha a defender aos olhos do modelo que defende.

Fico portanto, da minha parte, à espera que decida tornar claro aquilo que somente se pode inferir actualmente das suas palavras.

2007/02/28

A pirâmide multi-vértice II


Papa Leão IX.


Patriarca de Constantinopla Miguel I Cerularius.

A pirâmide multi-vértice I

"Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer"

(Catecismo da Igreja Católica: 878), citado por Pedro Arroja no Blasfémias.
Não há nenhum, mas absolutamente nenhum, sistema de controlo sobre o Papa. E o sistema é piramidal, como o Papa lá no vértice da pirâmide. Procure modificar a sua tese, porque ela, tal como está, é refutada pela Igreja Católica (e, já agora, por muitas outras organizações).

Comentário de Pedro Arroja ao artigo anterior, editado.

Antipapa João XXIII, da linha papal de Pisa.


Papa Gregório XII, da linha papal romana.


Antipapa de Avinhão Bento XIII.

2007/02/27

O direito a utilizar a força

A evolução recente na história da humanidade levou-a a compreender que para a existência de ordem e liberdade as relações entre indivíduos deverão ser voluntárias e livremente contratualizadas. A humanidade evoluiu para uma situação em que a transmissão da propriedade, a cessão da liberdade, do direito sobre o corpo, só são legítimas se estabelecidas por acordo voluntário, enquanto que a violação da integridade física passou a ser aceitável apenas em casos extremos de legítima defesa. Aos códigos de conduta de natureza espontânea, seguiram os códigos religiosos e, a estes, os códigos legislativos em sentido estrito. Como exemplo, nas sociedades modernas, temos as relações de trabalho, a transmissão de propriedade e a união pelo casamento que se constituem, dentro dos limites impostos por lei, como contratos livres e voluntários entre as partes, e que vieram substituír as anteriores relações estabelecidas pela força (escravatura, o roubo, a invasão de propriedade, a compra de noivas…).
Nas sociedades modernas subsiste, porém, um tipo de relacionamento forçado que é o relacionamento do indivíduo para com o estado. O estado e o contrato social subjacente são impostos ao indivíduo à nascença, imposição que se prolonga pela sua vida.
O direito à utilização da força coerciva de uma sociedade sobre um indivíduo só deverá ser legítimo se tiver existido acordo prévio e voluntário entre os ambos no qual a utilização da força coerciva estivesse prevista para a resolução de conflitos. O carácter voluntário deste contrato social implica a existência de alternativas para o indivíduo (e, já agora, também para a sociedade, mas esse é assunto para outra altura). Sem a exposição à concorrência o aspecto voluntário dos contrato sociais esvai-se e a imposição de regras de conduta pela força deixa de ser legítima.

Em altura de liberais desiludidos

At all times sincere friends of freedom have been rare, and its triumphs have been due to minorities, that have prevailed by associating themselves with auxiliaries whose objects often differed from their own; and this association, which is always dangerous, has been sometimes disastrous, by giving to opponents just grounds of opposition, and by kindling dispute over the spoils in the hour of success. No obstacle has been so constant, or so difficult to overcome, as uncertainty and confusion touching the nature of true liberty.
Lord Acton

Arranque auspicioso

Começou ontem (este ano mais tardiamente) o meu "estágio" de FantasPorto, uma daquelas coisas boas que se aguardam todos os anos com ansiedade e com a curiosidade de ver o que nos espera desta vez.

Desta vez, a primeira aposta foi para a produção norueguesa/islandesa The Bothersome Man (IMDB). Armado que vinha de vários prémios, entre os quais o da Semana da Crítica de Cannes '06, as espectativas não foram, quanto a mim, defraudadas. Armado com umas pontas corrosivas de humor tanto ao gosto do público do Fantas (para quem o for ver, atentem à cena do metro em meados do filme), é a história de um homem sem memória do passado que subitamente se vê numa cidade em que se vive um marasmo eterno onde tudo está disponível, desde o emprego até a uma esposa desejável ou mesmo ao dinheiro de bolso, tudo com um sorriso nos lábios e sem grandes confusões, e onde a morte nem sequer é uma solução. Onde as coisas perderam, desse modo, o sabor. Como diz uma personagem, desde o chocolate quente, às ratas e aos hamburguers.

O inconformismo do protagonista leva-o a tentar fugir do cinzento que o envolve e sofoca, e da multidão feliz por viver na sua animação suspensa dourada.

Quanto a mim, o filme acaba por poder ter uma leitura engraçada, à luz do Liberalismo. Acaba por mostrar uma sociedade igualitariamente perfeita, um efectivo Estado Social onde tudo, desde a sobrevivência (mesmo contra a vontade do indivíduo) até ao emprego, ao dinheiro e às companhias é acessível pela mera vontade. Onde o trabalho nesse emprego é um mero proforma opcional e onde todos estão seguros, mas não realizados. Onde o prazer se extinguiu, á falta da diferença e da ambição, e onde cada dia passa a ser uma rotina standardizada e funcionalizada.

E acaba por ser o constatar do protagonista que mais importante do que tudo isso, e a única coisa que dá significado a esses gestos, é a Liberdade.

Tenho um palpite que é filme para ganhar qualquer coisa no Fantas. Se for o caso, no Domingo há repetição.

Fica a sugestão.

Mais uma inspirada pelo demónio das catchy tunes


Amy Winehouse, Rehab, Back in Black.

2007/02/26

Lauda ao adiantado mental.

Foi um fim de dia dificil. Por dever de solidariedade intrabloguística, li este post e esta caixa de comentários. Por coincidência, estava a rever simultanemente o DN nesta página.

Ver o aclamado pai do liberalismo moderno luso a levar uma banhada internáutica, ver a voz mais cristalina dos travestis liberais da direita portuguesa a babar-se por um oportunista político e ver um esclarecido economista liberal a ter delírios celestiais pós-abortistas, tutti in sieme, é um bocadinho excessivo.

Para mim, o resultado das longas discussões sobre aborto, estado novo, liberais neo-convertidos, sebastianismos e liberalismo de sacristia, juntamente com a realidade anedótica deste pseudo-projecto político é este:

Partidos Liberais Never Again.

Eu já sei a quem dar o meu voto em 2009.

Disclaimer: Não obstante, o mentirismo, a demagogia, a chico-espertisse e a petulância, todos em dose obssessiva.

Demolidor

Nas palavras do José Barros na respectiva caixa de comentários, temos CAA vintage (demonstrando não ter acumulado sequelas das más companhias) no Blasfémias:

E depois, em Portugal, não há «direita liberal». Há, sim, meia-dúzia de bem intencionados (entre os quais, também, me incluo), carregadinhos de wishful thinking, mais ou menos inconsequentes e desejosos que essa miragem se possa concretizar. Mas estão, inapelavelmente, perdidos num imenso mar de conservadores imobilistas, proteccionistas e, para meu próprio espanto recente, de salazaristas mal camuflados - como se pode ver numa breve passagem pelas discussões de alguns blogues nacionais que gostam de se auto-intitular de "liberais", por exemplo, muito infelizmente, no Blasfémias.

Mas o que me parece bastante mais indesculpável é Henrique Raposo depositar toda a sua confiança na fundação da «direita liberal» em alguém como Paulo Portas - aliás, insuportavelmente idolatrado em todo o texto.
O Paulo Portas de que agora, sebasticamente, se diz que vai "regressar", não renasceu politicamente de geração espontânea - é o mesmo que foi ministro e vice-primeiro-ministro de um governo de que Barroso fazia gáudio em dizer "que não tinha nenhum liberal entre os seus membros". É o mesmo Paulo Portas que verberou o liberalismo e os seus princípios até mais não, garantindo, a propósito, que "Aveiro não é Chicago e Portugal não é os Estados Unidos" (?!). É o mesmo Paulo Portas que desmentiu o liberalismo em todas as acções do seu governo durante três anos e meio.
Sinceramente, também fiquei particularmente surpreendido com as afirmações de Henrique Raposo, alguém por quem nutro bastante respeito intelectual, nomeadamente no que toca ao elogio descabido de Paulo Portas, elevado subitamente ao cargo de D. Sebastião do "liberalismo conservador".

Sinceramente, não o tomo por um ingénuo, e principalmente não o tomo como alguém que seja incapaz de ler das entrelinhas do discurso (recente) de Portas as suas verdadeiras intenções e, principalmente, a sua estratégia. Também não julgo que engrossa o rol dos desesperados que acham que qualquer coisa em prol do liberalismo é melhor que nada. Não seria desse modo compreensível um discurso tão subitamente apaixonado.

Os únicos que, julgo, poderão ser iludidos pela súbita encarnação liberal (ungida no templo do liberalismo) de Portas, e que poderão ser desculpados, são os que não têm memória. A esses perdoa-se o não se lembrarem o que saiu da boca do referido (ainda na versão de dentes anterior), em tempos ainda não muito idos. Ou então, quando muito, os desatentos, que não ouvem as suas respostas quando é apertado em assuntos que colocam um verdadeiro liberal em posição de ter que dizer coisas que não agradariam a muitos.

Infelizmente, o liberalismo está, também pela sua praticamente inexistência no campo político português, a saque. Enquanto os seus sinceros apoiantes e defensores não se decidem e avançam, outros investem na conquista de um segmento de mercado político apetitoso, muito provavelmente de uma maneira que comprometerá de uma vez por todas a credibilidade de uma opção liberal.

Mas a mim, pelo menos, não me comem por parvo.

Autoridade



(Video)

Dar o braço a torcer

Quem ganha uma discussão? Assume-se normalmente que é quem consegue convencer o outro que a sua opinião está correcta. Na minha opinião, quem ganha mais com uma discussão é quem é convencido, quem muda de opinião, quem fica mais esclarecido.
Depois de lêr hoje este post e respectivos comentários, assumo-me hoje como vitorioso na minha recente discussão com os críticos de Pedro Arroja.

