2006/09/20

No caso de se tratar do Irão, ou de Cuba, ou da ex-Urss, ou da Venezuela, não tenho bem a certeza se a estória seria exactamente assim.

Num curioso detalhe da história, neste caso da mais imponente prova internacional de golfe (filme oficial em reposição na sport tv), Jack Nicklaus, uma das maiores lendas americanas da modalidade, teve uma pequena mas decisiva intervenção, que, possivelmente, salvou o formato do torneio.

Qual? Propôs o alargamento à toda a europa da equipa britânica.
Para quê? Para aumentar a competitividade da prova.

Após largos anos de domínio completo da modalidade, alguns seres pensantes do lado de lá do atlântico equacionaram seriamente a possibilidade de abdicar do poder reinante, em nome do prestígio, da evolução e da solvência do golfe.

Na mouche

O sentimento geral da sociedade portuguesa perante o seu sistema de justiça tem evoluído. Começou com incompreensão, passou pela incredulidade e acabou na descrença absoluta.

É aqui que, porventura, o Estado menos se dá ao respeito.

Por isso, e com todo o respeito, o pacto entre PS e PSD é para desrespeitar. Porque são estes dois partidos, e não outros, os arquitectos deste verdadeiro horror democrático. Este "monstro" que o nosso sistema democrático foi criando, foi alimentando e que, pelos vistos, agora se vê incapaz de controlar.


Não há como dar a volta a este engulho. No tempo do capital voador, não há economia que resista a uma justiça que não funciona.

P.S.: Provavelmente, na opinião do CSM, o contágio dos magistrados envolvidos no chutebol já produziu metástases incuráveis.

2006/09/19

Comentário tardio

No último sábado não deixei de comprar o novo semanário Sol. A princípio a ideia era compara-lo com o o Expresso, mas depois de passar por alguns quiosques percebi que o Expresso já não está disponível em venda livre: agora é distribuído gratuitamente com uns DVD baratos. Do Sol ficou um registo sensacionalista na primeira edição que não augura nada de bom. No jornal nada de interessante, na revista uma história com 34 anos. O Sol é fraco, mas como o Expresso já não é um jornal, posso dizer que ganhou na minha comparação. É a chamada vitória por meio-a-zero.

Razões para acreditar no sucesso do diálogo



Chavez and Ahmadinejad cement their alliance.

Belarus Lukashenko Meets Iran’s Ahmadinejad in Havana.

Fidel Castro Converses with Hugo Chavez and Evo Morales.

P.S.: Quiz multicultural/alterglobalizador: Como é que dois ditadores combatem um "poder hegemónico"?

Teoria de la conspiracion, por supuesto

O Islão - o "moderno" como o "antigo", o "laico" como o fundamentalista - não oferece maturidade, maleabilidade e respeitabilidade para aceitar o princípio do contraditório.

A avaliar pelas notícias, ninguém suporia tal coisa.

educação?

Em tempos, ficou-se com a impressão que a ministra da educação, no momento presente, em ameno debate onanista, comandava um team que não discutia, anunciava, corrigia, alterava sem dar cavaco a ninguém.
As reuniões com tudo já definido, as negociações só para transmitir as decisões, o discurso violento e desculpabilizador do estado centralista, o ónus do fracasso nas mãos dos professores que não faziam absolutamente nada.

Pela amostra do que se ouviu há pouco, já só falta a referência ao facto de estarmos perante o maior vulto educativo do país, no mínimo desde o tempo da revolta liberal.

Depois do DN, a RTP demonstra uma clara evolução na capacidade de transmitir os recados do patrão.

P.S.1: Para quem quiser ouvir o senhor do sindicato a mendigar uns trocos em directo, ainda vai a tempo de sintonizar canal em causa.

P.S.2: Basta falar um pouco mais em autonomia administrativa, e acorrem logo os famintos órgãos de gestão educativa, em pleno desenvolvolvimento de técnicas avançadas de lambebotismo e hipocrisia funconal.

2006/09/18

Com solidários deste calibre, é preferível viver rodeado de egoistas.

