2007/02/08

A Boa Nova que vem dos países com a Boa Lei®

Heavy Christmas drinking and partying, leading to unprotected sex, could be to blame for a record number of abortions last month, says a UK charity.

A total of 5,992 abortions were carried out at Marie Stopes International's nine UK clinics in January - a rise of 13% on the 5,304 in January 2005.

[...]

According to Department of Health statistics, a total of 186,400 abortions were carried out in England and Wales in 2005.

A total of 84% of these were funded by the NHS and over half of these were performed under contract in the independent sector by clinics such as those run by Marie Stopes and BPAS.

BBC News, com negritos meus.

Caricaturas



Em relação ao julgamento em curso em França (ela própria cada vez mais uma caricatura) do jornal que publicou as famosas caricaturas dinamarquesas de Maomé, acho muito bem que os responsáveis da públicação respondam por injúrias e por danos não patrimoniais.

Desde que seja Maomé a ir defender a sua posição de ofendido a esse mesmo tribunal.

2007/02/07

Já que falas nisso,

caríssimo Carlos Pinto, deixa-me ser muito frontal, e dizer-te que ando há longo tempo com um certo mal entendido em relação à tua pessoa:

Estás embrenhado num certa ideia de futebolismo amiguista, nomeadamente em relação a um determinado emblema, encimado por uma ave de rapina, cujos contornos me tem causado alguns enjoos, que, contudo, não me impedem de a debater contigo, neste aspecto particular em que discordas tão veementemente de mim (ou, no mínimo, não me subscreverás).

No entanto, caso pretendas continuar a usufruir da minha companhia "nos copos", vais ter de fazer o obséquio de, na próxima oportunidade, me presenteares com uma francesinha especial, no sítio do costume (aliás, devo dizer que me dá náuseas que alguém possa não gostar de tamanho petisco).

P.S.: Na hipótese remota de o texto supra não ser devidamente interpretado, informo-te antecipadamente que a culpa só poderá ser tua, pois com toda a certeza não terás compreendido o que eu escrevi. Está claro?

Crónica de uma epidemia de esquerda

Jornal Nacional, TVI, há seis meses a esta data: Gripe das aves poderá infectar um terço da população mundial.

Jornal nacional, TVI, sexta passada: Detectado foco de infecção de gripe das aves numa quinta de criação de perus na Inglaterra.

Jornal Nacional, TVI, sábado passado: Muitos dos trabalhadores da quinta onde foi detectado o H5N1 são portugueses.

Jornal Nacional, TVI, domingo passado: Trabalhadores portugueses na Inglaterra em risco de perder o emprego.

Jornal Nacional, TVI, segunda passada: Trabalhadores portugueses na Inglaterra recebem o triplo do salário para fazer as limpezas necessárias na quinta onde foi detectado o foco de gripe das aves. Os portugueses estão a receber tratamento com Tamiflu [entrevistas com os trabalhadores portugueses, felizes da vida pela oportunidade de embolsar um extra].

Jornal Nacional, TVI, ontem à noite: Trabalhadores portugueses na Inglaterra entre a espada e a parede: com os seus postos de trabalho em risco, os trabalhadores portugueses da quinta onde foi detectado o foco da gripe das aves foram aliciados com um aumento para o triplo do seu salário e três dias de descanso, sem terem sido informados do trabalho que iam desempenhar.

Mais alguém vem a notar a progressiva alienação esquerdizante das notícias, particularmente as da TVI [a análise de outros elementos da grelha de programação, como as telenovelas, a esta luz daria para vinte posts, mas está prometida]? No desenvolvimento destas últimas headlines, os três jornalistas da TVI (dois no estúdio e o correspondente no local) tudo fizeram para manipular a informação objectiva que lhes ia sendo fornecida, inclusivamente as respostas dadas nas entrevistas pelos supostos «explorados». Nas entrelinhas, conseguia compreender-se que os trabalhadores efectivamente foram chamados pelo telefone para trabalhar extraordinariamente, com uma contrapartida financeira correspondente ao dobro e em alguns casos ao triplo do salário, sem mais explicações, mas que na reunião presencial que se seguiu lhes foi convenientemente explicada a tarefa que iam desempenhar e os riscos envolvidos, bem como a forma de os prevenir. Percebeu-se ainda que o «risco» em que estavam os postos de trabalho, ao contrário do que os jornalistas faziam por dar a entender, advinha não de uma eventual recusa em correr os riscos de saúde associados ao trabalho, mas da situação de crise em que a exploração se encontrava. Finalmente, ficou provado à exaustão que no uso do seu livre arbítrio aqueles trabalhadores levaram a cabo uma ponderação de custo/benefício que, claramente, os levou a aceitar a proposta da empresa. Ah, e o único de entre estes pobres explorados que revelou o que fez com o dinheiro extra… comprou uma consola de jogos!

[Nota: As frases acima não reproduzem textualmente as notícias da TVI. Todavia, asseguro que o conteúdo não anda muito longe da letra, e muito menos do espírito...]

Esta é que é de certeza uma não-bandida presumida inocente

(Outras) broncas éticas à espera de acontecer com o aborto livre até às 10 semanas II

Meeting with Stephen, Aaron tells him that all the tests have been done and the tissue match looks good. It will take a day to harvest the fetus but he’s ready. Stephen asks how the transplant actually works, and Aaron outlines the process, “We inject the fetal brain cells directly into your brain and then the new cells start producing dopamine which is the chemical that controls motor control.
Os bébés-medicamento (via O Insurgente).

(Outras) broncas éticas à espera de acontecer com o aborto livre até às 10 semanas I


O aborto como técnica de escolha de género.

À atenção do Luís Lavoura

Hoje há inúmeras empresas de cobranças a actuar no mercado, algumas de dimensão considerável, que normalmente trabalham para grandes empresas ou instituições financeiras, e outras mais pequenas, que normalmente se dedicam à cobranças de dívidas entre particulares. A abordagem dos dois tipos de empresas tem gerado queixas, que no primeiro caso inclui muita pressão psicológica e, especialmente nas mais pequenas, chega a incluir ameaças e violência física.

O novo cobrador do fraque actua fundamentalmente via telefone e carta, com mensagens muito pouco simpáticas, muitas vezes para vizinhos, familiares e até entidades patronais, e através de visitas pessoais.

Nas visitas pessoais, o mais habitual é ver pessoas de fato e gravata, senhoras de salto alto ou homens musculados. Há ainda situações de deslocações em carros com identificação de empresa de cobranças, que é estacionado estrategicamente em frente à residência ou à saída do emprego.

Público Última Hora.
Demitindo-se o estado das suas obrigações de zelar por um Estado de Direito, que inclui o fazer por cumprir a lei também no que toca às dívidas (maiores ou menores), de uma coisa se pode ter a certeza: demitindo-se este da sua função, ocupa-se o mercado de resolver o problema.

Depois não digam é que nós é quer somos os que defendemos o funcionamento livre do mercado antes de do Estado de Direito.

Confusões

A crítica do Willespie enferma, quanto a mim, de várias confusões. Tendo sido este blog visado directamente, proponho-me contribuir para um eventual esclarecimento:

Primeira: Este blog não é um blog "libertário". Aliás, como julgo que não o serão a grande maioria dos outros que elenca. Em primeiro lugar, porque não há sequer uma opinião única e transversal aos seus membros, e porque, mesmo tirando uma dominante, essa será sim a do Liberalismo, e não aquilo que refere como "Libertarianismo". Cada pessoa aqui pensa com a sua própria cabeça e tem pouca vontade de aderir a estereótipos ou sofrer de clubismo, como se poderá discernir pelas sucessivas posições divergentes entre os seus membros, e as sistemáticas trocas de argumentos. Gostamos e favorecemos o pluralismo de opiniões, e não alinhamos pelo pensamento único.

Segunda:A utilização que o Willespie faz do termo "Libertarianismo" está, quanto a mim, equivocada. O Libertarianismo, termo em grande parte cunhado para diferenciar o que geralmente se rotula como "Liberalismo Clássico" da apropriação feita do termo "Liberalismo" pelo Partido Democrata americano (e que historicamente o precede), não se enquadra na descrição que posteriormente faz das falhas desse "suposto Libertarianismo". Presumo que aquilo a que se esteja a referir, descrevendo a defesa da inexistência de um estado organizado mas a preservação da propriedade e da liberdade individual, será sim aquilo que se chama Anarco-Capitalismo, e não Liberalismo Clássico. Contudo, das várias tomadas de posição aqui na casa, não me parece (corrijam-me) que haja alguém que o suporte ou defenda.

Não me parece que ninguém aqui defenda que o estado não deve existir, e que não deve assegurar as competências clássicas de um estado mínimo, nomeadamente no âmbito da Justiça, da Segurança e Defesa, e dos Negócios Estrangeiros. Que o direito criminal e constitucional não devem ser um monopólio do estado, e que este não terá responsabilidades de supervisão e de gestão do domínio público.

Como vé, a sua tese de "coesão social", que não é mais quanto a mim do que a manutenção do Estado de Direito, é um ponto defendido pela generalidade dos Liberais Clássicos, Minarquistas, Objectivistas e outros "flavours" de Liberalismo. Quanto ao Anarco-Capitalismo, não me caberá a mim a sua defesa, naturalmente. O que não inviabiliza que não reconheça mérito e coerência em algumas das suas posições, e que ache que faz parte da família alargada do Liberalismo.

Terceira:A perspectiva de que a Rússia pós-queda do império Soviético é algo minimamente parecido com um balão-de-ensaio de Liberalismo Clássico é, quanto a mim, um abuso e uma tentativa de confundir as coisas. Uma coisa é a diminuição do estado, outra coisa é a sistemática falência moral e constitutiva das suas instituições. Na Russia não passou a haver menos estado. O que sucedeu foi que toda a infrastrutura deste colapsou, mantendo-se todos os intraves burocráticos, institucionais e de corrupção que lhe presidiam. O que instalou foi uma plutocracia que faz a gestão dos activos que "herdou" do estado Soviético, e que mantém uma mão de ferro na "gestão" das "liberdades e garantias".

Não há a mínima noção de Liberdade na Russia. Mesmo inculcada na personalidade dos seus cidadãos. Não há liberdade de imprensa, de expressão, nem a mínima noção de um julgamento justo, de privacidade ou de travão do estado. Existe uma ilha de plutocratas rodeada por uma selva de anarquia, próxima de um estado de natureza hobbesiano.