2007/02/25

1 ano


2007/02/22

Serviço público que o Daniel Oliveira já gosta

E o apito Dourado? E Pinto da Costa? E a corrupção dos construtores? E Pinto da Costa? E o mapa das acusações? E Pinto da Costa? E o caso Casa Pia? E Pinto da Costa? E os autarcas bandidos? E Pinto da Costa? E as agressões? E Pinto da Costa? E as comissões de investigação? E Pinto da Costa? E Lisboa? E Pinto da Costa? E os prazos das acusações? E Pinto da Costa? E vai alguém preso? E Pinto da Costa? (cont.)

2007/02/21

Nada disso

Não, Henrique. Eu nunca disse que discordava com o voto democrático como regra de decisão para a questão do aborto. O que disse, e reafirmo, é que o direito à vida, enquanto direito negativo, não deve ser sujeito a voto democrático. Isto por contraposição a outros "liberais", como o Luís Lavoura, que na caixa de comentários que citas afirma que, se por voto democrático fosse rejeitada a defesa legal do direito à vida dos negros, essa decisão deveria ser respeitada. A questão do aborto é diferente: a vida intra-uterina impõe um conjunto de comportamentos positivos à mãe, razão pela qual não a considero como um direito negativo.
A grande questão para mim é a de saber qual o momento em que a mãe se assume responsável pela vida do filho ou seja, responsável por ter comportamentos positivos que defendam a vida do filho. Muitos liberais acreditam que isso acontece logo no acto da concepção, porque a mulher sabe que o risco de um acto sexual acabar em concepção não é nulo. Na minha opinião, essa responsabilidade não pode resultar de um acidente, deve ser voluntária e intencionada. A lei aprovada em referendo, mesmo que não de forma vinculativa, passará a assumir que uma mulher que opte por não abortar até às 10 semanas, está voluntariamente a aceitar a responsabilidade pelo filho. É uma lei que, com todos os seus defeitos, parece-me mais acertada que a actual.

Título fácil dos jornais desportivos de amanhã caso o FCP ganhe ao Chelsea

É tempo de Quaresma!

Private joke gone public



(Clicar para versão ampliada, original no site da Câmara Municipal do Porto.)

4º Poder?

Acompanho a estranheza do AMN n'A Arte da Fuga. Eu sei que Salvaterra de Magos tem praticamente um terço da população de Felgueiras ou de Marco de Canaveses. Mas será que a situação envolvente que conduziu à condição de arguida da sua autarca, e a evolução da sua situação não têm interesse jornalístico? Será que todos os holofotes, directos, análises sociológicas e demais intervenções de acompanhamento da imprensa estão em "stand-by"?

Ou será que há certas "causas" que não estão sujeitas ao escrutínio do "4º poder"?

Salazar, Salazar, Salazar

Corre pela blogosfera, e sobretudo pelas paragens blasfemas (sim, e até por aqui!), um acérrimo debate sobre a mais-valia (ou inexistência desta) em termos de Liberalismo (em particular na Economia) de Salazar e do Estado Novo. Esgrimem-se números exemplares de crescimento económico, de funcionamento exemplar da manutenção do Estado de Direito, e até de preservação da liberdade religiosa (eventualmente pela assinatura de tratados que garantiram direitos exclusivos a uma confissão religiosa, alguns deles misturados com leis do estado, como se tratou do caso da Concordata).

Quanto a mim, a menos que o Carnaval (essa festa afinal tão salazarenta e provinciana) tenha feito das suas e tenha deixado as suas sequelas em alguns blasfemos, nomeadamente em Pedro Arroja, se calhar seria melhor ponderar o que se anda a dizer e afinal que raio de Liberalismo é que se professa. Sem falsos pudores e reservas. Afinal, da minha parte, não sofro e não tenciono sofrer de nenhuma limitação em discutir os factos e os problemas deles derivados que governaram o nosso país durante quase uma boa fatia do séc. XX, mesmo tendo sido, ainda que indirectamente, vítima dos desvarios que marcaram o período que o sucedeu.

Em primeiro lugar, julgo que Pedro Arroja compreenderá muito bem, provavelmente melhor do que eu, o que destingue o Liberalismo de um mero Utilitarismo. Se estamos dispostos, como liberais, a assumir que os fins justificam os meios e que a liberdade económica é, por si só e autonomamente, um garante de Liberdade e uma mais-valia absoluta, teremos (o que eu não faço) que pactuar com as experiências mais totalitários e autocráticas, que optem por meios mais ou menos oportunistas por garantir alguma liberdade económica mas que cortem todas as outras liberdades. Temos que pactuar com a plutocracia muito liberalmente económica que reina na genérica anomia e no em grande parte estado da natureza que reina na Rússia actual, ou com tiranias light como Singapura, onde os seus cidadãos têm muitas vezes que recorrer ao estrangeiro para gozar de liberdades que todos diriam garantidas e civilizacionalmente adquiridas.

Mais do que isso, nessa perspectiva de que os fins tudo justificam, teriamos que antecipar para breve a defesa de Pedro Arroja para outro português na berra, Álvaro Cunhal. Afinal, enquanto Salazar, segundo as suas palavras, estaria a lutar por importantes liberdades sociais, com supostos efeitos marginais numa concepção generalizada do Liberalismo, também Álvaro Cunhal lutou por várias liberdades individuais, algumas até que lograram ter sucesso depois do 25 de Abril. Se isso faz dele um corajoso e arreigado liberal, não me parece. Mesmo achando que a economia de mercado livre tem um papel decisivo na liberalização das sociedades e dos estados, não podemos confundir a sua implementação, muitas vezes com intenções menos próprias e claras, frequentemente viradas para o enriquecimento rápido de elites políticas que em alternativa estaria presas a uma economia definhante, não se pode confundir os efeitos com as intenções. Com o risco de passarmos a tratar os indivíduos do PC chinês como uma grande corja de liberais.

Além disso, no caso concreto de Salazar, os próprios méritos económicos apresentados são, em larga margem, disputáveis.

É claro que, depois dos desvarios da 1ª República, e do estado generalizado de bancarrota e de caos político que dela desembocou, quem tivesse olho seria Rei. De preferência se demonstrasse um pulso firme e vontade de arrumar a casa.

Face a um ponto de partida em termos económicos como este, ou seja, partindo em grande parte do nada, e à semelhança da generalidade dos países em desenvolvimento (ainda mais num país situado em posição previlegiada na Europa, com recursos), não seria de estranhar que qualquer esforço em direcção à ordem teria como natural repercursão um significativo crescimento económico.

Agora a existência desse crescimento económico não serve para justificar, ainda mais a olhos liberais, o que foi feito. A economia portuguesa não era uma economia livre. Políticas como a do condicionamento industrial facilmente ditam o contrário. A economia portuguesa era sim uma economia extremamente planificada e centralizada, e que se jogava em grande parte nos círculos de poder do estado vigente e das elites sancionadas pelo regime. Era uma economia gerida por enormes corporações avalizadas pelo estado, que gozavam de amplos poderes monopolistas e de direitos de exclusivo impostos pelo estado. Ainda hoje vivemos a lembrança desses desvarios colectivistas e centralistas. Basta olharmos para heranças como a CP, a TAP, ou puxar pela memória e lembrar empresas como a LISNAVE ou a CUF.

Também não é difícil lembrar o keynesianismo das grandes obras como motor do desenvolvimento nacional. Pontes, barragens, vias de comunicação, infrastruturas várias, todas desenvolvidas no seio do estado e na esfera da sua influência de amizades políticas e económicas, ditavam o emprego e o destino do erário público.

Temos também que nos lembrar que falamos no país em que tudo emergia do lider, em que toda a cadeia de comando e de poder era estabelecida a partir deste, e em que cargos que hoje vemos com normalidade democrática como é o caso dos autarcas eram exercidos numa lógica de nomeação pelo poder central.

Além disso, não podemos negar todos os condicionalismos históricos que auxiliaram esse crescimento. Portugal, por razões discutíveis, não participou na IIª Guerra Mundial. Apesar de não ter sofrido grande influência (positiva ou negativa) duranto o período em que esta ocorreu, não se poderá negar que a estabilidade que se granjeou, conjuntamente com o facto de não se ter tido que pagar a sua factura foi positivo. Assim como positivos eram os recursos que eram canalizados das colónias, e o dinheiro barato e apoios do Plano Marshall. E não terá sido uma guerrazita nas províncias indianas que terá feito grande mossa.

Ou seja, esteve disponível durante décadas um cenário de tranquilidade política e social, abundandância de recursos, abundância de dinheiro barato e necessidade de construção em massa de infrastruturas e equipamentos, conjugado com um controlo apertado e rigoroso de toda a economia e da cadeia de poder e de influências. Num cenário destes, a menos que um governante fosse um total irresponsável (ou um idiota), difícil seria não ter crescimento económico.

No nosso caso calhou-nos um ditador asceta, com grande aversão ao risco e com um forte condicionamento moral e religioso que o fizeram não entrar em grandes megalomanias. Mas, provavelmente, a sua aversão ao risco e dependência no controlo da cadeia de comando e na Economia, conjugados com um desprezo pela liberdade individual (principalmente quando posta em conflito com os superiores desígnios do estado) impossibilitaram que o nosso desempenho económico pudesse ter sido algo de efectivamente excepcional.

E, concerteza, estes não são ingredientes para um suposto Grande Liberal, e sequer para algo parecido com Liberalismo.

Vantagens/Desvantagens dos possíveis resultados finais do concurso Grandes Portugueses

Vitória de Salazar:

Vantagens:

  1. Desde o 25 de Abril que a direita deixou de existir ou, existindo, tem pouca relevância. A vitória de Salazar num concurso deste tipo poderia ser um sinal para a esquerda, a que tem governado o país e a que controla as ruas, do risco reaccionário das suas políticas e da necessidade de as inverter ou moderar.