"Seria bom que os moradores não agissem como marginais, com comportamentos que estamos mais habituados a ver em bairros periféricos e de barracas"
Defensor Moura, Socialista

Lido n'A Aurora do Lima, a propósito do já desenvolvido caso "Prédio Coutinho", depois de um magnífico fim de semana minhoto.

Na verdade, pensávamos que a construção de bairros periféricos era uma "conquista social".
Na verdade, pensávamos que as barracas eram um "flagelo social" que retira dignidade e condições de existência a seres humanos tocados pela infelicidade.

Modelo nórdico




Sweden's centre-right opposition bloc has defeated the ruling Social Democrat party in the country's closest-fought general election for decades.

Moderate party leader Fredrik Reinfeldt declared victory as near-complete results gave him a 1% lead.

Mr Reinfeldt, who had promised to cut taxes and reform Sweden's cradle-to-grave welfare state, took to the stage in front of supporters with his arms raised.


Eu diria que está na hora dos grandes defensores do modelo de desenvolvimento nórdico sairem do armário.

2006/09/16

Totalitarismo empresarial - o caso dos fumadores

O Dolo Eventual tem estado há meses a consolar fumadores com classe e simpatia. Temo é que sem sucesso...

Lê-se na Dia D que há 3 empresas nacionais que se recusam a contratar fumadores. Algumas outras empresas utilizam o critério tabágico na escolha entre concorrentes iguais. Finalmente, muitas outras subsidiam programas de desintoxição aos seus trabalhadores com menor ou maior sucesso. Lendo a reportagem, parece haver razões para crer que o trabalhador-fumador seja ou venha a ser no futuro uma espécie em vias de extinção.

Ainda segundo os argumentos aventados pelas empresas, as razões para a sanha persecutória prendem-se com a suposta menor produtividade dos trabalhadores, mas também com a misteriosa ideia de que os fumadores contribuem para um mau ambiente de trabalho.
Quanto à primeira, não é difícil perceber que o pouco tempo perdido a fumar poderá perfeitamente ser compensado em tempo-extra ao serviço da empresa, sem aumento da remuneração.
Quanto à segunda, as razões vão mais fundo e terão que ver com o facto de a ideia da "empresa como família" estar a fazer rapidamente o seu caminho nas principais empresas sediadas em Portugal. Está hoje na forja um novo totalitarismo empresarial, de acordo com o qual os trabalhadores, não têm apenas que trabalhar bem, mas ser bons colegas e boas pessoas. Têm de oferecer prendas de aniversário aos colegas e ao patrão, têm de participar nos desportos disponibilizados pela empresa, têm ainda de frequentar as festas organizadas pela mesma ou de ajudar nos programas de apoio a pessoas carenciadas que a empresa utiliza para promover a sua imagem. Qualquer dissidência, neste sentido, poderá ter repercussões óbvias na carreira do trabalhador. Logo, o trabalhador come e cala: faz o frete com boa cara, mesmo que ele não conste do seu contrato de trabalho.
É assim que funciona: a empresa é propriedade do empresário e ele faz o que bem entende; quem não está de acordo pode denunciar o contrato ou será lentamente empurrado até à porta de saída.

A lei não pode, nem deve ajudar. Decerto que é proibida a discriminação publicitada de fumadores por empresas privadas. Mas só um empresário bronco é que revelará os motivos da preterição. Por outro lado, mesmo que o trabalhador fumador seja contratado, o empresário poderá usar o período experimental para despedi-lo sem necessidade de aviso prévio, sem necessidade de justificar o despedimento e sem necessidade de indemnizar. Não é, pois, minimamente crível que se possa atacar juridicamente este tipo de discriminações. E apesar de a Constituição querer aplicar o princípio da igualdade a tudo quanto mexe, a verdade é que a liberdade contratual deve permanecer o menos restrita possível, pelo que qualquer solução jurídica da questão seria sempre má de um ponto de vista liberal (cf. este meu post).