Confundir este statu quo com algo de sequer remotamente próximo de qualquer forma de Liberalismo, só se for num exercício tortuoso de humor.

Quarta:Os Estados Unidos não são um ideal de Liberalismo. Serão, sem dúvida, um bom exemplo de boas práticas a seguir, como nos pressupostos que presidiram à elaboração da sua Constituição, ou em vários exemplos de gestão e de defesa das liberdades em diversas áreas (muito mais por mérito do seu povo do que do seu "estado"). Mas são também o estado do "big spend" (basta olhar para a última proposta de orçamento), com uma presença demasiado omnipresente (passo o pleunasmo) e com laivos progressivos de limitação e perversão das liberdades que não podem agradar a nenhum liberal. Mas que são, apesar de tudo, pálidos face aos que se faz do lado de cá do Atlântico e, principalmente, são um exemplo de um povo com relutância em se deixar espezinhar e privar de algo que acha precioso.

"A saúde pública por exemplo, é considerada por todos os estados democráticos do mundo ocidental, excepto uma, como uma responsabilidade social. Para além de ser em termos económicos, senso comum. Qualquer escola de economia prega que a melhor forma de minimizar o risco humano, passa por criar o maior bolo possível de risco partilhado. Por isso mesmo que todos partilhamos os custos de protecção policial, bombeiros municipais e defesa nacional. O mesmo princípio aplica-se perfeitamente ao sistema de saúde."

Quinta:Pessoalmente, não acho que a existência de uma safety net, concretamente debaixo dessa perspectiva de "minimização do risco humano", seja incompatível com o pensamento liberal e com o Liberalismo Clássico. Eu próprio defendo uma iniciativa desse género, sustentada num contrato social espontâneo que compreenda e sustente essa decisão. Assim como reconheço os argumentos dos que defendem que tal não deverá existir, e que será o conjunto dos indivíduos a zelar por essa tarefa por sua iniciativa. Agora, curiosa é a afirmação seguinte:

"Nos EUA os que discordam com isto, têm na mesma que fazer face à ironia do sistema actual, em que qualquer cidadão tem acesso aos serviços básicos de emergência em hospitais, enquanto podem não estar a contribuir sequer um cêntimo de impostos dos seus rendimentos para tal."

E são esses exactamente os cuidados que fazem sentido ser prestados pelo estado: os que asseguram a integridade física do indivíduo, quaisquer que sejam os seus rendimentos. Sublinho, a sua integridade física. Não há nada de irónico aqui. Os outros, os que prefiram pagar para ter um tratamento diferenciado ou pretendam cuidados para além desse mínimo, terão que procurar a devida resposta no mercado de cuidados de Saúde.

Sexta (nota de rodapé):Folgo em saber que John Stuart Mill tem uma legião tão grande de seguidores no nosso país. Pessoalmente, reconheço o seu mérito e o seu contributo para o Liberalismo.

O problema é que a generalidade dos seus seguidores fazem um cocktail perigoso de utilitarismo com relativismo moral, distorcendo (quanto a mim irremediavelmente) a herança do senhor.

A perspectiva de maximização das liberdades individuais que enuncia é interessante e apelativa. O problema é quando se confere ao estado o direito de ser um avaliador exterior com poder de intervir no sentido de definir e equilibrar os tradeoffs que surgem entre liberdades individuais, em prol da maximização do "bem comum". A questão é que Stuart Mill não era relativista. Defendia a existência de direitos e de liberdade que não estavam sujeitas ao escrutínio e ao "equilíbrio" do estado e que eram, por definição, invioláveis. Quando tudo se torna "negociável" e quando a regra para a determinação do compromisso é a democracia, não é difícil de antever o cenário para que se caminha, e que o próprio antecipou. O problema é que muitos desses adeptos portugueses fazem uma leitura enviesada e limitada do conceito do utilitarismo, tornando-o numa espécie de plebescito permanente do caminho por onde se deve caminhar para que todos "fiquem satisfeitos".

Espero que o caro Willespie não seja mais um.

2007/02/06

Respostas ao desafio - final

Responderam ao desafio lançado 13 pessoas do lado do SIM: a Sandra e o Zé, cá da casa; 2 anónimos; o Miguel Madeira do Vento Sueste; o Tiago Mendes do Logicamente Sim; o Luís Pedro do Rabbit's Blog; o Ricardo Alves do Esquerda Republicana;o Pedro de O Parcial; o Willespie de Willespie - Um Liberal Democrata e Otto Costa e o Lourenço de Complexidade e Contradição. Do lado do NÃO, 8 pessoas: o JLP, o Mentat, Miranda, o Gabriel do Blasfémias, kota do Deixem-me Falar, o Hélder Sanches e o Filipe Sousa.

Notas rápidas:

  1. A resposta com a qual me idenfico mais é a do Tiago Mendes. Aliás, do que tenho lido no seu blog só discordei, e muito, de dois posts (um dos quais é este, do outro irei falar mais tarde).
  2. Se o referendo é realmente apenas sobre a despenalização do aborto, a maioria dos que dizem defender o NÃO, andam enganados.
  3. A posição mais coerente, quer nos SIM quer nos NÃO, é a do Gabriel.
  4. Alguns defensores do SIM e do NÃO têm opiniões sobre este assunto mais próximas dos que se encontram no lado oposto do que no seu.
  5. Esta é a pior altura possível para falar de aborto.
O meu agradecimento a todos os que responderam ao desafio (o prometido é devido, Tiago), e as minhas desculpas se me escapou alguém.

Prós & Contras III

Vencedor da noite: a abstenção (e o cansaço).

Com tantas contradições, argumentos desesperados e meter dos pés pelas mãos como o que se viu de parte a parte, se calhar era tempo de mandar as pessoas reflectir com calma e sem lavagens cerebrais.

Se houve derrotados por esta sequela peregrina do Prós & Contras, foram acima de tudo os movimentos e partidos organizados do Sim e do Não, que preferiram voltar à arena e ao circo para pôr as questiúnculas e as guerrinhas em pratos limpos e que acabaram, à falta de se conseguir naturalmente após tanta discussão e campanha arranjar O argumento decisivo, por danificar as suas posicões num estilo de argumentação que cada vez mais vai convergindo no "porque sim" (ou não).

P.S. - Os senhores da TVI continuam em grande estilo a borrifarem-se para os seus telespectadores. Hoje tivemos, à revelia de qualquer coisa parecida com uma grelha ou uma programação, Dr. House e Nip | Tuck. Depois admirem-se.

Prós & Contras II

Rui Pereira, em réplica à questão levantada de ter sido removida da proposta de lei original do PS a obrigatoriedade do aconselhamento e acompanhamento, sendo que na proposta actualmente apresentada esta não existe, anunciou, correctamente, que não é essa proposta que está em referendo e que, aliás, é inconstitucional referendar leis.

Mas é curioso que, por mero acaso, se encontre à boca do parlamento uma proposta de lei subscrita pelo principal proponente do referendo, também principal partido que sustenta a posição do Sim nesta campanha, e que até tem uma maioria absoluta que posteriormente lhe permite aprova-la, não é?

Prós & Contras I

Curiosa a posição do Dr. Oliveira e Silva, obstetra a favor do "Sim", expressa no programa. Segundo ele, irá continuar a caber ao médico a última palavra no que toca a julgar as razões apresentadas pela mulher legítimas ou não, suficientes ou não, usando discretamente do seu direito de objecção de consciência para esse efeito.

Concerteza não acompanha as declarações do seu bastonário. É que este já veio a público anunciar que será impiedoso para com quem invoque essa objecção de consciência no serviço público, e posteriormente os faça no privado. Ou seja, subintende-se que esse não será um direito discricionário do médico, mas terá que ser uma opção (única) clarificada e concretizada a anteriori. Anuncia-se até a necessidade do preenchimento de uma declaração (e da manutenção de um registo) sobre qual é a opção de consciência do médico.

Sejamos claros. Decidindo-se no sentido do Sim, não poderá haver uma maneira coerente com a decisão do referendo de a mulher lhe ver negada a sua vontade. Por mais institutos de aconselhamento, por mais perguntas que lhe sejam feitas (se esta optar por responder), não haverá uma maneira legal de impedir que a sua escolha tenha plenas consequências.

2007/02/05

Os fins justificam os meios

A publicação da lista dos devedores da administração fiscal já permitiu ao Estado arrecadar quase 60 milhões de euros em dívidas que estavam por cobrar, anunciou hoje o ministro das Finanças.

Público Última Hora.
Ao que parece orgulhosamente, o ministro das Finanças veio anunciar hoje os primeiros resultados da iniciativa de colocar online a lista dos principais devedores fiscais. Aparentemente, as smear campaigns dão os seus frutos, e os atropelos à privacidade e as tácticas próprias da mais rasca mercearia de bairro dão os seus frutos, contabilizados em mais uns euros para engordar o estado.

Como tal, deixamos uma sugestão ao sr. ministro, que aliás se poderá integrar perfeitamente no espírito ousado até agora demonstrado, e na reconhecida capacidade de inovação do olímpico director-geral da DGCI: a introdução do toque rectal como método indiciário e de averiguação fiscal. Vão ver que é dinheiro em caixa.

Conclusões dominicais

Depois de ver o Prof. Marcelo a torcêr-se e retorcêr-se na sua homilia dominical para defender a sua indefensável tese da suspensão automática de todos os julgamentos de aborto ilegal (numa peregrina visão do funcionamento de um Estado de Direito), depois do seu lapsus linguae que o colocou em lugar cimeiro na disputa do seu primeiro vídeo "Assim, Não" com o Gato Fedorento na categoria de melhor vídeo de comédia online) só podemos, da nossa parte, tirar uma conclusão: é que, sem dúvida, o Professor é melhor católico do que professor de Direito.

Antes tivessem abortado...

A GNR de Coimbra anunciou hoje a detenção de três homens, ontem à tarde, acusados de caça ilegal na Sertã e nos arredores de Castelo Branco.

Um dos homens, de 59 anos, foi detido junto a Castelo Branco por caça ao javali com laços, um meio proibido por lei.

Na Sertã foram detidos dois homens, de 55 e 31 anos, por estarem a caçar sem habilitação legal para o efeito.

Público Última Hora.
Mais uns candidatos ao "fim da humilhação já".

Porque queremos todos diminuír o número de abortos?