Desvantagens:
  1. A luta contra o fascismo é uma das principais bandeiras da esquerda. A vitória de Salazar poderia dar um impulso extra aos movimentos da esquerda mais radical.
  2. A vitória de Salazar daria um novo alento aos movimentos de extrema-direita nacionais.
  3. A divulgação internacional do resultado danificaria a imagem de Portugal.


Vitória de Cunhal:

Vantagens:
  1. Sinalizaria ao país a força e capacidade organizativa que a extrema esquerda portuguesa ainda tem para actuar na sombra.
  2. Os movimentos de extrema direita, de todos os mais empenhados no resultado deste concurso, saíriam derrotados, desmotivando futuras lutas.

Desvantagens:
  1. Poderia ser uma vitória moralizante para os movimentos comunistas em Portugal, em especial para o PCP.
  2. A divulgação internacional do resultado danificaria a imagem de Portugal

2007/02/19

Aprender com o passado

O Adormecimento da oposição durante o Estado Novo, teve mais a ver com os anti-corpos provocados na população portuguesa pela 1ª República (de que a oposição não comunista era a herdeira) que com o "Povo" em si mesmo.

Luís Bonifácio do Nova Floresta em comentário a este post

A Primeira República

Durante quanto tempo os erros da Primeira República serviram para justificar os desvarios totalitaristas do Estado Novo?

2007/02/16

Frases anti-liberais e fascistas

  • Hitler era um grande jogador de ténis e tratava melhor o seu cão do que os seus sucessores
  • Stalin tinha o cabelo muito bem tratado e era melhor jardineiro que Gorbatchov
  • Cunhal gostava muito dos netos e escrevia melhor que Cavaco
  • Salazar era um homem prudente e durante o tempo que passou no governo o peso do estado na economia era mais baixo do que actualmente

Descubra as diferenças

Venezuela's President Hugo Chavez has threatened to nationalise stores that sell meat above a government-set price.

The government says supermarkets have been artificially boosting prices of basic foods by manipulating stockpiles.

But critics blame regular food shortages on prices imposed four years ago, forcing shops to sell at a loss.

BBC News.
O projecto de lei do BE, que foi hoje discutido em plenário, previa a introdução de um regime de preços máximos na venda de medicamentos não sujeitos a receita médica, de forma a permitir contrariar o que considera ser a "efectiva e continuada tendência de subida de preços" verificada após a liberalização do mercado destes produtos.

"Não havendo preço máximo estabelecido, os preços tendem a subir", afirmou o deputado do BE João Semedo, alertando para a "contínua subida" do preço dos medicamentos não sujeitos a receita médica desde que o Governo introduziu a "liberalização do local e preço de venda" deste tipo de medicamentos, há um ano.

[...]

"O Governo trata os medicamentos de venda livre como uma simples mercadoria", acusou o líder da bancada comunista, Bernardino Soares, adiantando que o PCP concorda com a introdução de um regime de preços máximos "para evitar exageros".

Pelo CDS-PP, o deputado Hélder Amaral admitiu que o seu partido deu um "acordo de princípio à liberalização do mercado" dos medicamentos não sujeitos a receita médica.

"Mas a liberalização do mercado é uma roleta russa", disse ainda o deputado do CDS-PP, concordando com a análise do BE de que se verificou uma subida dos preços.

Público Última Hora.

Ironias II

O Daniel Oliveira não viu o programa do Álvaro Cunhal?

Crónicas de uma OPA

  1. Os Azevedo lá acabaram com o seu bluff negocial e ofereceram um valor a sério pela PT.
  2. Estranhamente, ou não, as acções da PT continuam a negociar abaixo do valor oferecido. Isto faz lembrar outra OPA, a de Manuel Fino à Soares da Costa, cujo alvo, a quatro semanas do fim da OPA ainda tinha um valor de mercado 4%(!!!) abaixo do valor oferecido. Ainda há muitos almoços grátis no mercado português.
  3. As acções da SONAECOM entram a subir 20% o que só pode querer dizer duas coisas: a SONAECOM precisa da OPA para sobreviver e/ou há ainda muito por onde subir a oferta.
  4. Nos últimos dias as ordens de compra de acções do grupo SONAE subiram inexplicavelmente. Como sempre acontece nestes casos em Portugal, andam muitos a ganhar dinheiro com informação privilegiada.

2007/02/15

Ainda Chávez

Em boa hora lembrou a Sandra nos comentários ao artigo anterior o processo que sancionou o comediante venuzuelano Laureano Márquez e o jornal onde escreve a uma multa de 18600 dólares, por alegadamente na sua rubrica ter "violado a honra, a reputação e a vida privada" da filha mais nova de Hugo Chávez, Rosinés Chavez, de 9 anos.

Para que cada um possa tirar melhor as suas ilações, está aqui disponível a reprodução do texto original:

QUERIDA ROSINÉS:

¿Cómo estás? Espero que bien y con la posibilidad de disfrutar de televisión con cable para poder ver algunas comiquitas. Te sugiero las de Boomerang, que si no nos hicieron daño a nosotros (¡creo yo!), tampoco les harán a ustedes. El oso Yogui, la pantera rosa, la hormiga atómica, Simbad, Shazzan, etc. No te recomiendo Los Picapiedras, porque a lo mejor a tu papá no le gustan, porque presentan el modelo capitalista como algo natural y propio del hombre que existía incluso desde las cavernas.

Supe de tus preocupaciones por el caballo del Escudo Nacional mirando hacia atrás. Coincido plenamente contigo. Todos los escudos tienen leones rampantes (Cuando se paran en las dos paticas de atrás), águilas, caballos, pero ninguno tiene un Golden Retriever, por ejemplo. Con lo nobles que son esos animales. Yo le pondría al escudo un Golden con un palito en la boca a los pies del amo. O una morrocoya, como la que tú tienes; un buen emblema de nuestra lentitud para todo. En todo caso, si le vamos a dejar un caballo, que sea uno de la Rinconada, con su numerito, jinete y todo. Porque si algo nos identifica, es el azar y las apuestas.

Notícias de um futuro radioso em construção

Venezuela's President Hugo Chavez has threatened to nationalise stores that sell meat above a government-set price.

The government says supermarkets have been artificially boosting prices of basic foods by manipulating stockpiles.

But critics blame regular food shortages on prices imposed four years ago, forcing shops to sell at a loss.

[...]

"If they insist on violating the interests of the people, the constitution and laws, I will take away the warehouses, the shops, I will take away the supermarkets and I'll nationalise them," he warned.

[...]

Some private companies are also concerned about President Chavez's intention to make them allow their employees time during the working day to study socialism.

BBC News.
A luta continua, em direcção à abundância cubana.

Contagem para a extinção

Itens da curta agenda justificativa da malta dependente das causas fracturantes:

  • Aborto
  • Casamento homossexual x
  • Drogas x
  • Eutanásia x

Este também não gosta lá muito das coisas que passam na TV

(...)se o nosso inimigo tem o direito de lobotomizar as nossas crianças através dos programas malignos de TV, passando pelos manuais escolares, onde apregoa-se o multiculturalismo, a homosexualidade, entre outros, (...)

Mário Machado (numa entrevista a um blog de inspiração nacional socialista)

No fundo, o artista é um bom artista.

Não pretendendo desdenhar do grande kilapy do Zézé Gamboa, e em face da mais recente investida do Grande Cobrador de Impostos, aconselhando todos os portugueses de bem a cumprir o desígnio moral de pedir facturas, muitas facturas, com muita moral, muita ética, muito sentido de responsabilidade, e profusamente imbuído deste nobre espírito, decidi realizar uma operação de aritmética simples (inspirada nesta notícia), de modo a poder informar os portugueses dos seguinte:

1. Supondo que 80 mil indígenas vão comprar o seu bilhete para assistir ao filme supra, torna-se necessário que os mesmos consigam um total de 2 milhões e 600 mil euros de facturas de restaurante (por exemplo), à módica proporção de 5,6 euros por cabeça de imposto cobrado.

2. Supondo que o bilhete ronde os 5 euros, e que o nível de persuasão seja alto, talvez consigam assistir à sessão de borla, com oferta de cafézinho incluída.

3. O estado português queixa-se frequentemente que algumas empresas off-shore promovem a circulação de dinheiro sem qualquer controlo.

É só mais um jeitinho

Depois de Roberto Carneiro, depois da PGA, depois do "não pagamos", depois de Ana Benavente, depois do eduquês, depois da "paixão pela educação", depois da tlebs, ainda há portugueses que acreditam que "isto vai lá com mais um incentivo".

E não um qualquer Zé, com quem Durão Barroso se cruzava amiúde. É um dos 100 maiores. E actual locatário das nossas insígnias.

2007/02/14

Ironias

Daniel Oliveira defende que deveria ter havido censura prévia a um documentário sobre Salazar.

Senão até era gajo pra fornecer stock de papel higiénico

Carmona Rodrigues planeia oferecer um seguro de saúde às crianças nativas e residentes na capital.

Ainda bem que a maioria dos presidentes de câmara do país já não é comunista.

Um assunto dado a radicalismos

A lêr com atenção este post de despedida da blogosfera, e não só, do Paulo Cunha Porto. (via Dolo Eventual)

A despenalização do aborto é um assunto dado a radicalismos. De um lado os que acreditam que o feto já é vida humana, para quem a despenalização é uma espécie de carta branca para homicídios selectivos e cobardes. Do outro lado quem não considera o feto como vida humana, para quem a penalização do aborto é uma intromissão inadmissível na privacidade da mulher. Durante a campanha ninguém procurou entender o adversário, talvez seja o momento de o fazer.