Dito isto, a solução poderia ser outra: numa sociedade civil forte, os fumadores podem juntar-se e constituir eles próprios um forte grupo de pressão. Podem, por exemplo, encher de hate-mail as ditas empresas que se recusam a contratar fumadores ou, pura e simplesmente, boicotar os seus produtos. Há várias maneiras de embaraçar este tipo de intolerância até ao ponto em que se torne a um empresário, e em termos de gestão, irracional persistir com a discriminação.

Isto, claro está, é wishful thinking meu.

Não temos essa tradição activista em Portugal. Por cá, a tradição é comer e calar.

Ps: as três empresas que, por princípio, excluem fumadores são estas: Eurodiver (produção de espectáculos), Elipse (importação/exportação) e Aofimdodia (Design E Publicidade).

2006/09/14

Órgãos de soberania ou funcionários públicos?

Leia-se este post da GLQL.

Concordo com o José, autor do post: também eu gostaria de ler a resposta do VM, autor do Causa Nossa, ao VM, co-autor da Constituição anotada. Para saber em que é que ficamos...

Imitando Carolina Salgado

Mulheres de membros de gangs na Colômbia fazem greve de sexo

BOGOTA, Colombia, Sept 12 (Reuters) - They are calling it the "crossed legs" strike.

Fretting over crime and violence, girlfriends and wives of gang members in the Colombian city of Pereira have called a ban on sex to persuade their menfolk to give up the gun.

After meeting with the mayor's office to discuss a disarmament program, a group of women decided to deny their partners their conjugal rights and recorded a song for local radio to urge others to follow their example.

Fonte: Reuters

Trabalho político



Os próximos dias avizinham-se de árduo e extenuante trabalho político puro e duro. A meditação no estado do liberalismo em Portugal exige momentos de introspecção, enquadrados numa conduta asceta de rigor e frugalidade.

As provações poderão ser grandes. Quaisquer resquícios de boaventurismo poderão espreitar e tentar tomar de assalto a cada esquina. A própria natureza, no seu estado mais elementar poderá a qualquer momento tentar-nos arrastar para o caos hobbesiano, ou pior, convencer-nos a alistar no PCC.

Mas há esperança. A carne não é fraca e os acompanhamentos são à altura.

Nesta hora difícil, fica um braço aos restantes small brothers e aos leitores.

Até ao meu regresso, a chafarica fica muito bem entregue.

CSM e a bola

Aqui há tempos, o JLP criticava a suposta conivência do Conselho Superior de Magistratura com a participação de juízes nos órgãos de justiça desportiva da Liga e da Federação. Na altura, concordei, obviamente com a crítica. Nada faz pior à imagem da Justiça que a presença de juízes no meio do lodaçal ou do "sistema" como outros caridosamente lhe chamam. E também não é de duvidar que o CSM não possa assistir impávido enquanto comportamentos, no mínimo, dúbios de juízes membros dos órgãos disciplinares da Liga e da Federação pôem em causa a imagem de todos os seus pares e, mais importante, da Justiça.
Dito isto, uma notícia do JN desmente, a imagem que transparece cá para fora do comportamento do CSM nesta matéria.
Não só o CSM quis, sem êxito, alterar o Estatuto dos Magistrados Judiciais, no sentido de a proibir, como tem, ao longo dos anos, recomendado aos juízes que se afastem do meio futebolístico. E até quer tentar, outra vez, alterar a lei no sentido proibicionista.
O problema - diz a notícia do JN - é que a anterior proposta de alteração da lei foi considerada inconstitucional, o que não comentarei porque não conheço o acórdão.
Posso, no entanto, perguntar: será que, caso a proposta do CSM vá em frente, o TC se oporá à mesma? Tenho dúvidas. Certamente a situação actual do futebol e sua consequente repercussão na imagem da Justiça não deixará de ter alguma influência no juízo dos magistrados do TC. O TC, bem ou mal, é um tribunal politizado que atribui muita importância ao contexto social e político em que as questões constitucionais surgem.
Dito isto, falta a acção disciplinar sobre os juízes envolvidos no caso Mateus. Sobre isso, vale a pena ler este artigo de José Manuel Meirim. Quer se queira, quer não, o CSM não se livra da fama de corporativismo por não investigar quem actua de forma tão duvidosa.