Tanto os movimentos do SIM como do NÃO, afirmam que caso vença a sua pretensão o número de abortos (total e não só até às 10 semanas) irá diminuír, e vêem isso como uma coisa boa. Porque é que a diminuição do número de abortos é uma coisa boa?

Situação hipotética

Um grupo de pessoas passeia-se perto de um precipício. A certa altura, a pessoa X desiquilibra-se desequilibra-se, cai e agarra-se à pessoa Y de tal forma que fica dependente dessa para sobreviver. Se a pessoa Y resolver conscientemente largar a pessoa X, deverá ser punida criminalmente por isso?

a) Não, porque a pessoa Y não estava consciente que ao passear pelo precipício lhe poderia acontecer aquilo e, além disso, é dona do seu corpo e deve ser livre de fazer o que quiser com ele.

b) Não, mas apenas se a largar até 10 segundos após ter sido agarrada.

c) Sim, excepto no caso em que por agarrar a pessoa X, a vida da pessoa Y fique em perigo.

d) Sim, excepto se a pessoa Y tiver uma deficiência grave ou fôr mesmo muito feia (certamente não valeria a pena viver nesse caso, provavelmente até se suicidou, coitada...)

e) Sim, em todos os casos.

Parece que está (finalmente) a acabar o "estado de graça"...

O chefe do Governo e os seus acólitos não têm gostado da forma como a comunicação social tem feito a cobertura desta viagem de negócios. Os jornalistas têm sido, umas vezes aberta, outras veladamente, acusados de estarem a estragar esta viagem e de só noticiarem assuntos menores – como a defesa dos salários baixos e os ataques, por parte de um membro de um governo socialista, aos sindicatos, ou a tentar obter declarações sobre Direitos Humanos na China – e de não darem a devida atenção aos muitos contratos e memorandos de entendimento celebrados entre empresas portuguesas e chinesas. A jornalista da rádio pública chegou mesmo a ser acusada, por um assessor, de estar a fazer o jogo do PSD. Houve várias pessoas a ouvi-lo. Terá sido apenas uma brincadeira?

Visão Online, via Corta-Fitas.

E esta, Luís Lavoura?

Luisão sem humilhação já!

Triste porque os juízes não aplicam penas de prisão efectiva às mulheres que abortam, Bagão Félix propõe trabalho comunitário. O julgamento não a exibe o suficiente. Há que ser mais eficaz na humilhação.

Daniel Oliveira, no Arrastão.

2007/02/03

O Luís Lavoura concordará que há fumadores...

...e fumadores





(Imagens indecentemente roubadas ao Dolo Eventual)

P.S.: O Luís Lavoura é um dos comentadores mais interessantes da blogosfera. Os seus comentários são demonstrativos da opinião de um pessoa inteligente após pensar 2 segundos. Não sei o que seria da blogosfera portuguesa sem um comentador "liberal" que defende a limitação do acesso ao crédito, impostos altos sobre o petróleo, que os criadores de gado americanos não deveriam dar rações de milho aos rebanhos para não aumentar o preço das tortilhas no México ou que o aborto é bom porque limita a explosão populacional. O Luís Lavoura diverte e, uma vez por outra, levanta questões interessantes, o que faz dele um dos meus comentadores favoritos.

2007/02/02

Campanha de Solidariedade Circo Cardinali

Luis Lavoura, por favor, continue a comentar os nossos posts!

Choque tecnológico

A ler, Concorrência institucional, no Corta-Fitas:

A coisa prometia vídeos (só lá estão os iniciais, de Sócrates, Mário Lino, Manuel Gaffes Pinho, Teixeira dos Santos e companhia), entrevistas com os protagonistas e outros temas excitantes, como um blogue a emitir "entre 30 de Janeiro e 4 de Fevereiro de 2007", com "comentários e opiniões dos elementos da comitiva oficial ao longo da Visita de Estado à China". Até agora nada, zero, nicles.
Na área do desenvolvimento de software, o desenvolvimento de um produto para demonstrar conceitos e funcionalidades não implementadas chama-se geralmente, na gíria, um fake.

O facto que distancia este site desse conceito é somente um: o de que cumpriu a sua missão e função primordiais em pleno. Apareceu nas notícias.

Os Constâncios do Ambiente

O planeta vai aquecer entre 1,8 e 4 graus Celsius até final do século, o que fará subir o nível dos mares até 58 centímetros e multiplicar as secas e vagas de calor, indicaram hoje especialistas em alterações climáticas.

Estas são as principais conclusões do relatório hoje apresentado em Paris pelos 500 delegados do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas ( IPCC), que aponta para "uma probabilidade muito alta" de que o aquecimento global se deva à actividade humana.

Público Última Hora, com negritos meus.

2007/02/01

Leitura recomendada a uns e a outros...

... aos defensores do Sim como aos defensores do Não, e especialmente aos homens. Li-o por volta dos treze anos, e foi a minha mãe que mo emprestou. A autora ainda era viva, e ainda nem sequer se falava tanto nas controvérsias que lhe marcaram o fim da vida. Releio-o agora, para não me esquecer que atrás da racionalidade dos argumentos ainda vão estar, sempre, pessoas, dotadas de sentimentos e de livre-arbítrio.
Nao é a favor, nem contra: é verdadeiro. Foi publicado em Portugal com o nome «Carta a um menino que não nasceu», pela Arcádia, em Março de 1976.

A contracepção Just-In-Time


RU486, nome histórico do Mifepristone, percursor do aborto químico.

Num estranho consenso entre apoiantes do Não e do Sim no que toca ao próximo referendo, defende-se que ninguém quer o aborto, que este é um "último recurso", uma saída in extremis para uma situação limite. Os apoiantes do Sim demonstram até geralmente uma reacção quase pavloviana à mera sugestão de que o aborto possa ser empregue como método contraceptivo. Porque é "traumático", porque "deixa sequelas", porque "ninguém com juízo o fará".

Para ajudar ao cenário, são acenados cenários dantescos de mulheres amarradas a marquesas, operadas com instrumentos medievais, de raspagens "a frio". Do "dilema". Da "escolha difícil". É este cenário, o do aborto cirúrgico, que é em grande parte anunciado como dissuasor da tentação que possa presidir a utilizar-se o aborto como contraceptivo.

Sejamos sérios.

A perspectiva de que o aborto será feito por métodos cirúrgicos no prazo que os apoiantes do Sim pretendem que este seja livre, é uma farsa que importa desmontar. O aborto, no período até às 10 semanas, será feito essencialmente por meios químicos, ou seja, tomando fármacos em forma de comprimidos. Eventualmente, será seguido por uma consulta de ginecologia e/ou por uma ecografia para que se verifique o seu sucesso e a expulsão completa do feto. Será este o propalado e generalizado "trauma físico" que irá "dissuadir" as mulheres apartir da aprovação da nova lei, caso vença o Sim.

Senão vejamos o panorama nacional da contracepção, desde a generalização do acesso à pílula contraceptiva e ao preservativo, métodos que são aliás acessíveis com comparticipação plena pelos contribuíntes. Mesmo quando, por limitações da Medicina, o risco de se necessitar de recorrer ao aborto cirúrgico era substancialmente maior, tal parece não ter motivado a generalidade dos homens e das mulheres a recorrerem por sua iniciativa à contracepção, quando afinal eram estes os principais afectados pelos previsíveis resultados. De qualquer modo, houve apesar de tudo um grupo dominante que adoptou essa rotina de contracepção, à falta de melhor e mais conveniente para surtir o efeito desejado, e face aos riscos apresentados pelo cenário alternativo, enquanto outros se mantiveram a ignorar a contracepção, e a aceitar consciente ou inconscientemente os seus riscos.

Depois veio a pílula do dia seguinte. Também comparticipada (mas requerendo receita médica), ou acessível em qualquer farmácia (e até, anunciadamente, nos locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica), sem receita médica, por um preço que ronda os 10 euros. Um tremendo sucesso. A venda em formato livre da pílula do dia seguinte tomou rapidamente 90% do mercado de venda do fármaco, e tornou-se num sucesso de vendas a nível europeu. É fácil de presumir, pela própria expressão do volume do mercado do fármaco, que muitas das pessoas que faziam contracepção regular passaram a substituí-la por "contracepção ocasional", desmentindo na prática o carácter de "emergência" que lhe pretendiam conferir. Afinal, pelo progresso da Medicina, o cenário em caso de falha também tinha passado já por ir tomar uns comprimidos a Espanha, ou arranjá-los clandestinamente em Portugal, ou em último caso, recorrer ao aborto cirúrgico, em cenários bem mais plácidos do que dantes. Tudo cenários suficientemente remotos e "soft" para não motivarem a "chatice" e o "trabalho" da regularidade. Apesar disso, alguns continuaram a insistir em ignorar a contracepção, e a aceitarem consciente ou inconscientemente (o argumento da falta de informação não colhe: veja-se a velocidade com que se disseminou a pílula do dia seguinte) as suas previsíveis consequências.

E qual é agora o cenário que se anuncia? Agora, os comprimidos ocasionais de 10 euros, vão ser previsivelmente (cautelosamente e cuidadosamente ninguém desminte em contrário) substituídos, caso haja gravidez, por outros comprimidos (convenientemente ainda mais ocasionais), agora plenamente a expensas do contribuinte, e uma ou outra taxa moderadora. Ou seja, o contribuinte paga as pílulas e preservativos, paga algumas pílulas do dia seguinte, e previsivelmente pagará as pílulas abortivas e os exames médicos associados, tudo com a garantia de rapidez de prestação de serviço para que "encaixe" em dez semanas, enquanto as outras patologias esperam (e às vezes desesperam) pela sua vez.

É este o cenário de "dissuasão" e de "contracepção responsável" que se pretende promover. Aliado ao despontar de um previsível (e compreensível) mercado que se irá constituir para a prestação desse serviço, provável e previsivelmente a custas do SNS. Aos que esperam que sejam estes a promover a "contenção" e a "decisão consciente", contra os seus interesses económicos, bastará ver os exemplos apresentados por fontes (curiosamente) insuspeitas.

Compreende-se o pudor do Não em levantar o assunto. Afinal, não é de bom tom chamar "irresponsáveis" a uma tão significativa fatia do eleitorado, algum que até poderá estar indeciso.

Mas "escolhas"? Abortos que "ninguém quer"? Dilemas?

Quando muito, para muita gente, o dilema que restará será o de tomar os comprimidos com água ou sumo de laranja.

Para ouvir

O debate entre o Daniel Oliveira e César das Neves (aqui).