Diz que é uma espécie de derrota do calculismo político



Na minha avaliação, um dos principais derrotados (e senão o principal derrotado) da noite do referendo foi sem dúvida Marcelo Segolène Rebelo de Sousa, e com ele, toda uma escola de calculismo e de modo de fazer política em Portugal. Marcelo sempre proclamou a conquista do "centro" e do meio termo como forma de vencer disputas eleitorais em Portugal. Ele próprio, em cada intervenção e sessão dominical, aponta cuidadosamente, cuidando de não se desviar muito do rumo central e descambar para um dos lados. É aliás, nessa maneira maquiavélica de construir um discurso político, o principal paradigma da nossa praça. Cada intervenção é um exercício de malabarismo, de pequenas afrontas e de pequenas seduções na medida q.b. que levem a água ao seu moinho.

A sua participação na campanha do referendo foi portanto completamente paradigmática mas, quanto a mim, marcou uma queda que terá colocado em grande risco as eventuais (muitas) futuras ambições políticas do Professor.

Como proponente histórico do referendo, Marcelo optou por entrar na campanha com a força toda. Experiente no discurso mediático, tentou aproveitar o seu élan, reconstruindo à sua maneira as velhas "Conversas em Família". A receita estava toda lá: o discurso mediático, mistura de autoridade e de proximidade, as novas tecnologias e meios de difusão, qual esquerda progressista, e a opção pela defesa da tese do "meio", a peregrina defesa do "crime sem castigo" e do julgamento Kafkiano como meio de conciliar a banda dos indecisos que não queriam ver presas as mulheres que praticassem o aborto, assim como as franjas menos radicais de ambos os movimentos do Não e do Sim.

O problema é que a estratégia confirmou-se como uma catástrofe. O sketch demolidor do Gato Fedorento veio por a nu a completa inconsistência e oportunismo do discurso que, mesmo não sendo um seu exclusivo, passou a estar associado à sua cara. De uma penada, o rótulo de hipócrita e de oportunista passou a ser relativamente unânime nos discursos quer do lado do Não, quer do lado do Sim, os primeiros por se sentirem enganados por uma colagem de semelhante discurso ao lado do Não, os segundos por sentirem que estavam a ser alvos de uma espécie de OPA do statu quo. Ou seja, foi granjeado o unanimismo, mas do antagonismo.

Sinceramente, não sei plenamente quais serão as repercursões do que aconteceu no futuro. Afinal, o povo e os eleitores portuguese já demonstraram várias vezes que têm memória curta. Mas não sei se o Prof. Marcelo, depois desta, irá muito longe.

home movies que, se calhar, às vezes era melhor deixar na gaveta. Conjuntamente com algumas opiniões.

Verdade democrática para Mário Soares já!



Ou como a história consegue ser mesmo muito irónica.

Momentos humorísticos do mundo do sindicalismo

A union convenor who urged a nationwide boycott of Peugeot cars in a bid to save the Ryton production plant has admitted he now drives a new Peugeot.

[...]

He was a principal voice in the union's £1m advertising campaign that called for the boycott of the French company's cars last June.

[...]

But he told BBC News that he had done nothing to be ashamed of and was proud to be driving one of the last models to built at Ryton.

He said: "We were urging people to boycott Peugeot cars not 206s specifically."

BBC News.

Segredo de Justiça e presunção de inocência

A man suspected of downloading child pornography was found dead by a railway track hours after he featured in a television appeal, police confirmed.

Mark Ross was found dead at Aldwarke Junction, Rotherham, South Yorkshire, in the early hours of 8 February.

The night before he was named on the BBC's Crimewatch programme over downloaded child pornography.

BBC News.

2007/02/13

Pergunta do dia

Será o CAA o Freitas do Amaral do Blasfémias?

sim-aristides.blogspot.com

Esta malta do bloco não pára. Depois do aborto, mais uma causa fracturante para a sociedade portuguesa.

2007/02/12

Declaração de voto

Não acredito na liberdade sem sentido de responsabilidade.
Não acredito na prática sexual sem noção dos seus efeitos secundários.
Não acredito nas liberdades negativas da barriga de aluguer, sem liberdades negativas do feto arrendatário.
Não acredito em liberalismo idealista, pois a liberdade adequa-se frequentemente ao espírito e ao desenvolvimento dominante.
Não acredito em medidas liberais regulamentadas e aplicadas por pensamentos socialistas.

Estes motivos que me fazem concordar mais com o não, acabaram por me levar a votar mais no sim.

JLP - tu é que tinhas razão

Estas notícias, para qualquer observador informado e não biased, correm o risco, actualmente, de serem tomadas como bastante credíveis.

Torna-se doloroso confirmar (sendo o small-ponta-de-lança-pró-americano-brother) que o estado actual de indigência e fanatismo da actual administração EUA, leva a que seres hipoteticamente moderados (logo, franceses estão excluídos) equacionem com seriedade e com respeito as estratégias de crescimento e desenvolvimento de países relativamente irrelevantes, para mais, dirigidos por crápulas e mentecaptos.

Relembrando a recente entrevista panfletária do Presidente Jorge W Arbusto ao 60' (essa excelência de contéudos...), apetece dizer que, de mentira em mentira, até à vitória final, ?estaremos? à beira de considerar as revoluções económicas chinesa e indiana (e os paises daí resultantes) como os barómetros de desenvolvimento, sustentabilidade e organização da espécie (da Europa, apenas se pode esperar boçalidade e moralismo).

Deus nos abençõe. Ou, como diria Jon Stewart, toda a gente mereçe uma sétima oportunidade.

Perguntas a fazer rapidamente ao Engº Sócrates

A realizar-se um referendo sobre a Constituição Europeia (como prometido, e se esta por artes mágicas regressar da tumba) e vencendo o Não, mas sem se atingir como no caso deste referendo os 50% de participação, esse Não também não será "juridicamente vinculativo", mas será do mesmo modo "politicamente vinculativo"?

E se a abstenção for ainda maior?

Boa imprensa

O PS e engº Sócrates sempre demonstraram cautelosa relutência em avançar os pormenores da regulamentação que propunham para a lei que fosse resultado da vitória do Sim no referendo. Afinal, podendo ter um cheque em branco, e havendo tanta gente na disponibilidade de acriticamente o fazer, por que dizer mais?

A coisa foi gerida na perspectiva do "depois se veria", que era preciso "discussão", "consensos" e que o problema não era "trivial".

Sem dúvida, há que reconhecer, a estratégia foi boa. Afinal, demonstrou ser apelativa aos ouvidos de quem interessava.

Mas, da minha parte, tenho alguma curiosidade em saber porque foi tão complacente a imprensa com esse (estratégico) silêncio. Afinal, o "argumento económico" não passou despercebido, e foi aliás alvo de campanha específica do lado do Não. Porque não demonstrou a seu tempo a imprensa, propalado bastião de isenção, interesse por essa questão, e não questionou aqueles em posição governativa ou com a posição previlegiada de maioria absoluta que detêm, sobre o que pensavam fazer?

Mas mais curioso ainda foi verificar o que aconteceu ontem e hoje, depois de "arrumada" a coisa. Ontem, a primeira pergunta feita ao engº Sócrates após o seu discurso, foi se o SNS estava preparado para "assumir". Hoje, menos de 24 horas depois, já se sabe que vamos seguir, na implementação da legislação, o "modelo alemão". Para quem parecia estar tão a leste dos pormenores da concretização do referendo, parece que a coisa foi rápida. E a imprensa pareceu adaptar-se rapidamente.

(Outras) broncas éticas à espera de acontecer com o aborto livre até às 10 semanas III

O que vai acontecer quando houver uma menor que quiser abortar?

E, se for necessário consentimento dos pais (à semelhança do que acontece no caso das outras intervenções médicas) o que acontecerá se pai e mãe tiverem opiniões diversas?

Conclusão

Aparentemente, a "causa fracturante", o "flagêlo", a "lei medieval", e o fenómeno que aflige "tanta gente de um modo transversal na sociedade", conjugados com a ausência de praia, não conseguem fazer mais do que 26% do nosso eleitorado tirar o rabo de casa para ir votar Sim.

As contas do Prof. Louçã

O Prof. de Economia Francisco Louça, anunciou ontem com incontido gáudio que a vitória do Sim também tinha sido uma vitória dos católicos, que teriam votado em maioria nessa direcção.

Aparentemente, não é só na Economia que o Prof. não sabe fazer contas. Senão vejamos: os dados são que aproximadamente 90% da população portuguesa se afirma como católica. Partindo do princípio que essa distribuição é semelhante nos eleitores, e que estes se repartem uniformemente entre o Não e o Sim, isso quererá dizer que a única conclusão com sustentação estatística que pode ser anunciada é que 90% das pessoas que votaram Sim são católicas, ou seja, um valor correspondente a aproximadamente 23% do eleitorado. O que, partindo da condição prévia de que 90% do eleitorado será católico, não me parece assim grande maioria.

Mas, mais curioso foi o tom de vendetta adoptado. Curioso principalmente porque é o mesmo BE um dos que critica a possibilidade de a ICAR utilizar da sua liberdade de associação, e os seus membros da sua liberdade de expressão para intervir em pé de igualdade na disputa da campanha, e que sustenta uma lei atentatória das liberdades individuais que torna os sacerdotes religiosos cidadãos de segunda.

Ou seja, Louçã arroga-se de uma vitória sobre um oponente ao qual nem sequer concede uma igualdade de armas nem de condições à partida.

Mas mais caricato será ainda o verificar que é afinal um dos principais focos de intolerância para com a intervenção cívica das religiões na sociedade, vestido no robe sempre conveniente da laicidade e da separação do estado e da religião (principios sem dúvida louváveis) a precisar de recorrer à muleta religiosa para conferir conteúdo à sua vitória.

A vanguarda da entrada no século XXI

Aparentemente localiza-se em Alcácer do Sal, Grândola e Aljustrel, os 3 concelhos portugueses com maior percentagem de votantes no Sim.