2006/09/13

Critérios confessionais

Uma das minhas consultas blogárias frequentes tem por hábito, entre outros, zurzir nas homilías semanais de um excelente economista, entretanto dedicado a lides supra-terrenas com bastante mais afinco.

Calculei que, desta vez, tal a inenarrável intervenção de um senhor dito intelectual muçulmano, muito bem desmascarada e escalpelizada na livre blogosfera, haveria motivo para uma clara inflexão de prioridades.

Ingenuidade por certo. Não só não se relevou a idiótica referência à condição islamo-feminina, como se destacaram, apenas e só, algumas referências de Pacheco Pereira ao “suposto” laicismo da sociedade americana.

Como se a óbvia patetice totalitária e comportamental (desta vez adida ao inovador discurso conspiracionista) do referido senhor não fosse um espelho claro das dificuldades e apertos que todos os cidadãos sentem em locais onde não podem expressar os seus pensamentos e a sua diversidade estética, esses sim, bem reveladores das amarras da religiosidade que cega, impõe e tortura.

Por muito que não se ajuste ao discurso libertador da causa, o facto é que, na sociedade ocidental, podemos tranquilamente ocupar diversos dias nas mais fúteis e perversas actividades sem distinguirmos o mais pequeno visumbre de confessionismo catolicista
(ao contrário, ironicamente, esbarramo-nos, em toda e qualquer esquina, com o legislacionismo paranóico dessa seita inexpugnável, chamada estado socialista).

Calculo, evidentemente, que não existe nenhum branqueamento de tais posturas.
Mas se o objectivo da associação era, primordialmente, curar os traumas da catequese, mais valia ter investido tempo e dinheiro na indústria farmacêutica.

A vêr se arranjo um tacho como provedor do leitor

A revista Atlântico, concorde-se ou não com o conteúdo, voltou aos seus bons tempos. Gostei muito das conversas Atlânticas, o artigo do JMA e do FCG. O artigo do AMN dispensava o paternalismo da introdução e o brilhantismo de Duarte Padez, maradona e Henrique Raposo justificariam, per si, os 4 euros da revista.
Mas o meu maior destaque vai para o artigo de Joaquim Luíz Gomes, uma pessoa prestes a ficar milionária no mercado de futuros tal é a certeza com que prevê que o preço do petróleo irá atingir os 200 dólares por barril. Ele está tão certo desta subida que passa o artigo inteiro a incitar ao investimento num novo sistema energético que substitua o actual. Só se esquece de mencionar que ele próprio se prepara para o fazer. Com um retorno esperado tão grande, ele, intitulado no cabeçalho do artigo como cidadão empresário, certamente não perderá esta oportunidade. Fico à espera de novidades.
Finalmente destaco o anúncio publicitário do Millennium BCP na página 29. É um anúncio publicitário em que predominam as cores do banco, ressalta uma imagem bonita e uma mensagem clara do ponto de vista publicitário. É um anúncio bem mais eficaz, e certamente mais barato, do que o da TAP nas páginas 60 e 61. Até nestes aspectos se mede a eficiência na gestão de empresas públicas e privadas. Com a quantidade de texto desse anúncio, um leitor mais desatento julgaria ser um artigo a sério. Mas justiça seja feita, a TAP pode ser uma péssima prestadora de serviços e uma sugadora de recursos mas deve albergar alguns dos melhores poetas do país senão atente-se a esta passagem do artigo anúncio:

Uma companhia aérea nacional transporta pelo Mundo as cores do seu país, a alma do seu povo e as asas da sua ambição. Fruto do passado histórico de Portugal e do seu império, que pelo Mundo deixou raízes, a TAP transporta os portugueses, transporta aqueles que vivendo no estrangeiro ainda o são ou descendem de portugueses e transporta também aqueles que, pelas mais diversas razões, procuram Portugal. O alicerce profundo da TAP, a sua razão de existência e, por isso, o seu desafio empresarial assentam na cultura portuguesa. Nessa medida, não será por demais concluír que a TAP precisa do país mas que, por seu lado, o país também precisa da TAP.
Quase consigo ouvir os Vangelis em fundo...