Marcadores: Boçalidade, Demagogia, Peixeirada

Em estabelecimento de saúde legalmente autorizado II

Se fosse certo que, a ganhar o SIM, os abortos passassem a ser feitos gratuitamente nos hospitais públicos, porque haveriam de estar as clínicas espanholas de abortos a planear a abertura de instalações em Portugal?

Estabelecimento de saúde legalmente autorizado

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado

As mulheres que optarem por abortar fora dos hospitais continuarão a ser presas?

Resposta ao desafio III

Entre os apoiantes do NÃO, a posição de Marcelo R. Sousa, superiormente caricaturada aqui, parece estar em maioria.

À atenção da Direcção de Programas da TVI

Agradeciamos que Vexas. se decidissem em relação ao(s) dia(s) e à(s) hora(s) de exibição da série Nip|Tuck.

Da nossa parte, teriamos todo o gosto em contribuir com a audiência que, presumimos, procuram para o referido programa, e desse modo contribuir para a vossa venda de publicidade, ao invés de ter que recorrer a canais menos claros ou alternativos através dos quais não terão quaisquer benefícios.

Obrigado.

2007/01/31

O Ministério-Público-Sondagem

O Ministério Público do Tribunal da Relação de Coimbra defende a libertação de Luís Gomes, considerando que perdeu "interesse ou utilidade" para a justiça a sua prisão preventiva pelo sequestro da criança de cinco anos que acolhe desde os três meses de idade.

O procurador do Tribunal da Relação de Coimbra refere, num recurso em separado do Ministério Público de Torres Novas, que a prisão preventiva já não se justifica por não existir perigo de fuga ou de continuação de actividade criminosa.

[...]

Luís Gomes está detido preventivamente por se recusar a entregar a criança de cinco anos que lhe foi entregue pela mães aos três meses pela mãe biológica, Aidida Porto, e a revelar o seu paradeiro. No dia 16 de Janeiro, o Tribunal de Torres Novas condenou-o a seis anos de prisão por sequestro agravado da menor.

[...]

O risco de fuga é também desvalorizado pelo procurador, até porque o arguido é "um militar de carreira, inexistindo quaisquer indícios ou sequer alegação de incumprimento de deveres processualmente impostos".

No que respeita ao risco de continuação do crime — o pressuposto em que se baseou o colectivo para ordenar a prisão preventiva, o Ministério Público considera que "nem na pronúncia ou em momento anterior ao início do julgamento, foram esquadrinhados bons fundamentos" para essa decisão.

Público Última Hora (com negritos meus).
Não sou jurista, mas como observador atento do funcionamento do Estado de Direito, parece-me que esta iniciativa do Ministério Público é mais o ceder ao vox pop do que propriamente cumprir para com as suas funções de apuramento da verdade.

Dizer que o comportamente do arguido, condenado em primeira instância (naturalmente sem transitar ainda em julgado e passível de recurso) por sequestro e por já anteriormente ter desrespeitado decisões e ordens da justiça (desrespeito que ainda se mantém), não indicia ou sustenta alegações de violação de deveres processualmente impostos, e além disso que não há risco de continuação do crime quando a criança se encontra ainda em parte incerta e já existe uma decisão de primeira instância que atribui a culpa do facto ao pai, muito para além da "prenúncia ou em momento anterior ao início do julgamento" referidos, parece-me mais navegar ao sabor da apaixonada reacção que o caso tem despertado no público (de maneira mais ou menos informada), do que uma posição de consciência e orientada pela Lei e pelo Direito.

A influência populista e a tentação de dar ao MP um pendor de justiceiro popular, quando este tem deveres de neutralidade e de isenção, e goza de meios e de estatuto que não está ao alcance das outras partes, é um caminho perigoso e repreensível para uma das principais instituições judiciárias. Esperemos que não seja por actos populistas e de "relações públicas" que o MP queira expiar os seus recentes flops e a sua credibilidade enfraquecida aos olhos da opinião pública.

O visionário

O ministro da Economia chamou à atenção dos empresários chineses para o facto de Portugal ter um «custos salariais mais baixos que a média da União Europeia» e de haver uma menor pressão para o aumento destes custos em relação aos países que recentemente entraram na União.

TSF Online.
Um visionário, digo-vos eu, esta cabecinha pensadora que vai, num golpe de génio, vender um Portugal de salários baixos para a China...

Respostas ao desafio II

Pelas respostas dadas até agora pelos apoiantes do SIM, concluo que alguns deles mudariam para o lado do NÃO se o prazo para a realização o aborto fosse alargado. Tal leva-me a concluír que também está em causa neste referendo definir quando é que, juridicamente, se dá início à vida. Repito, a definição da data em que se inicia a vida, ou o direito a ela, será decidida em referendo, por maioria simples. A ideia é, no mínimo, aterradora.

Resposta ao desafio

Recebido por e-mail:

  1. Concorda com a realização do referendo e a formulação da pergunta?

    Não. O direito de viver não se referenda em prol do conforto financeiro de uma mulher. Mas pelo andar da carruagem cá estaremos em 2016: “concorda, apesar de já ter dito duas vezes que não, com o aborto por qualquer motivo que a mulher possa alegar, num país rico em que ninguém passa fome?”

  2. Considera que as mulheres que abortam antes das 10 semanas de gestação deverão ser efectivamente condenadas a penas de prisão? E depois das 10 semanas?

    Claro que não. Quem deve ser responsabilizado são os médicos e as parteiras que o praticarem ilegalmente sobre mulheres que recorram a eles. Isto não quer dizer que se legalize o aborto. O aborto deve continuar a ser ilegal. Mas a penalização deve é recair sobre as pessoas certas. Despenalizar a mulher que recorre ao aborto não é legalizar o aborto. Isso é um argumento desonesto do sim. Idem para o aborto após as 10 semanas, caso a lei passe.

  3. Concorda com as excepções da actual lei?

    Sim

  4. Considera a pílula do dia seguinte um método abortivo? Concorda com a sua utilização?

    Não, a pílula apenas inibe a ovulação. Mas falha caso esta ocorra durante a noite, se a comprarmos no dia seguinte.

    Sim, e já dei por mim a comprá-la na farmácia

  5. Caso o Não vença e o referendo não seja vinculativo, aceitaria a realização de um novo referendo nos próximos 10 anos?

    Então a primeira pergunta não condiciona esta? Se não concordo com um segundo referendo, não concordo com um terceiro.

    Pressuposto: nunca haverá um referendo vinculativo na nossa história. E pressuponho que muito raro será o sufrágio com mais de 50% de participação.
Filipe Melo Sousa

2007/01/30

Um diz mata, outro diz que devia-se esfolar

Nicolas Sarkozy, candidato às eleições presidenciais na França e ministro do Interior, foi hoje acusado de abuso de poder, depois de ter utilizado meios da polícia, incluindo testes de ADN, para prender os assaltantes da mota de um dos seus filhos.

Público Última Hora.
Os assaltos à privacidade vão galopando. A ser verdadeiro o contúdo da acusação, trata-se sem dúvida de um precedente grave, e de uma atitude negligente em relação ao uso do ADN em causa.

A perspectiva de se usar uma base de dados de ADN para determinar o assaltante de uma mota demonstra bem o género de abusos a que essa prática se pode sujeitar, e deveria constituir um alerta significativo para os que acreditam da bondade desse género de medidas, que já foram anunciadas para as nossas paragens pelo "nosso" ministro António Costa. Deverá também ser esclarecedora aos que acreditam no bom e restrito uso desse género de informação, uma vez passado para as mãos e para as bases de dados do estado.

Mas tão surpreendente como a acusação, foi a reacção anunciada:
“Vivemos numa França de dois pesos e duas medidas”, lamentou o líder centrista François Bayrou, reagindo ao caso da scooter roubada a um dos filhos do candidato em Neuilly-sur-Seine.

“Todos os dias existem em França situações semelhantes que não dão azo a um aparato policial desta dimensão”, salientou Bayrou, também ele candidato às eleições presidenciais de Abril e Maio.
Ou seja, aparentemente, para o candidato Bayrou, o problema não foi o uso negligente do ADN. O mal foi que essa práctica não está acessível a todos em "situações semelhantes"...

Para mais tarde recordar

Eu voto em leis o Estado, não voto nas escolhas privadas dos outros.

Daniel Oliveira no Arrastão e Sim no Referendo
Para além da discussão em si, o mais interessante nesta longa campanha do referendo à IVG é encontrar liberais onde menos esperava.

Respostas ao desafio I

Até agora responderam ao desafio lançado 13 pessoas do lado do SIM: a Sandra e o Zé, cá da casa; 2 anónimos; o Miguel Madeira do Vento Sueste; o Tiago Mendes do Logicamente Sim; o Luís Pedro do Rabbit's Blog; o Ricardo Alves do Esquerda Republicana;o Pedro de O Parcial; o Willespie de Willespie - Um Liberal Democrata e Otto Costa e o Lourenço de Complexidade e Contradição. Do lado do NÃO, apenas 3 pessoas: Mentat prestes a iniciar o seu blog, Miranda e Gabriel do Blasfémias.
Não sei qual o motivo desta diferença tão grande de respostas entre os apoiantes do SIM e do NÃO. Haverá, como dizem as sondagens, mais apoiantes do NÃO do que do SIM? Estarão os apoiantes do SIM sobre-representados entre os leitores deste blog? Estarão so apoiantes do NÃO menos disponíveis para o debate? Possivelmente um pouco das três.

2007/01/29

Momento Google do dia

Um inquisitivo internauta carioca chegou aqui à nossa casa com a pesquisa no Google "receita para aumentar o pinto".

Sandra e Carlos: não sei o que poderão acrescentar de vossa justiça. Eu, por mim, só o posso redireccionar para a minha mãe. Afinal, se há um responsável e uma receita para o sucesso atingido, foi sem dúvida a comidinha da mamã.

Momentos bucólico-cómicos de um estado insano

Um homem de 34 anos foi detido domingo pela GNR de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, acusado de caça ilegal, por utilizar toques de telemóvel como chamariz para caçar tordos, disse hoje fonte policial.

Público Última Hora.

Lisboa?

Reality check

1. Este post é para pedir às pessoas que contribuam com dinheiro para a campanha do SIM. Este é talvez um ponto em que o SIM perde por estar associado à esquerda: recebe menos apoios privados (a esquerda costuma ser menos generosa; não sei se há dados para Portugal).