O João César das Neves avisou...

O SIM ganhou ontem. Hoje a terra tremeu em Lisboa.... A seguir vêm os gafanhotos.

2007/02/11

Na barriga das mulheres, mandam elas (até às 10 semanas)

Veremos quem mandará nas mãos dos médicos.

Opinião pessoal

A campanha do SIM não esclareceu, não informou, não mobilizou, foi irrelevante para o desfecho final. A campanha do NÃO não esclareceu, desinformou, mas teve o mérito de conseguir mobilizar mais de um milhão de pessoas. Felizmente, entre esses, a maioria votou SIM.

A importância de uma campanha equilibrada

Entre os 1,2 milhões de eleitores a mais neste referendo em relação ao de 1998, 80% votaram SIM.

25% + 1

O SIM foi a escolha de 25,34% de todos os eleitores recenseados. O resultado é vinculativo politica e moralmente, e só não o é juridicamente porque temos legisladores imbecis.

2007/02/09

Isto é que é gente jovem com olho para os verdadeiros inimigos da Liberdade e vontade de resolver os problemas

[A] única explicação, ou pelo menos a explicação última das coisas que escrevo é ser um Liberal-Social sendo portanto contra a direita conservadora e a esquerda estranguladora da economia de mercado, mas mais do que isso sou contra o Neo-liberalismo e Liberalismo Clássico.

Comentário de André Escórcio, no Speakers Corner Liberal Social.

As OPA em Portugal são demasiado previsíveis



Ou então não... Em breve ficaremos a saber.

A lêr... depois do referendo

Será fácil imaginar o que aconteceria se, a meio de um jogo de futebol entre duas grandes equipas, uma pessoa se dirigisse às claques tentando explicar todos os fenómenos sociológicos e económicos envolvidos naquele jogo e no desporto em geral, as consequências laterais do resultado final, os objectivos pessoais de cada um dos jogadores, o facto do último golo ter sido ilegal... Provavelmente seria ignorado. Se insistisse muito em ser ouvido, as consequências seriam bem piores. Para as claques, a meio do jogo só interessa a contagem de golos. Há um inimigo a abater, e todos os que não gritam como eles, estão certamente contra eles.
Nesta campanha, o João Miranda e o Pedro Arroja, por sadismo ou puro espírito provocador, fizeram o papel dessa pessoa. As claques reagiram como se esperava (e os dois lá beneficiaram de não poder haver contacto físico na blogosfera).

A lêr... depois do referendo.

Título difícil de disputar


Most. Ridiculous. Ad. Ever, via Personal Bytes
.

2007/02/08

Lei do Condicionamento Industrial

O Governo já escolheu as seis empresas produtoras de biocombustíveis que vão beneficiar de isenção do imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) em 2007 e que são responsáveis pela produção de 205 mil toneladas do combustível.

De acordo com uma nota da Direcção-Geral de Geologia e Energia, as empresas eleitas são a Biomart, a Torrejana, a Tagol, a Biovegetal, a Iberol e a SBN.

A Iberol terá uma isenção maior (72,8 mil toneladas) enquanto a SBN terá a isenção mais reduzida (3,2 mil toneladas).

Público Última Hora, com negritos meus.

A Boa Nova que vem dos países com a Boa Lei®

Heavy Christmas drinking and partying, leading to unprotected sex, could be to blame for a record number of abortions last month, says a UK charity.

A total of 5,992 abortions were carried out at Marie Stopes International's nine UK clinics in January - a rise of 13% on the 5,304 in January 2005.

[...]

According to Department of Health statistics, a total of 186,400 abortions were carried out in England and Wales in 2005.

A total of 84% of these were funded by the NHS and over half of these were performed under contract in the independent sector by clinics such as those run by Marie Stopes and BPAS.

BBC News, com negritos meus.

Caricaturas



Em relação ao julgamento em curso em França (ela própria cada vez mais uma caricatura) do jornal que publicou as famosas caricaturas dinamarquesas de Maomé, acho muito bem que os responsáveis da públicação respondam por injúrias e por danos não patrimoniais.

Desde que seja Maomé a ir defender a sua posição de ofendido a esse mesmo tribunal.

2007/02/07

Já que falas nisso,

caríssimo Carlos Pinto, deixa-me ser muito frontal, e dizer-te que ando há longo tempo com um certo mal entendido em relação à tua pessoa:

Estás embrenhado num certa ideia de futebolismo amiguista, nomeadamente em relação a um determinado emblema, encimado por uma ave de rapina, cujos contornos me tem causado alguns enjoos, que, contudo, não me impedem de a debater contigo, neste aspecto particular em que discordas tão veementemente de mim (ou, no mínimo, não me subscreverás).

No entanto, caso pretendas continuar a usufruir da minha companhia "nos copos", vais ter de fazer o obséquio de, na próxima oportunidade, me presenteares com uma francesinha especial, no sítio do costume (aliás, devo dizer que me dá náuseas que alguém possa não gostar de tamanho petisco).

P.S.: Na hipótese remota de o texto supra não ser devidamente interpretado, informo-te antecipadamente que a culpa só poderá ser tua, pois com toda a certeza não terás compreendido o que eu escrevi. Está claro?

Crónica de uma epidemia de esquerda

Jornal Nacional, TVI, há seis meses a esta data: Gripe das aves poderá infectar um terço da população mundial.

Jornal nacional, TVI, sexta passada: Detectado foco de infecção de gripe das aves numa quinta de criação de perus na Inglaterra.

Jornal Nacional, TVI, sábado passado: Muitos dos trabalhadores da quinta onde foi detectado o H5N1 são portugueses.

Jornal Nacional, TVI, domingo passado: Trabalhadores portugueses na Inglaterra em risco de perder o emprego.

Jornal Nacional, TVI, segunda passada: Trabalhadores portugueses na Inglaterra recebem o triplo do salário para fazer as limpezas necessárias na quinta onde foi detectado o foco de gripe das aves. Os portugueses estão a receber tratamento com Tamiflu [entrevistas com os trabalhadores portugueses, felizes da vida pela oportunidade de embolsar um extra].

Jornal Nacional, TVI, ontem à noite: Trabalhadores portugueses na Inglaterra entre a espada e a parede: com os seus postos de trabalho em risco, os trabalhadores portugueses da quinta onde foi detectado o foco da gripe das aves foram aliciados com um aumento para o triplo do seu salário e três dias de descanso, sem terem sido informados do trabalho que iam desempenhar.

Mais alguém vem a notar a progressiva alienação esquerdizante das notícias, particularmente as da TVI [a análise de outros elementos da grelha de programação, como as telenovelas, a esta luz daria para vinte posts, mas está prometida]? No desenvolvimento destas últimas headlines, os três jornalistas da TVI (dois no estúdio e o correspondente no local) tudo fizeram para manipular a informação objectiva que lhes ia sendo fornecida, inclusivamente as respostas dadas nas entrevistas pelos supostos «explorados». Nas entrelinhas, conseguia compreender-se que os trabalhadores efectivamente foram chamados pelo telefone para trabalhar extraordinariamente, com uma contrapartida financeira correspondente ao dobro e em alguns casos ao triplo do salário, sem mais explicações, mas que na reunião presencial que se seguiu lhes foi convenientemente explicada a tarefa que iam desempenhar e os riscos envolvidos, bem como a forma de os prevenir. Percebeu-se ainda que o «risco» em que estavam os postos de trabalho, ao contrário do que os jornalistas faziam por dar a entender, advinha não de uma eventual recusa em correr os riscos de saúde associados ao trabalho, mas da situação de crise em que a exploração se encontrava. Finalmente, ficou provado à exaustão que no uso do seu livre arbítrio aqueles trabalhadores levaram a cabo uma ponderação de custo/benefício que, claramente, os levou a aceitar a proposta da empresa. Ah, e o único de entre estes pobres explorados que revelou o que fez com o dinheiro extra… comprou uma consola de jogos!

[Nota: As frases acima não reproduzem textualmente as notícias da TVI. Todavia, asseguro que o conteúdo não anda muito longe da letra, e muito menos do espírito...]

Esta é que é de certeza uma não-bandida presumida inocente

(Outras) broncas éticas à espera de acontecer com o aborto livre até às 10 semanas II

Meeting with Stephen, Aaron tells him that all the tests have been done and the tissue match looks good. It will take a day to harvest the fetus but he’s ready. Stephen asks how the transplant actually works, and Aaron outlines the process, “We inject the fetal brain cells directly into your brain and then the new cells start producing dopamine which is the chemical that controls motor control.
Os bébés-medicamento (via O Insurgente).

(Outras) broncas éticas à espera de acontecer com o aborto livre até às 10 semanas I


O aborto como técnica de escolha de género.

À atenção do Luís Lavoura

Hoje há inúmeras empresas de cobranças a actuar no mercado, algumas de dimensão considerável, que normalmente trabalham para grandes empresas ou instituições financeiras, e outras mais pequenas, que normalmente se dedicam à cobranças de dívidas entre particulares. A abordagem dos dois tipos de empresas tem gerado queixas, que no primeiro caso inclui muita pressão psicológica e, especialmente nas mais pequenas, chega a incluir ameaças e violência física.

O novo cobrador do fraque actua fundamentalmente via telefone e carta, com mensagens muito pouco simpáticas, muitas vezes para vizinhos, familiares e até entidades patronais, e através de visitas pessoais.

Nas visitas pessoais, o mais habitual é ver pessoas de fato e gravata, senhoras de salto alto ou homens musculados. Há ainda situações de deslocações em carros com identificação de empresa de cobranças, que é estacionado estrategicamente em frente à residência ou à saída do emprego.

Público Última Hora.
Demitindo-se o estado das suas obrigações de zelar por um Estado de Direito, que inclui o fazer por cumprir a lei também no que toca às dívidas (maiores ou menores), de uma coisa se pode ter a certeza: demitindo-se este da sua função, ocupa-se o mercado de resolver o problema.

Depois não digam é que nós é quer somos os que defendemos o funcionamento livre do mercado antes de do Estado de Direito.

Confusões

A crítica do Willespie enferma, quanto a mim, de várias confusões. Tendo sido este blog visado directamente, proponho-me contribuir para um eventual esclarecimento:

Primeira: Este blog não é um blog "libertário". Aliás, como julgo que não o serão a grande maioria dos outros que elenca. Em primeiro lugar, porque não há sequer uma opinião única e transversal aos seus membros, e porque, mesmo tirando uma dominante, essa será sim a do Liberalismo, e não aquilo que refere como "Libertarianismo". Cada pessoa aqui pensa com a sua própria cabeça e tem pouca vontade de aderir a estereótipos ou sofrer de clubismo, como se poderá discernir pelas sucessivas posições divergentes entre os seus membros, e as sistemáticas trocas de argumentos. Gostamos e favorecemos o pluralismo de opiniões, e não alinhamos pelo pensamento único.

Segunda:A utilização que o Willespie faz do termo "Libertarianismo" está, quanto a mim, equivocada. O Libertarianismo, termo em grande parte cunhado para diferenciar o que geralmente se rotula como "Liberalismo Clássico" da apropriação feita do termo "Liberalismo" pelo Partido Democrata americano (e que historicamente o precede), não se enquadra na descrição que posteriormente faz das falhas desse "suposto Libertarianismo". Presumo que aquilo a que se esteja a referir, descrevendo a defesa da inexistência de um estado organizado mas a preservação da propriedade e da liberdade individual, será sim aquilo que se chama Anarco-Capitalismo, e não Liberalismo Clássico. Contudo, das várias tomadas de posição aqui na casa, não me parece (corrijam-me) que haja alguém que o suporte ou defenda.

Não me parece que ninguém aqui defenda que o estado não deve existir, e que não deve assegurar as competências clássicas de um estado mínimo, nomeadamente no âmbito da Justiça, da Segurança e Defesa, e dos Negócios Estrangeiros. Que o direito criminal e constitucional não devem ser um monopólio do estado, e que este não terá responsabilidades de supervisão e de gestão do domínio público.

Como vé, a sua tese de "coesão social", que não é mais quanto a mim do que a manutenção do Estado de Direito, é um ponto defendido pela generalidade dos Liberais Clássicos, Minarquistas, Objectivistas e outros "flavours" de Liberalismo. Quanto ao Anarco-Capitalismo, não me caberá a mim a sua defesa, naturalmente. O que não inviabiliza que não reconheça mérito e coerência em algumas das suas posições, e que ache que faz parte da família alargada do Liberalismo.

Terceira:A perspectiva de que a Rússia pós-queda do império Soviético é algo minimamente parecido com um balão-de-ensaio de Liberalismo Clássico é, quanto a mim, um abuso e uma tentativa de confundir as coisas. Uma coisa é a diminuição do estado, outra coisa é a sistemática falência moral e constitutiva das suas instituições. Na Russia não passou a haver menos estado. O que sucedeu foi que toda a infrastrutura deste colapsou, mantendo-se todos os intraves burocráticos, institucionais e de corrupção que lhe presidiam. O que instalou foi uma plutocracia que faz a gestão dos activos que "herdou" do estado Soviético, e que mantém uma mão de ferro na "gestão" das "liberdades e garantias".

Não há a mínima noção de Liberdade na Russia. Mesmo inculcada na personalidade dos seus cidadãos. Não há liberdade de imprensa, de expressão, nem a mínima noção de um julgamento justo, de privacidade ou de travão do estado. Existe uma ilha de plutocratas rodeada por uma selva de anarquia, próxima de um estado de natureza hobbesiano.

Confundir este statu quo com algo de sequer remotamente próximo de qualquer forma de Liberalismo, só se for num exercício tortuoso de humor.

Quarta:Os Estados Unidos não são um ideal de Liberalismo. Serão, sem dúvida, um bom exemplo de boas práticas a seguir, como nos pressupostos que presidiram à elaboração da sua Constituição, ou em vários exemplos de gestão e de defesa das liberdades em diversas áreas (muito mais por mérito do seu povo do que do seu "estado"). Mas são também o estado do "big spend" (basta olhar para a última proposta de orçamento), com uma presença demasiado omnipresente (passo o pleunasmo) e com laivos progressivos de limitação e perversão das liberdades que não podem agradar a nenhum liberal. Mas que são, apesar de tudo, pálidos face aos que se faz do lado de cá do Atlântico e, principalmente, são um exemplo de um povo com relutância em se deixar espezinhar e privar de algo que acha precioso.

"A saúde pública por exemplo, é considerada por todos os estados democráticos do mundo ocidental, excepto uma, como uma responsabilidade social. Para além de ser em termos económicos, senso comum. Qualquer escola de economia prega que a melhor forma de minimizar o risco humano, passa por criar o maior bolo possível de risco partilhado. Por isso mesmo que todos partilhamos os custos de protecção policial, bombeiros municipais e defesa nacional. O mesmo princípio aplica-se perfeitamente ao sistema de saúde."

Quinta:Pessoalmente, não acho que a existência de uma safety net, concretamente debaixo dessa perspectiva de "minimização do risco humano", seja incompatível com o pensamento liberal e com o Liberalismo Clássico. Eu próprio defendo uma iniciativa desse género, sustentada num contrato social espontâneo que compreenda e sustente essa decisão. Assim como reconheço os argumentos dos que defendem que tal não deverá existir, e que será o conjunto dos indivíduos a zelar por essa tarefa por sua iniciativa. Agora, curiosa é a afirmação seguinte:

"Nos EUA os que discordam com isto, têm na mesma que fazer face à ironia do sistema actual, em que qualquer cidadão tem acesso aos serviços básicos de emergência em hospitais, enquanto podem não estar a contribuir sequer um cêntimo de impostos dos seus rendimentos para tal."

E são esses exactamente os cuidados que fazem sentido ser prestados pelo estado: os que asseguram a integridade física do indivíduo, quaisquer que sejam os seus rendimentos. Sublinho, a sua integridade física. Não há nada de irónico aqui. Os outros, os que prefiram pagar para ter um tratamento diferenciado ou pretendam cuidados para além desse mínimo, terão que procurar a devida resposta no mercado de cuidados de Saúde.

Sexta (nota de rodapé):Folgo em saber que John Stuart Mill tem uma legião tão grande de seguidores no nosso país. Pessoalmente, reconheço o seu mérito e o seu contributo para o Liberalismo.

O problema é que a generalidade dos seus seguidores fazem um cocktail perigoso de utilitarismo com relativismo moral, distorcendo (quanto a mim irremediavelmente) a herança do senhor.

A perspectiva de maximização das liberdades individuais que enuncia é interessante e apelativa. O problema é quando se confere ao estado o direito de ser um avaliador exterior com poder de intervir no sentido de definir e equilibrar os tradeoffs que surgem entre liberdades individuais, em prol da maximização do "bem comum". A questão é que Stuart Mill não era relativista. Defendia a existência de direitos e de liberdade que não estavam sujeitas ao escrutínio e ao "equilíbrio" do estado e que eram, por definição, invioláveis. Quando tudo se torna "negociável" e quando a regra para a determinação do compromisso é a democracia, não é difícil de antever o cenário para que se caminha, e que o próprio antecipou. O problema é que muitos desses adeptos portugueses fazem uma leitura enviesada e limitada do conceito do utilitarismo, tornando-o numa espécie de plebescito permanente do caminho por onde se deve caminhar para que todos "fiquem satisfeitos".

Espero que o caro Willespie não seja mais um.

2007/02/06

Respostas ao desafio - final

Responderam ao desafio lançado 13 pessoas do lado do SIM: a Sandra e o Zé, cá da casa; 2 anónimos; o Miguel Madeira do Vento Sueste; o Tiago Mendes do Logicamente Sim; o Luís Pedro do Rabbit's Blog; o Ricardo Alves do Esquerda Republicana;o Pedro de O Parcial; o Willespie de Willespie - Um Liberal Democrata e Otto Costa e o Lourenço de Complexidade e Contradição. Do lado do NÃO, 8 pessoas: o JLP, o Mentat, Miranda, o Gabriel do Blasfémias, kota do Deixem-me Falar, o Hélder Sanches e o Filipe Sousa.

Notas rápidas:

  1. A resposta com a qual me idenfico mais é a do Tiago Mendes. Aliás, do que tenho lido no seu blog só discordei, e muito, de dois posts (um dos quais é este, do outro irei falar mais tarde).
  2. Se o referendo é realmente apenas sobre a despenalização do aborto, a maioria dos que dizem defender o NÃO, andam enganados.
  3. A posição mais coerente, quer nos SIM quer nos NÃO, é a do Gabriel.
  4. Alguns defensores do SIM e do NÃO têm opiniões sobre este assunto mais próximas dos que se encontram no lado oposto do que no seu.
  5. Esta é a pior altura possível para falar de aborto.
O meu agradecimento a todos os que responderam ao desafio (o prometido é devido, Tiago), e as minhas desculpas se me escapou alguém.

Prós & Contras III

Vencedor da noite: a abstenção (e o cansaço).

Com tantas contradições, argumentos desesperados e meter dos pés pelas mãos como o que se viu de parte a parte, se calhar era tempo de mandar as pessoas reflectir com calma e sem lavagens cerebrais.

Se houve derrotados por esta sequela peregrina do Prós & Contras, foram acima de tudo os movimentos e partidos organizados do Sim e do Não, que preferiram voltar à arena e ao circo para pôr as questiúnculas e as guerrinhas em pratos limpos e que acabaram, à falta de se conseguir naturalmente após tanta discussão e campanha arranjar O argumento decisivo, por danificar as suas posicões num estilo de argumentação que cada vez mais vai convergindo no "porque sim" (ou não).