2. Uma campanha custa dinheiro. Muito dinheiro. Quem faz campanha dedica-se, esforça-se, mas há coisas que só com dinheiro. Outdoors custam mais do que o suor do rosto.
Caro Luis Pedro: lendo as suas palavras, ficar-se-á com a ideia que a campanha do Sim é feita por meia dúzia de carolas, que andam a pintar tarjas nas garagens e a fazer fotocópias de prospectos. Que os desgraçados penam por meia dúzia de trocados. Ora, face aos orçamentos apresentados que totalizam em torno de 1,4 milhões de euros para o apoio do Sim, num total de 2,3 milhões de euros orçamentados por todas as associações, movimentos e partidos que vão participar da campanha, pergunto-me se esses números não serão já mais que suficientes, e em grande parte um atentado a quem tem dificuldades bem piores dos que as que estão na mesa. Eu sei que a economia está difícil, e também sei que a indústria da publicidade passa por dificuldades, que acompanham naturalmente esses tempos difíceis. Mas não me parece que torrar dinheiro em propaganda seja uma qualquer prioridade nacional.

Se essas pessoas, ao invés de pegarem nesse dinheiro (que o estado ainda lhes deixa nas mãos) para o gastarem em foguetes e festejos, o investissem ou dedicassem a causas bem mais nobres do que essa, ou a ajudar o próximo em verdadeiras dificuldades, se calhar era bem mais empregue, não acha?

Aliás, como já por aqui referi, se pegassem em grande parte desse dinheiro e constituíssem um fundo anunciado como dedicado ao pagamento do aborto por critérios económicos que definissem a quem achassem que não tinha essa possibilidade económica, num cenários de vitória do Sim (ao invés de previsivelmente chutarem isso para cima do contribuinte), se calhar mobilizariam muitas mais pessoas a votarem nesse sentido. Mais do que em andarem a colocar outdoors ou a distribuir prospectos que pura e simplesmente já vão sendo ignorados por todos.

Banana madura

Aparentemente, aquela coisa de nome Sampaio que alegadamente ocupou até há uns tempos a presidência da república aqui do burgo, ergueu-se do seu túmulo político, largou a tuberculose e veio botar faladura (por intermédio da leitura de uma sua declaração escrita) numa iniciativa em defesa do Sim no próximo referêndo. Diz o órgão oficial de campanha pelo Sim o DN:

Jorge Sampaio não esteve ontem no encontro dos Eurodeputados pelo Sim, que se realizou num hotel de Lisboa, mas mandou uma mensagem, lida pelo actor de teatro e televisão Paulo Matos, que soou bem forte: "No próximo referendo, o que está em causa é um problema de política criminal do Estado democrático." Para o ex-presidente da República, "trata-se, em primeira linha, de um problema de Código Penal, um problema de previsão e definição de crimes e penas". Sampaio lembrou que o País está "isolado na Europa" nesta matéria e que a actual lei dá do Estado português "a ideia de um Estado retrógrado, injusto, cruel e desumano".
Curioso. Aparentemente, toda esta iniciativa, e este reconhecimento de que vivemos num estado "retrógrado, injusto, cruel e desumano" parece ser coisa de há pouco tempo, e concerteza não vingou nos dois mandatos que esse senhor exerceu. Aparentemente, sobre esse assunto, durante esse exercício, presidiam outras prioridades, como o famoso apelo em prol dos que sistematicamente violavam a lei (e o Estado de Direito que supostamente deveria defender) em nome da "tradição" lá para as bandas de Barrancos. Aí, encheu o peito e não teve problemas em vir a público dizer o que disse. Prioridades...

Mas já tudo se pode esperar do respectivo senhor. Afinal, quando se tratou de ter iniciativa e de dar o exemplo em relação aqueles que se aproveitam do flagêlo do aborto clandestino, ou seja, dos que tiram rendimento da exploração de uma situação ilegal e dos estados psicologicamente candentes das "vítimas" (daquelas que estão sempre na boca dos apoiantes do Sim), o Sr. Sampaio mostrou bem de que lado da barricada é que estava.

2007/01/28

O nível zero da discussão...

... ou os abortistas em todo o seu esplendor.

O argumento do coraçãozinho é dos preferidos pelos defensores do não ao aborto.
Segundo os defensores do não, o aborto deve ser ilegal porque está lá um coraçãozinho.(...)
Se estiver lá um rinzinho, faz diferença ? E se estiver um figadozinho?
Claro que não!
Então porque razão faz diferença um coraçãozinho?
Porque quando estamos na escola as meninas desenham coraçõezinhos cor-de-rosa como se isso significasse vida ?

Hugo Garcia no Blog Liberal Social

2007/01/25

Respondendo ao desafio...

Abusando descaradamente da minha posição privilegiada de co-blogueira, posto aqui, como defensora do sim, a minha resposta ao desafio do Carlos:

1.Concorda com a realização do referendo e a formulação da pergunta?

Na minha opinião, esta questão não é em abstracto referendável, porque interfere com uma liberdade da mulher que não deve ser sujeita ao escrutínio da maioria. Todavia, atendendo a que, presentemente, essa liberdade é invadida por uma proibição legal, estou interessada, principalmente, em que esta seja levantada. Acredito que isso deveria ter sido feito por via legal, sem recurso a plebiscitos de qualquer género. Mas também acho que, depois de se referendar a questão uma primeira vez (ademais tão próxima temporalmente), sem dúvida depois de se concluir (erradamente, digo eu) que a questão é referendável, seria muito pouco legítimo atentar contra a vontade expressa (mesmo que não conclusiva) dos cidadãos sem nova consulta.
Com a formulação da pergunta ainda concordo menos. Mistura duas questões que não têm relação nenhuma, a questão da criminalização do aborto com a questão do seu financiamento. Salta uma etapa lógica. Mas, do meu ponto de vista, o que verdadeiramente me incomoda é a intromissão ilegítima do Estado na liberdade das cidadãs e, nessa medida, votarei olhando unicamente a esse aspecto. O prioritário. O demais, terei que lutar para mudar depois. Entre os dois erros, aliás não cotejáveis – a criminalização do aborto e o seu financiamento pelo Estado – o primeiro é de longe mais profundo, mais essencial, mais preocupante para um liberal.

NOTA (em adenda posterior): Depois de ler o comentário do José Barros, fiquei a pensar que, efectivamente, a pergunta não contém nenhuma referência ao SNS ou ao financiamento do aborto. Todavia, não sei de que outra forma possa entender (aliás parece que o próprio Governo a entende dessa forma) aquela referência aos estabelecimentos autorizados, ou o que seja. É que, se o fulcro é a liberdade da mulher, pouca importância tem onde ela realize o aborto – o exercício das liberdades não deve exigir condições assim ou assado. O risco de o realizar em estabelecimentos duvidosos sempre correrá, aliás, por conta dela…

2.Qual a pena que pensa que deveria ser aplicada a mulheres que abortem com 3 meses de gravidez? E 6 meses?

Este é, a meu ver, um falso problema. A partir do momento em que uma mulher disponha de condições para decidir sobre a vida do feto, durante um tempo considerado razoável para tomar conhecimento do seu estado e ponderar, serenamente, sobre as suas opções, acho que a punição penal do aborto para além dessa moratória é justa. Exceptuam-se, evidentemente, casos em que aquele período de reflexão não tenha cumprido a sua função (por exemplo, a mulher não ter tido conhecimento, sem culpa, que estava grávida – e acontece, acreditem).
Quanto à pena concreta, provavelmente defenderia uma pena mais leve que a do infantícidio. O infantícidio está especialmente previsto na lei, e diferenciado do homicídio vulgar, porque se acredita (não estou a afirmar que concordo ou discordo, é uma questão de coerência do sistema) que o período pós-parto tem uma influência especialmente perturbadora sobre a mulher e que portanto aquilo que pareceria um homicídio pleno deve ter um quadro atenuado. Ora, mais perturbador que o parto, parece-me, é a gravidez. Por isto, assim de repente (mas mereceria maior reflexão) defenderia uma moldura especialmente atenuada (bastante!), mas ainda penal, e para ser cumprida em todos os casos em que o aborto pudesse ter sido perfeitamente realizado no período em que seria legal.

3.A partir de que período da gravidez deverá a mulher ser punida criminalmente pelo aborto?

Essa pergunta coloca-se como necessidade prática e só pode ter uma resposta, evidentemente, artificial. Coloca-se porque o que está em causa é a impossibilidade de obrigar uma mulher a levar uma gravidez a bom termo sem interferir ilegitimamente na sua capacidade para dispor do seu corpo. Ninguém deve obrigar outrem a fazer ou a não fazer com o seu próprio corpo determinada coisa, mesmo que em homenagem ao direito de um terceiro. Todavia, parece-me que para cumprir este princípio basta assegurar à mulher um período em que se possa desfazer dessa imposição indesejada. Se teve a possibilidade de legalmente a descartar, e não o fez, parece-me razoável que a primazia passe a ser dada ao direito do feto.
Este quadro implica, naturalmente, a necessidade de traçar uma linha. Não a linha de onde passa a haver vida humana, ou sofrimento, ou sistema nervoso central (pois que o único momento disruptivo, em todo o processo, é de facto o momento da concepção, além do do nascimento, claro), mas antes a linha traçada por outro critério: o do tempo necessário para a mulher reflectir e decidir, com razoável ponderação, a opção que pretende tomar. Parece-me que, em casos normais, o período proposto será razoável a esta luz, sempre salvaguardando casos em que em concreto não baste (porque, por exemplo, a mulher não teve qualquer sinal de que estava grávida).

4.Considera que o aborto deverá ser realizado e suportado pelo Serviço Nacional de Saúde?

De forma alguma.

5.Tem algum tipo de oposição moral à prática do aborto?

Remains to be decided, comigo própria. Mas isso não tem influência nenhuma na minha posição sobre a questão legal, nem as oposições de qualquer pessoa deverão ter.

6.Caso o SIM vença e o referendo não seja vinculativo, aceitaria a realização de um novo referendo nos próximos 10 anos?

Bem, abriu-se o precedente, por isso já não digo nada… mas penso que a repetição ad aeternum de referendos, quando se prova que a comunidade nada quer com o assunto, não dignifica o Estado Português.

7.Caso o NÃO vença e o referendo não seja vinculativo, defenderia a aprovação da lei no parlamento?