P.S. - Os senhores da TVI continuam em grande estilo a borrifarem-se para os seus telespectadores. Hoje tivemos, à revelia de qualquer coisa parecida com uma grelha ou uma programação, Dr. House e Nip | Tuck. Depois admirem-se.

Prós & Contras II

Rui Pereira, em réplica à questão levantada de ter sido removida da proposta de lei original do PS a obrigatoriedade do aconselhamento e acompanhamento, sendo que na proposta actualmente apresentada esta não existe, anunciou, correctamente, que não é essa proposta que está em referendo e que, aliás, é inconstitucional referendar leis.

Mas é curioso que, por mero acaso, se encontre à boca do parlamento uma proposta de lei subscrita pelo principal proponente do referendo, também principal partido que sustenta a posição do Sim nesta campanha, e que até tem uma maioria absoluta que posteriormente lhe permite aprova-la, não é?

Prós & Contras I

Curiosa a posição do Dr. Oliveira e Silva, obstetra a favor do "Sim", expressa no programa. Segundo ele, irá continuar a caber ao médico a última palavra no que toca a julgar as razões apresentadas pela mulher legítimas ou não, suficientes ou não, usando discretamente do seu direito de objecção de consciência para esse efeito.

Concerteza não acompanha as declarações do seu bastonário. É que este já veio a público anunciar que será impiedoso para com quem invoque essa objecção de consciência no serviço público, e posteriormente os faça no privado. Ou seja, subintende-se que esse não será um direito discricionário do médico, mas terá que ser uma opção (única) clarificada e concretizada a anteriori. Anuncia-se até a necessidade do preenchimento de uma declaração (e da manutenção de um registo) sobre qual é a opção de consciência do médico.

Sejamos claros. Decidindo-se no sentido do Sim, não poderá haver uma maneira coerente com a decisão do referendo de a mulher lhe ver negada a sua vontade. Por mais institutos de aconselhamento, por mais perguntas que lhe sejam feitas (se esta optar por responder), não haverá uma maneira legal de impedir que a sua escolha tenha plenas consequências.

2007/02/05

Os fins justificam os meios

A publicação da lista dos devedores da administração fiscal já permitiu ao Estado arrecadar quase 60 milhões de euros em dívidas que estavam por cobrar, anunciou hoje o ministro das Finanças.

Público Última Hora.
Ao que parece orgulhosamente, o ministro das Finanças veio anunciar hoje os primeiros resultados da iniciativa de colocar online a lista dos principais devedores fiscais. Aparentemente, as smear campaigns dão os seus frutos, e os atropelos à privacidade e as tácticas próprias da mais rasca mercearia de bairro dão os seus frutos, contabilizados em mais uns euros para engordar o estado.

Como tal, deixamos uma sugestão ao sr. ministro, que aliás se poderá integrar perfeitamente no espírito ousado até agora demonstrado, e na reconhecida capacidade de inovação do olímpico director-geral da DGCI: a introdução do toque rectal como método indiciário e de averiguação fiscal. Vão ver que é dinheiro em caixa.

Conclusões dominicais

Depois de ver o Prof. Marcelo a torcêr-se e retorcêr-se na sua homilia dominical para defender a sua indefensável tese da suspensão automática de todos os julgamentos de aborto ilegal (numa peregrina visão do funcionamento de um Estado de Direito), depois do seu lapsus linguae que o colocou em lugar cimeiro na disputa do seu primeiro vídeo "Assim, Não" com o Gato Fedorento na categoria de melhor vídeo de comédia online) só podemos, da nossa parte, tirar uma conclusão: é que, sem dúvida, o Professor é melhor católico do que professor de Direito.

Antes tivessem abortado...

A GNR de Coimbra anunciou hoje a detenção de três homens, ontem à tarde, acusados de caça ilegal na Sertã e nos arredores de Castelo Branco.

Um dos homens, de 59 anos, foi detido junto a Castelo Branco por caça ao javali com laços, um meio proibido por lei.

Na Sertã foram detidos dois homens, de 55 e 31 anos, por estarem a caçar sem habilitação legal para o efeito.

Público Última Hora.
Mais uns candidatos ao "fim da humilhação já".

Porque queremos todos diminuír o número de abortos?

Tanto os movimentos do SIM como do NÃO, afirmam que caso vença a sua pretensão o número de abortos (total e não só até às 10 semanas) irá diminuír, e vêem isso como uma coisa boa. Porque é que a diminuição do número de abortos é uma coisa boa?

Situação hipotética

Um grupo de pessoas passeia-se perto de um precipício. A certa altura, a pessoa X desiquilibra-se desequilibra-se, cai e agarra-se à pessoa Y de tal forma que fica dependente dessa para sobreviver. Se a pessoa Y resolver conscientemente largar a pessoa X, deverá ser punida criminalmente por isso?

a) Não, porque a pessoa Y não estava consciente que ao passear pelo precipício lhe poderia acontecer aquilo e, além disso, é dona do seu corpo e deve ser livre de fazer o que quiser com ele.

b) Não, mas apenas se a largar até 10 segundos após ter sido agarrada.

c) Sim, excepto no caso em que por agarrar a pessoa X, a vida da pessoa Y fique em perigo.

d) Sim, excepto se a pessoa Y tiver uma deficiência grave ou fôr mesmo muito feia (certamente não valeria a pena viver nesse caso, provavelmente até se suicidou, coitada...)

e) Sim, em todos os casos.

Parece que está (finalmente) a acabar o "estado de graça"...

O chefe do Governo e os seus acólitos não têm gostado da forma como a comunicação social tem feito a cobertura desta viagem de negócios. Os jornalistas têm sido, umas vezes aberta, outras veladamente, acusados de estarem a estragar esta viagem e de só noticiarem assuntos menores – como a defesa dos salários baixos e os ataques, por parte de um membro de um governo socialista, aos sindicatos, ou a tentar obter declarações sobre Direitos Humanos na China – e de não darem a devida atenção aos muitos contratos e memorandos de entendimento celebrados entre empresas portuguesas e chinesas. A jornalista da rádio pública chegou mesmo a ser acusada, por um assessor, de estar a fazer o jogo do PSD. Houve várias pessoas a ouvi-lo. Terá sido apenas uma brincadeira?

Visão Online, via Corta-Fitas.

E esta, Luís Lavoura?

Luisão sem humilhação já!

Triste porque os juízes não aplicam penas de prisão efectiva às mulheres que abortam, Bagão Félix propõe trabalho comunitário. O julgamento não a exibe o suficiente. Há que ser mais eficaz na humilhação.

Daniel Oliveira, no Arrastão.

2007/02/03

O Luís Lavoura concordará que há fumadores...

...e fumadores





(Imagens indecentemente roubadas ao Dolo Eventual)

P.S.: O Luís Lavoura é um dos comentadores mais interessantes da blogosfera. Os seus comentários são demonstrativos da opinião de um pessoa inteligente após pensar 2 segundos. Não sei o que seria da blogosfera portuguesa sem um comentador "liberal" que defende a limitação do acesso ao crédito, impostos altos sobre o petróleo, que os criadores de gado americanos não deveriam dar rações de milho aos rebanhos para não aumentar o preço das tortilhas no México ou que o aborto é bom porque limita a explosão populacional. O Luís Lavoura diverte e, uma vez por outra, levanta questões interessantes, o que faz dele um dos meus comentadores favoritos.

2007/02/02

Campanha de Solidariedade Circo Cardinali

Luis Lavoura, por favor, continue a comentar os nossos posts!

Choque tecnológico

A ler, Concorrência institucional, no Corta-Fitas:

A coisa prometia vídeos (só lá estão os iniciais, de Sócrates, Mário Lino, Manuel Gaffes Pinho, Teixeira dos Santos e companhia), entrevistas com os protagonistas e outros temas excitantes, como um blogue a emitir "entre 30 de Janeiro e 4 de Fevereiro de 2007", com "comentários e opiniões dos elementos da comitiva oficial ao longo da Visita de Estado à China". Até agora nada, zero, nicles.
Na área do desenvolvimento de software, o desenvolvimento de um produto para demonstrar conceitos e funcionalidades não implementadas chama-se geralmente, na gíria, um fake.

O facto que distancia este site desse conceito é somente um: o de que cumpriu a sua missão e função primordiais em pleno. Apareceu nas notícias.

Os Constâncios do Ambiente

O planeta vai aquecer entre 1,8 e 4 graus Celsius até final do século, o que fará subir o nível dos mares até 58 centímetros e multiplicar as secas e vagas de calor, indicaram hoje especialistas em alterações climáticas.

Estas são as principais conclusões do relatório hoje apresentado em Paris pelos 500 delegados do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas ( IPCC), que aponta para "uma probabilidade muito alta" de que o aquecimento global se deva à actividade humana.

Público Última Hora, com negritos meus.

2007/02/01

Leitura recomendada a uns e a outros...

... aos defensores do Sim como aos defensores do Não, e especialmente aos homens. Li-o por volta dos treze anos, e foi a minha mãe que mo emprestou. A autora ainda era viva, e ainda nem sequer se falava tanto nas controvérsias que lhe marcaram o fim da vida. Releio-o agora, para não me esquecer que atrás da racionalidade dos argumentos ainda vão estar, sempre, pessoas, dotadas de sentimentos e de livre-arbítrio.
Nao é a favor, nem contra: é verdadeiro. Foi publicado em Portugal com o nome «Carta a um menino que não nasceu», pela Arcádia, em Março de 1976.

A contracepção Just-In-Time


RU486, nome histórico do Mifepristone, percursor do aborto químico.

Num estranho consenso entre apoiantes do Não e do Sim no que toca ao próximo referendo, defende-se que ninguém quer o aborto, que este é um "último recurso", uma saída in extremis para uma situação limite. Os apoiantes do Sim demonstram até geralmente uma reacção quase pavloviana à mera sugestão de que o aborto possa ser empregue como método contraceptivo. Porque é "traumático", porque "deixa sequelas", porque "ninguém com juízo o fará".

Para ajudar ao cenário, são acenados cenários dantescos de mulheres amarradas a marquesas, operadas com instrumentos medievais, de raspagens "a frio". Do "dilema". Da "escolha difícil". É este cenário, o do aborto cirúrgico, que é em grande parte anunciado como dissuasor da tentação que possa presidir a utilizar-se o aborto como contraceptivo.

Sejamos sérios.

A perspectiva de que o aborto será feito por métodos cirúrgicos no prazo que os apoiantes do Sim pretendem que este seja livre, é uma farsa que importa desmontar. O aborto, no período até às 10 semanas, será feito essencialmente por meios químicos, ou seja, tomando fármacos em forma de comprimidos. Eventualmente, será seguido por uma consulta de ginecologia e/ou por uma ecografia para que se verifique o seu sucesso e a expulsão completa do feto. Será este o propalado e generalizado "trauma físico" que irá "dissuadir" as mulheres apartir da aprovação da nova lei, caso vença o Sim.

Senão vejamos o panorama nacional da contracepção, desde a generalização do acesso à pílula contraceptiva e ao preservativo, métodos que são aliás acessíveis com comparticipação plena pelos contribuíntes. Mesmo quando, por limitações da Medicina, o risco de se necessitar de recorrer ao aborto cirúrgico era substancialmente maior, tal parece não ter motivado a generalidade dos homens e das mulheres a recorrerem por sua iniciativa à contracepção, quando afinal eram estes os principais afectados pelos previsíveis resultados. De qualquer modo, houve apesar de tudo um grupo dominante que adoptou essa rotina de contracepção, à falta de melhor e mais conveniente para surtir o efeito desejado, e face aos riscos apresentados pelo cenário alternativo, enquanto outros se mantiveram a ignorar a contracepção, e a aceitar consciente ou inconscientemente os seus riscos.

Depois veio a pílula do dia seguinte. Também comparticipada (mas requerendo receita médica), ou acessível em qualquer farmácia (e até, anunciadamente, nos locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica), sem receita médica, por um preço que ronda os 10 euros. Um tremendo sucesso. A venda em formato livre da pílula do dia seguinte tomou rapidamente 90% do mercado de venda do fármaco, e tornou-se num sucesso de vendas a nível europeu. É fácil de presumir, pela própria expressão do volume do mercado do fármaco, que muitas das pessoas que faziam contracepção regular passaram a substituí-la por "contracepção ocasional", desmentindo na prática o carácter de "emergência" que lhe pretendiam conferir. Afinal, pelo progresso da Medicina, o cenário em caso de falha também tinha passado já por ir tomar uns comprimidos a Espanha, ou arranjá-los clandestinamente em Portugal, ou em último caso, recorrer ao aborto cirúrgico, em cenários bem mais plácidos do que dantes. Tudo cenários suficientemente remotos e "soft" para não motivarem a "chatice" e o "trabalho" da regularidade. Apesar disso, alguns continuaram a insistir em ignorar a contracepção, e a aceitarem consciente ou inconscientemente (o argumento da falta de informação não colhe: veja-se a velocidade com que se disseminou a pílula do dia seguinte) as suas previsíveis consequências.

E qual é agora o cenário que se anuncia? Agora, os comprimidos ocasionais de 10 euros, vão ser previsivelmente (cautelosamente e cuidadosamente ninguém desminte em contrário) substituídos, caso haja gravidez, por outros comprimidos (convenientemente ainda mais ocasionais), agora plenamente a expensas do contribuinte, e uma ou outra taxa moderadora. Ou seja, o contribuinte paga as pílulas e preservativos, paga algumas pílulas do dia seguinte, e previsivelmente pagará as pílulas abortivas e os exames médicos associados, tudo com a garantia de rapidez de prestação de serviço para que "encaixe" em dez semanas, enquanto as outras patologias esperam (e às vezes desesperam) pela sua vez.

É este o cenário de "dissuasão" e de "contracepção responsável" que se pretende promover. Aliado ao despontar de um previsível (e compreensível) mercado que se irá constituir para a prestação desse serviço, provável e previsivelmente a custas do SNS. Aos que esperam que sejam estes a promover a "contenção" e a "decisão consciente", contra os seus interesses económicos, bastará ver os exemplos apresentados por fontes (curiosamente) insuspeitas.

Compreende-se o pudor do Não em levantar o assunto. Afinal, não é de bom tom chamar "irresponsáveis" a uma tão significativa fatia do eleitorado, algum que até poderá estar indeciso.

Mas "escolhas"? Abortos que "ninguém quer"? Dilemas?

Quando muito, para muita gente, o dilema que restará será o de tomar os comprimidos com água ou sumo de laranja.

Para ouvir

O debate entre o Daniel Oliveira e César das Neves (aqui).

Marcadores: Boçalidade, Demagogia, Peixeirada

Em estabelecimento de saúde legalmente autorizado II

Se fosse certo que, a ganhar o SIM, os abortos passassem a ser feitos gratuitamente nos hospitais públicos, porque haveriam de estar as clínicas espanholas de abortos a planear a abertura de instalações em Portugal?

Estabelecimento de saúde legalmente autorizado

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado

As mulheres que optarem por abortar fora dos hospitais continuarão a ser presas?

Resposta ao desafio III

Entre os apoiantes do NÃO, a posição de Marcelo R. Sousa, superiormente caricaturada aqui, parece estar em maioria.

À atenção da Direcção de Programas da TVI

Agradeciamos que Vexas. se decidissem em relação ao(s) dia(s) e à(s) hora(s) de exibição da série Nip|Tuck.

Da nossa parte, teriamos todo o gosto em contribuir com a audiência que, presumimos, procuram para o referido programa, e desse modo contribuir para a vossa venda de publicidade, ao invés de ter que recorrer a canais menos claros ou alternativos através dos quais não terão quaisquer benefícios.

Obrigado.

2007/01/31

O Ministério-Público-Sondagem

O Ministério Público do Tribunal da Relação de Coimbra defende a libertação de Luís Gomes, considerando que perdeu "interesse ou utilidade" para a justiça a sua prisão preventiva pelo sequestro da criança de cinco anos que acolhe desde os três meses de idade.

O procurador do Tribunal da Relação de Coimbra refere, num recurso em separado do Ministério Público de Torres Novas, que a prisão preventiva já não se justifica por não existir perigo de fuga ou de continuação de actividade criminosa.

[...]

Luís Gomes está detido preventivamente por se recusar a entregar a criança de cinco anos que lhe foi entregue pela mães aos três meses pela mãe biológica, Aidida Porto, e a revelar o seu paradeiro. No dia 16 de Janeiro, o Tribunal de Torres Novas condenou-o a seis anos de prisão por sequestro agravado da menor.

[...]

O risco de fuga é também desvalorizado pelo procurador, até porque o arguido é "um militar de carreira, inexistindo quaisquer indícios ou sequer alegação de incumprimento de deveres processualmente impostos".

No que respeita ao risco de continuação do crime — o pressuposto em que se baseou o colectivo para ordenar a prisão preventiva, o Ministério Público considera que "nem na pronúncia ou em momento anterior ao início do julgamento, foram esquadrinhados bons fundamentos" para essa decisão.

Público Última Hora (com negritos meus).
Não sou jurista, mas como observador atento do funcionamento do Estado de Direito, parece-me que esta iniciativa do Ministério Público é mais o ceder ao vox pop do que propriamente cumprir para com as suas funções de apuramento da verdade.

Dizer que o comportamente do arguido, condenado em primeira instância (naturalmente sem transitar ainda em julgado e passível de recurso) por sequestro e por já anteriormente ter desrespeitado decisões e ordens da justiça (desrespeito que ainda se mantém), não indicia ou sustenta alegações de violação de deveres processualmente impostos, e além disso que não há risco de continuação do crime quando a criança se encontra ainda em parte incerta e já existe uma decisão de primeira instância que atribui a culpa do facto ao pai, muito para além da "prenúncia ou em momento anterior ao início do julgamento" referidos, parece-me mais navegar ao sabor da apaixonada reacção que o caso tem despertado no público (de maneira mais ou menos informada), do que uma posição de consciência e orientada pela Lei e pelo Direito.

A influência populista e a tentação de dar ao MP um pendor de justiceiro popular, quando este tem deveres de neutralidade e de isenção, e goza de meios e de estatuto que não está ao alcance das outras partes, é um caminho perigoso e repreensível para uma das principais instituições judiciárias. Esperemos que não seja por actos populistas e de "relações públicas" que o MP queira expiar os seus recentes flops e a sua credibilidade enfraquecida aos olhos da opinião pública.

O visionário

O ministro da Economia chamou à atenção dos empresários chineses para o facto de Portugal ter um «custos salariais mais baixos que a média da União Europeia» e de haver uma menor pressão para o aumento destes custos em relação aos países que recentemente entraram na União.

TSF Online.
Um visionário, digo-vos eu, esta cabecinha pensadora que vai, num golpe de génio, vender um Portugal de salários baixos para a China...

Respostas ao desafio II

Pelas respostas dadas até agora pelos apoiantes do SIM, concluo que alguns deles mudariam para o lado do NÃO se o prazo para a realização o aborto fosse alargado. Tal leva-me a concluír que também está em causa neste referendo definir quando é que, juridicamente, se dá início à vida. Repito, a definição da data em que se inicia a vida, ou o direito a ela, será decidida em referendo, por maioria simples. A ideia é, no mínimo, aterradora.