Ainda menos. Como comecei por dizer, acho que a questão está a priori fora da possibilidade de escrutínio pela maioria. Trata-se de uma liberdade, de um direito da mulher (não o de fazer um aborto, mas o de dispor do seu próprio corpo, também no sentido de não a poderem obrigar a levar a gravidez até ao fim) e, como dizia Dworkin, rights trump preferences. Always. Num estado ideal, claro.
Todavia, se não foi assim entendido e a questão é colocada a referendo, passar por cima da resposta das pessoas (vinculativa ou não) é ainda mais atentatório do Estado de Direito do que não compreender a irreferendabilidade da questão.

Desafio aos apoiantes do SIM

As perguntas que gostaria de vêr respondidas:

  1. Concorda com a realização do referendo e a formulação da pergunta?
  2. Qual a pena que pensa que deveria ser aplicada a mulheres que abortem com 3 meses de gravidez? E 6 meses?
  3. A partir de que período da gravidez deverá a mulher ser punida criminalmente pelo aborto?
  4. Considera que o aborto deverá ser realizado e suportado pelo Serviço Nacional de Saúde?
  5. Tem algum tipo de oposição moral à prática do aborto?
  6. Caso o SIM vença e o referendo não seja vinculativo, aceitaria a realização de um novo referendo nos próximos 10 anos?
  7. Caso o NÃO vença e o referendo não seja vinculativo, defenderia a aprovação da lei no parlamento?
Fica lançado o desafio: na caixa de comentários ou para o e-mail watching.back@gmail.com

Desafio aos apoiantes do NÃO

As perguntas que gostaria de vêr respondidas:

  1. Concorda com a realização do referendo e a formulação da pergunta?
  2. Considera que as mulheres que abortam antes das 10 semanas de gestação deverão ser efectivamente condenadas a penas de prisão? E depois das 10 semanas?
  3. Concorda com as excepções da actual lei?
  4. Considera a pílula do dia seguinte um método abortivo? Concorda com a sua utilização?
  5. Caso o Não vença e o referendo não seja vinculativo, aceitaria a realização de um novo referendo nos próximos 10 anos?
Fica lançado o desafio: na caixa de comentários ou para o e-mail watching.back@gmail.com

Afinal, parece que ainda não está tudo maluco

Vejam-se as diferenças. Em primeiro lugar, Sir Ken Macdonald, detentor do cargo com os poderes persecutórios próximos de parte do nosso Ministério Público:

It is critical that we understand that this new form of terrorism carries another more subtle, perhaps equally pernicious, risk. Because it might encourage a fear-driven and inappropriate response. By that I mean it can tempt us to abandon our values. I think it important to understand that this is one of its primary purposes.

[...]

London is not a battlefield. Those innocents who were murdered on July 7 2005 were not victims of war. And the men who killed them were not, as in their vanity they claimed on their ludicrous videos, 'soldiers'. They were deluded, narcissistic inadequates. They were criminals. They were fantasists. We need to be very clear about this. On the streets of London, there is no such thing as a 'war on terror', just as there can be no such thing as a 'war on drugs'.

The fight against terrorism on the streets of Britain is not a war. It is the prevention of crime, the enforcement of our laws and the winning of justice for those damaged by their infringement.

[...]

We wouldn't get far in promoting a civilising culture of respect for rights amongst and between citizens if we set about undermining fair trials in the simple pursuit of greater numbers of inevitably less safe convictions. On the contrary, it is obvious that the process of winning convictions ought to be in keeping with a consensual rule of law and not detached from it. Otherwise we sacrifice fundamental values critical to the maintenance of the rule of law - upon which everything else depends.

Guardian, via Boing Boing.
Em segundo lugar, Alberto Gonzales, Procurador Geral americano:
Responding to questions from Sen. Arlen Specter at a Senate Judiciary Committee hearing on Jan. 18, Gonzales argued that the Constitution doesn’t explicitly bestow habeas corpus rights; it merely says when the so-called Great Writ can be suspended.

“There is no expressed grant of habeas in the Constitution; there’s a prohibition against taking it away,” Gonzales said.

[...]

Gonzales continued, “The Constitution doesn’t say every individual in the United States or citizen is hereby granted or assured the right of habeas corpus. It doesn’t say that. It simply says the right shall not be suspended” except in cases of rebellion or invasion.”

Baltimore Chronicle and Sentinel, via Slashdot.
Sobre a segunda notícia, recomenda-se o excerto do The Colbert Report que inclui as imagens da declaração de Alberto Gonzales e o comentário sempre acutilante de Stephen Colbert.

Um artigo à Pedro Arroja

O novo argumento economicista:

Quando observo a natalidade perversa de alguma gente neste país, eu digo: não, não estou disposto a contribuir para que eles tenham ainda mais filhos.

E o pior ainda são os bebés que nascem prematuros e que têm que passar meses em incubadoras. Cada dia passado numa incubadora custa bem uma centena de abortos. E em muitos casos eles estão na incubadora por culpa dos pais - por exemplo, nães que fumam.

Só aquela senhora da Madeira que, fruto de um tratamento de fertilidade, engravidou de seis gémeos, e se recusou a abortar seletivamente qualquer um deles por ser muito católica - acabaram por morrer todos na incubadora, pobrezinhos - custou mais ao Estado do que todos os abortos que se realizam durante um ano.

Luís Lavoura, em comentário a um artigo no Rabbit's blog (editado).

Lutas por quota de mercado

A administração norte-americana garantiu hoje ter provas da implicação do Irão no Iraque e prometeu divulgar, dentro em breve, mais detalhes sobre as redes iranianas no Iraque.

Público Última Hora.

2007/01/24

Notícias do regulador que foi para férias

ERSE aumenta tarifário para patrocinar decisões de gestão de um operador de mercado, com supostos benefícios em 2012. Tudo, claro, para o melhor interesse do consumidor.

3 x Não

Continuando em torno de Tiago Mendes, este escreve hoje para o Diário Económico, apresentando sete razões em prol do voto Sim, que também são críticas a varias posições quer de defensores do Não, quer da abstenção. Sentindo-me visado genericamente em algumas (naturalmente não pessoalmente), face ao que já defendi por estas paragens, aqui fica a minha réplica:

2. Quem acha que o Estado não tem nada que ver com este assunto só pode, em coerência, votar sim, porque só uma alteração da actual lei permite atingir isso. A abstenção, aqui, será sempre uma demissão de um dever de cidadania – como ter uma opinião forte sobre um assunto desta importância e decidir não votar?
A perspectiva de que vai ser o Sim no referendo a tirar o estado "do assunto" é, quanto a mim, idílica. Julgar que é o Sim neste referendo que vai garantir menos estado e que vai afastar um condicionalismo moral deste sobre os cidadãos é um erro, e um passar de um cheque em branco, mesmo que bem intencionado.

É preciso ter-se a noção do enquadramento constitucional que vivemos, e de quem são os senhores que ocupam as cadeiras do nosso parlamento há décadas. A perspectiva de que se vai eliminar "só" um condicionamento moral negativo do estado, trocando-o por "nada", ignora o condicionamento moral positivo que o vai substituir. Está anunciado, apresentado por responsáveis governativos, sustentado por uma maioria absoluta de um partido que faz campanha pelo Sim e que não tem problemas em dizer o que é esperado, por uma massa de deputados do parlamento, e por uma atitude Nim de quem não se quer meter no barulho (agora e naturalmente depois) do maior partido da oposição e eterno alternadeiro do poder. O estado vai continuar a ter a ver com o assunto. Só vai mudar a forma. Vai continuar a haver lei a proibir o aborto, vai continuar a haver um grupo de pessoas a dizer que nem sequer a nova deverá ser cumprida, e vai ser criado um direito ao aborto como cuidado de saúde primário patrocinado por todos os contribuintes. É isto o "menos estado"?
4. Há ainda quem seja favorável à despenalização do aborto e, contudo, tencione abster-se ou votar não por ser contra o subsídio ao aborto. Recordo que o que vai a votos no dia 11/2 tem que ver com a atribuição de um direito negativo (“de” não haver penalização) e não de um direito positivo (“a” uma comparticipação). O primeiro tem precedência sobre o segundo: não só formalmente (o segundo não pode ser equacionado sem o primeiro), mas sobretudo substantivamente – não podemos pôr no mesmo plano uma sanção penal e uma questão de impostos. Acresce lembrar que o direito negativo só pode ser alterado por referendo, enquanto que um direito positivo pode ser revisto por qualquer governo. Como compreender, neste caso, a falta de convicção em votar sim, dando margem a que a actual lei se venha a manter por outra dezena de anos?
A perspectiva de que o que vai a votos é só um "direito negativo" será uma convicção do Tiago Mendes. Não está nada na pergunta, não foi vontade de quem a criou e nem sequer é a posição dominante pública que tal assim seja, inclusivé das pessoas com a futura responsabilidade de o legislar como "negativo" ou "positivo". Essa será portanto uma interpretação pessoal do conteúdo da pergunta, que me parece muito pessoal e muito pouco generalizada. Já quanto ao facto de "um direito negativo só poder ser alterado por referendo" e um direito positivo "por qualquer governo", temos a nossa Constituição que o desmente. Afinal, esta estabelece vários direitos positivos que só poderão ser revogados por alteração desta, o que é muito mais do que uma mera vontade governativa. Além disso, para que se possa conceber essa mudança é preciso que se demonstre que há uma possibilidade credívil sequer que tal venha a estar em cima da mesa. Sinceramente, alguém acredita que, atribuido esse direito, por um sim convicto e por um nim que não quer ferir susceptibilidade, em algo que é afinal "só" o dinheiro dos contribuintes, tal é concebível?

Quanto ao juízo de valor de que não se pode por no mesmo plano uma sanção penal e uma questão de impostos, mais uma vez tal será um juízo de valor pessoal do Tiago Mendes. Pessoalmente, acho muito mais injusto a perspectiva de um poder coercivo do estado que, já que cobra, também pode cobrar mais, mesmo para sustentar algo que viole a moral e a consciência de quem é espoliado desse modo, do que a existência de uma sanção penal para alguém que, afinal, tem a possibilidade objectiva e os meios ao seu dispor para nela não incorrer no seguimento dos seus comportamentos voluntários e das suas omissões individuais, e que acaba por ser o único sancionado pela sua omissão. Esse cenário é espectável, e a probabilidade de que seja o que vai estar na nova lei caso passe o Sim é quase certa. Vontade de esclarecer qual é o mandado legislativo que emana do referendo: nenhuma.
7. A actual lei é ineficaz, com todos os contornos da “Lei seca”: uma lei que ninguém cumpre, que ninguém quer ver cumprida, que faz florescer a clandestinidade, dando azo às desigualdades e aos abusos que conhecemos. É aceitável um estado de direito manter uma lei que ninguém cumpre e que ninguém quer ver aplicada?
A perspectiva de que a eficácia ou o cumprimento de uma lei é a medida da sua justiça e da sua legitimidade é um caminho perigoso e, quanto a mim, esse sim desprestigiante para um Estado de Direito. Afinal, se assim fosse, a evasão fiscal generalizada de tempos passados (antes de, para a combater, o estado ter começado a cortar pelos direitos dos contribuintes adentro), o atulhar de processos de cobrança nos tribunais, seriam todos sinais de que os impostos deveriam ser eliminados e que o direito civil deveria ser arrumado. Afinal, se se fizesse uma sondagem ou um referendo sobre se a cobrança das dívidas dos serviços de água, electricidade, telemóvel, etc., deve ter a protecção da lei, se calhar haveriam muitos a dizer que não.

A bem do puralismo de opinião

Saúda-se o regresso (mesmo que temporário), de Tiago Mendes à blogosfera, desta vez patrocinando a causa do Sim no próximo referendo. Foi assim criado o Logicamente, sim.

Apesar de defensor do Não no referendo que se aproxima, são sempre de saudar todas as iniciativas responsáveis e ponderadas que contribuam para o esclarecimento e para a elevação da discussão. Fica portanto o destaque, e os votos que o regresso seja duradouro, e que perdure eventualmente para lá da missão agora anunciada.

2007/01/23

Aquisição original

Agora, vamos imaginar a seguinte situação - imaginemos que eu adquiria (porque comprava, herdava, era-me dada, não interessa como) um pedaço de terra e no "contrato de aquisição" vinha um conjunto de cláusulas estipulando que eu só poderia ser proprietário desse terreno na condição de:

a) não possuir mais que "X" hectares de terra;

b) em caso de violação do ponto anterior, ao fim de 6 meses, qualquer pessoa poderia tomar posse da minha propriedade, desde que aceitasse respeitar estas cláusulas;
c) eu só poderia transferir a propriedade para alguém que também aceitasse estas cláusulas;
A ler, uma interessante "provocação" de Miguel Madeira no Vento Sueste (via Causa Liberal), no seguimento da recente (e igualmente interessante) discussão sobre os pergaminhos liberais de Proudhon e sobre a temática da aquisição originária da propriedade, tema sempre polémico e que constitui uma das principais armas de arremesso contra as teses do Liberalismo Clássico.

Conto ter a oportunidade para também responder ao convite para intervir, e dizer qualquer coisa sobre o assunto, brevemente.

Um estado a perder o discernimento

The government is planning "behaviour orders" for people considered to be at risk of committing a violent crime.

[...]

Lord Chancellor Lord Falconer says the orders will not be an infringement on individual freedoms because there must be evidence before they are issued.

He told BBC News: "If there's evidence that you could commit a violent offence in the future, proper evidence of that proved in a court, then why shouldn't you be restrained from committing that violent offence.

"We are willing to do it relation to Anti-social Behaviour Orders, why not in relation to other sorts of offences as well."

As with Asbos, the standard of proof needed to issue the orders will be much lower than a criminal conviction requires.

The Sunday Times reported that "risk factors" that could lead to a person being subject to an order would include a person's upbringing, "cognitive deficiencies", "entrenched pro-criminal or antisocial attitudes", or "a history of substance abuse or mental health issues".

BBC News.
Lá nas terras da Britannia, o tino e o discernimento vão sendo progressivamente perdidos, numa espiral securitária e totalitária galopante. Progressivamente, substituem-se as regras do direito criminal, e o seu princípio de prova para além de uma dúvida razoável, por critérios de direito cível e de probabilidade na aplicação de decisões inibidoras da liberdades, à margem de qualquer processo judicial formal. Com a nova medida anunciada, vai-se já em direcção à sanção do thought crime, ou seja, não à sanção de acções individuais propriamente ditas, ou aplicação de medidas de coação para defesa da sociedade num tribunal criminal legitimado, mas sim a sancionar uma mera conjectura de alguém, no futuro, vir a cometer algum crime. Para além de institucionalizar o profiling social como meio legítimo de escrutinar e de aferir da perigosidade potencial de uns e de outros, desgraçados cujo único crime poderá ser terem nascido na família errada, ou no sítio errado.
The government has announced 40 "respect zones" in England which will receive extra funding to fight anti-social behaviour.

[...]

Mr Blair said there was a "small" number of families where "children haven't been brought up properly" and who made lives "hell".

He added: "We are not demonising them. We are simply asking that the local community can get to have the power to make these people conform [to expected levels of behaviour] or face the consequences."

BBC News.
Ou seja, face à confissão de não se conseguir garantir a Segurança e a Justiça por meios legítimos, criam-se autênticos tribunais plenários populares, ainda mais secundados, como se refere acima, por juízos de probabilidade, com poder para sancionar e restringir a liberdade de cidadãos. Premeia-se e alicia-se com dinheiro público comunidades que "mostrem serviço". Institucionaliza-se o vigilantismo, e abre-se uma Caixa de Pandora de onde poderão correr todos os instintos mais perversos das comunidades, desde o racismo à intromissão na privacidade dos vizinhos.

Estas pessoas estão a endoidecer? Estão a atirar pelo ralo todos os conceitos de Liberdade e de Estado de Direito por que lutaram, e que presidem aos sistemas jurídicos da generalidade dos países civilizados?

2007/01/21

Comam brioche

Uma mulher que decida, por sua escolha, fazer um aborto não vai necessariamente passar à frente de ninguém nos cuidados de saúde, isto por várias razões, entre as quais:

- em países com leis não restritivas, há uma elevada percentagem de mulheres que opta pelo aborto médico, que envolve apenas a toma de dois comprimidos, mifepristona e misoprostol, e uma consulta, oito dias mais tarde, para exame ginecológico ou ecografia;

- as IVGs por método cirúrgico não irão fazer aumentar as listas de espera, já que serão geralmente realizadas por ginecologistas-obstetras, em serviço próprio. As cirurgias que actualmente têm uma maior lista de espera são as de oftalmologia e ortopedia, por exemplo, e estas especialidades claramente não se vão dedicar à realização de IVGs.

Médicos Pela Escolha, via Esquerda Republicana.
Ficamos a saber, via estes prestáveis profissionais da Saúde, que tudo vai continuar bem no SNS se o aborto for liberalizado pelo próximo referendo. Afinal, toda a gente sabe que qualquer utente do SNS consegue marcar uma consulta de ginecologia ou uma ecografia com oito dias de antecedência. Os recursos já existentes para prestar esses serviços são elásticos para tomarem conta de mais uns, e como tal ninguém vai esperar mais tempo.

Além de que os abortos cirúrgicos não vão interferir com as listas de espera, colonizadas pela oftalmologia e pela ortopedia. Afinal, o aborto cirúrgico nem sequer precisa de anestesistas, enfermeiros, capacidade de internamento (adicional mesmo nos serviços de ginecologia/obstetrícia, uma vez que passam a ter que responder a uma nova valência que não tinham) e de ocupação do piso operatório, coisa que, como os excelentíssimos "profissionais" sabem, nem sequer são recursos partilhados com a "oftalmologia e ortopedia", nem que sequer fazem falta para as outras valências cirúrgicas.

2007/01/19

Cidadania de primeira e de segunda II

A procuradora-geral adjunta Maria José Morgado participou esta semana numa conferência organizada pelo grupo parlamentar do PS intitulada "Sim à Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG).

Num requerimento entregue ontem na Assembleia da República, Paulo Portas questiona o procurador-geral da república sobre se essa participação viola o estatuto dos magistrados do Ministério Público, que impõe a defesa da legalidade e impede os magistrados de participar em actividades político-partidárias de carácter público.

[...]

"O que o estatuto refere é o impedimento de participação em actividades político-partidárias. Não é do que se trata, mas de participação cívica numa conferência do grupo parlamentar. O grupo parlamentar não é um partido político", justifica Alberto Martins.

[...]

Alberto Martins sublinhou que a participação de Maria José Morgado — tal como a da juíza do Tribunal Constitucional Maria Fernanda Palma — aconteceu "no exercício dos seus legítimos direitos de participação cívica".

Questionado sobre esta justificação, o ex-líder do CDS-PP Paulo Portas contrapôs que, no anúncio ao colóquio, Maria José Morgado foi apresentada na sua qualidade de procuradora-geral adjunta.

Público Última Hora.
No seguimento do que já por aqui havia referido, a participação da procuradora-geral adjunta Maria José Morgado numa iniciativa de apoio ao Sim do grupo parlamentar do PS vai gerando as suas consequências. Aparentemente, quando a causa está certa, todos passam rapidamente a exercer "direitos de participação cívica".

Mas, reitero, para além da preocupação expressa por Paulo Portas em relação ao cumprimento do estatuto dos magistrados do Ministério Público, fica também a dúvida enunciada no meu outro artigo sobre a violação da Lei Orgânica do Regime do Referendo, cujo artigo em causa reproduzo:
Artigo 206º
Abuso de funções
O cidadão investido de poder público, o funcionário ou agente do Estado ou de outra pessoa colectiva pública e o ministro de qualquer culto que se sirvam abusivamente das funções ou do cargo para constranger ou induzir eleitores a votar ou a deixar de votar em determinado sentido são punidos com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa até 240 dias.
Ora, não terá a senhora magistrada, apresentada como detentora desse cargo investido de poder público, tentado induzir os eleitores a votar Sim no próximo referendo?

PS: Vai-te embora ó melga

O deputado socialista João Cravinho anunciou hoje que irá entregar no Parlamento dois projectos de lei em matéria de corrupção, mas o grupo parlamentar já garantiu que não os irá agendar por considerá-los “não adequados nem consistentes”.

[...]

No início do mês soube-se que João Cravinho vai renunciar ao mandato de deputado do PS na Assembleia da República, para ser administrador do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), em Londres.

Público Última Hora.
Entradas de leão, saidas de sendeiro. Para longe e bem pago.

Piratas lusos

A direcção do PÚBLICO divulgou hoje uma nota da direcção em que delibera sobre o caso desencadeado pela crónica do provedor do leitor "Uma forma de plágio", publicada em 7 de Janeiro de 2007.

[...]

A direcção considerou ainda que a jornalista "errou ao não identificar claramente (...) a fonte usada na caixa 'Os efeitos de UVA e UVB'" e ao usar a Wikipedia como fonte – ainda que sublinhe que a recolha de informação factual em obras de referência idóneas é uma prática recomendada, desde que se faça a devida identificação da fonte.


[...]

A nota de direcção considera suficiente como sanção da jornalista a publicidade dada a esta decisão e compromete-se a "actualizar, aprofundar e explicitar" os princípios e procedimentos relativos ao recurso a fontes escritas, às formas de citação e às assinaturas dos textos.

Público Última Hora.
Aparentemente a direcção do Público é simpática, e a sua jornalista vai para casa com um "tau-tau" e com uma "suficiente" publicidade negativa.

Só que há uma coisa que essa direcção se "esquece": os conteúdos da Wikipedia não são conteúdos em domínio público. São abrangidos por uma licença (Wikipedia em inglês e em português) que atribui direitos e obrigações aos reutilizadores dos seus conteúdos, nomeadamente aqueles que criem produtos derivados. Em última instância estão abrangidos por direito de autor, como todas as obras o estão, de forma automática. Ora, claramente, as obrigações estabelecidas não foram acauteladas, acontecendo que, basicamente, o Público fez distribuição comercial de conteúdos não autorizados, incorrendo num crime económico que, fossem outras as origens, como a propalada guerra contra a "pirataria" de conteúdos como música ou filmes, já teriam merecido sem dúvida uma resposta musculada do nosso estado, que nos últimos tempos se tem demonstrado particularmente interventivo na área.

Ficamos portanto a aguardar a intervenção da IGAC ou das outras autoridades competentes. É que "pirataria", ainda mais com intuitos comerciais, não deve, ao que parece, escapar assim impune.

Adenda: artigo corrigido, substituindo a ASAE pela IGAC.

2007/01/18

O jogo do NÃO

A maioria dos portugueses é a favor da despenalização do aborto. A maioria dos portugueses considera o aborto imoral (mesmo aquelas que já o fizeram ou aqueles que o incentivaram).
Para o SIM, importa que passe a ideia certa, ou seja, que o referendo é sobre a despenalização do aborto. Para o NÃO, importa que passe a ideia de que o referendo é à moralidade do aborto. Quando o SIM insiste em discutir a moralidade do aborto está a fazer o jogo do NÃO. Foi o que fizeram em 98.

Mão-de-obra barata

Via A Ilusão da Visão, tomo conhecimento de que na Alemanha existe uma empresa que aluga manifestantes por 30€. Eis um negócio que em Portugal seria pouco rentável. Por cá, uma viagem a Lisboa e umas sandes ao almoço bastam para convencer 50 mil a participar nas manifestações dos sindicatos.

2007/01/17

A ler

Dado que o eleitor só pode responder "sim" ou "não" àquilo que lhe perguntam e dado que a pergunta foi criteriosamente concebida de forma a não dar muito espaço de manobra ao eleitor é natural que o eleitor procure encontrar formas de responder à pergunta que, não correspondendo exactamente à sua opinião, correspondem aos seus objectivos políticos.


É sabido que as condições políticas do país favorecem a liberalização do aborto mais década menos década. É sabido que se o "NÃO" ganhar, a vontade expressa pelos eleitores do "Não" será ignorada (o aborto será crime no papel, mas não na prática) e o referendo voltará a ser repetido mais cedo ou mais tarde. É sabido que se o "SIM" ganhar ganhará não apenas a ideia de despenalização do aborto mas também toda a ideologia de esquerda que tem investido políticamente nesta questão. É ainda sabido que após uma vitória do SIM ficarão muitas questões em aberto, tais como o financiamento público do aborto, que não foram sujeitas a referendo nem nunca vão ser. É sabido que o actual governo é socialista e que muitos socialistas vêm o aborto como uma questão de saúde pública e são a favor do aborto financiado pelo Serviço Nacional de Saúde. É sabido que este governo tem condições políticas para ficar por cá até 2013. É sabido que os direitos adquiridos raramente são revertidos. É sabido que se o SIM ganhar o eleitor dificilmente terá outra oportunidade de influenciar a política sobre o aborto, mas se o NÃO ganhar a questão voltará a ser colocada (votar no NÃO é votar num adiamento, votar no SIM é votar num desfecho irreversível).
Voto táctico no referendo ao aborto, por João Miranda, no Blasfémias.

Cidadania de primeira e de segunda

O meu caro CAA, na sua cruzada em prol da laicidade e da secularização do estado, que em grande parte subscrevo e apoio, cai ocasionalmente nalguns excessos que, se bem que naturalmente bem intencionados, não posso deixar de comentar e criticar. A lei em causa tinha já sido comentada por outras paragens, associada um caso concreto, e já tinha merecido a minha atenção no sentido de dizer o que penso sobre o assunto.

Mais uma vez, acho que se trilha nesse género de atitudes e de discursos o caminho perigoso do laicismo. Duvido até (não sou jurista) da constitucionalidade da lei referida, relativamente às limitações claras que faz à liberdade de expressão e de religião. Questiono-me também onde terá o CAA tirado de sua justiça relativamente a esta só se aplicar no período oficial de campanha, e não em toda o período que medeia a marcação do referendo e a própria realização do mesmo.

Mas, para além da letra da lei, fica o problema em concreto que esta tenta abordar.

Quanto a mim, uma coisa é um detentor de um cargo público, ou um gestor do erário público, usar no exercício das suas competências o seu poder público ou dinheiro dos contribuíntes para apelar ao voto numa determinada direcção num referendo. Ou se um ministro, deputado ou outro funcionário do estado se deslocasse em viaturas do estado, retirasse tempo do seu mandato ou usasse indevidamente de despesas de representação para fazer campanha. Assim como seria sancionável que um autarca chantageasse os eleitores da sua área de influência no sentido que votassem em determinada direcção contra a ameaça de, no exercício das suas funções e com os recursos públicos ao seu alcance, fazer isto ou aquilo.

Outra completamente diferente é proibir um sacerdote religioso, no exercício da sua liberdade de expressão, em local público (ou mesmo em muitos caso privado) e para uma assembleia que não está coagida e que participa desse acto de livre e esclusiva vontade, de dizer o que bem lhe entenda, e fazer os apelos que ache mais convenientes, ainda mais (para simplificar a questão), quando não configuram quaisquer ilegalidades. Um sacerdote, antes de qualquer outra coisa, é um cidadão como todos os outros. Não é um castrado social. Goza dos mesmos direitos e liberdades que todos os outros, e não deve pelo facto de ser uma pessoa com funções perante uma determinada comunidade religiosa (mais uma vez, formada livremente) que deva perdê-los ou vê-los constrangidos. Afinal, aos olhos de um estado que se quer laico e secular, as religiões organizadas não deverão ter um tratamento do estado diferente de quaisquer outras associações da "sociedade civil". Ninguém defenderia que uma associação, numa sua assembleia (mesmo que aberta a não associados), fosse limitada em relação ao que poderia ou não dizer. Porque é que se defende este estatuto de excepção para as religiões? Não será isso, afinal, um contra-senso (pela negativa) de um estado laico?

Já agora, em jeito de conclusão, erguem-se duas questões. A primeira é de que a própria necessidade de a lei ser interpretada, pode conduzir a "abusos" imprevisíveis: será que um funcionário público pode colar um autocolante a apelar ao voto numa determinada direcção num utente durante o expediente? A segunda, mais provocatória, é se a senhora procuradora-geral adjunta Maria José Morgado, cidadã investida de poder público, não escusando estar a fazer afirmações noutra qualidade, não terá violado a mesma lei no dia de hoje, em plena Assembleia da República.

Uma notícia que não abrirá noticiários na Europa

In what might be called the mother of all surprises, Iraq's economy is growing strong, even booming in places.
It may sound unreal, given the daily images of carnage and chaos. But for a certain plucky breed of businessmen, there's good money to be made in Iraq. Consider Iraqna, the leading mobile-phone company. For sure, its quarterly reports seldom make for dull reading. Despite employees kidnapped, cell-phone towers bombed, storefronts shot up and a huge security budget—up to four guards for each employee—the company posted revenues of $333 million in 2005. This year, it's on track to take in $520 million. The U.S. State Department reports that there are now 7.1 million mobile-phone subscribers in Iraq, up from just 1.4 million two years ago.

Via Abrupto

O reverso da medalha

Os apoiantes do NÃO também não sabem distinguir entre argumentos pró e contra despenalização do aborto e argumentos pró e contra aborto. Não é o mesmo argumentar que o feto já é uma vida às 10 semanas, e por isso deve ser protegido juridicamente, e defender que o aborto tem consequências psicológicas em quem o pratica. Não é o mesmo argumentar que o feto já é uma vida às 10 semanas, e por isso deve ser protegido juridicamente, e defender que o aborto impedirá o nascimento de génios da informática. É o reverso da medalha daqueles que argumentam que o aborto deve ser despenalizado porque a prática do aborto ajuda a diminuír as taxas de criminalidade, como se pode vêr pelas caixas de comentários.

Já que mais ninguém o diz...

Houve três falhas monumentais entre os 100 grandes portugueses:




2007/01/16

O mito da segurança

The data center was about 5 floors below ground level. No form of wireless communications worked whatsoever--cell phones, pagers, etc. Once I parked my car, I had to go to an unlabeled metal door with a tiny camera on the top. Security guards would buzz me in and require me to sign in at their station. Then I would get buzzed in to the main data center room that contained another room inside of it. From there, I had to enter a password into another security system and place my palm on a palm scanner. Inside this room was another security guard--I would have to sign in with them, too. Then I would enter a different password into another security system, and place my head in front of this retinal scanner. This would buzz me into another room with the cages for each of the clients. There was a padlock on the cage, behind which were our servers. The servers required two separate smart IDs to be placed into an external card reader so that there had to be at least 2 people there to perform any maintenance. The servers themselves were locked down pretty tightly, too. It all seemed pretty insane as far as security goes, but I understood--these computers contained every credit card for the credit card issuer.

Ler o resto do comentário do Slashdot, via blog do Bruce Schneier.
A ler por todos, mas principalmente pelos crentes na segurança das bases de dados detidas pelo estado, e noutros maiores ou menores devaneios securitários.