Apelo à reflexão III

Desde o 11 de Setembro que não há ataques terroristas aos EUA.

Apelo à reflexão II

Morrem 3 americanos por dia na luta contra o terrorismo. Apenas em 11 de Setembro de 2001 morreram 2973.

Festival cómico-trágico

Tinha logo à partida pouca esperança no debate de ontem do Prós&Contras sobre o 11 de Setembro. A emocionalidade do tema, a falta de distanciamento como vítima óbvia da oportunidade acrescida de o debate ser feito na data, e a quase impraticabilidade notória de discutir o assunto com racionalidade e calma em público prometiam o pior. Os protagonistas do debate também não prometiam muito.

De qualquer modo, comecei a ver. Foi triste. A prestação de Mario Soares está, sem dúvida, há muito longe dos seus tempos de brilhantismo tribunício. A arrogância, permanentemente demonstrada pelo tom de sobranceria moral e histórica, e por uma tentativa permanente de subalternizar Pacheco Pereira, fizeram notar com clareza que Mario Soares não aprendeu nada durante a trágica espiral descendente que foi o seu desempenho durante a última campanha presidencial. A forma quase infantil como mordeu o isco de todas as armadilhas argumentativas que lhe eram servidas de bandeja assumiu proporções quase confrangedoras em alguns momentos. Um Pacheco Pereira particularmente inspirado conquistou vitória argumentativa sobre vitória argumentativa, diga-se de passagem, com aparente facilidade.

Coadjuvado por uma inenarrável participação do "intelectual da comunidade islâmica", de New York Times e Le Monde diplomatique em punho (não há uma tradução portuguesa do Corão anterior à dessesenhor?), a discussão rapidamente morreu. Perante a subtileza e a sagacidade argumentativa de Pacheco Pereira (o "toque" a Mario Soares sobre a negociação com os terroristas, fazendo a comparação com as negociações feitas com os movimentos independentistas das ex-colónias portuguesas foi de mestre!), o outro lado simplesmente se ficou por uma falta de comparência.

Aos que acompanham o que penso e ocasionalmente escrevo sobre o assunto, só afianço que a minha posição não é nem a de Pacheco Pereira nem a de Mario Soares. Mas face ao que se viu, só se pode esperar que alguém com dois palmos de testa e com alguma seriedade argumentativa não tenha dúvidas em, contrapostos os argumentos, alinhar com Pacheco Pereira.

Com muita pena minha, por ainda não ter sido desta vez que vi o tema ser discutido com o distanciamento e a razão que as questões internacionais exigem.

2006/09/12

Apelo à reflexão

Desde 9 de Setembro, o total de mortos americanos no Iraque suplantou o número de vítimas do 11 de Setembro.

(Via BoingBoing.)

Ó tempo, volta pra trás!

"Eu já ando a dizer há cinco anos que Blair é um bluff."

Por seu lado, Mário Soares (citado do debate de ontem), enquanto primeiro-ministro, é genericamente reconhecido como o melhor gestor que alguma vez pisou solo lusitano, só superado pelo sua inigualável prestação na pasta dos negócios estrangeiros.

Vá-se lá compreendê-los.

No caso de José Veiga, e ao contrário da toda a escória dirigento-desportiva, a coerência é uma virtude reconhecida e aplicada.
Era conhecida a sua predilecção por desafios de futebol em paragens exóticas, mesmo com o eventual prejuízo relacionado com o aumento da distância a sua casa.
Surpreende, portanto, que o senhor tenha sido escutado a tentar poupar uns trocos em subsídios de transporte, numa outra profissão que anteriormente exerceu.
Seria de calcular que, pertencendo a essa emblemática escola de virtudes que representa 6 milhões de indígenas, esse escasso bem estivesse a ser devidamente preservado.

Usar a cabecinha

Estima-se que o QI de Bush seja 20 pontos mais baixo do que o do seu predecessor, Bill Clinton, o que criou um efeito de contraste, que salientou as fraquezas do actual chefe do governo.

2006/09/11

Até à próxima conspiração

Agora que a efeméride já foi discutida e dissecada até ao tutano, fico impacientemente à espera das teorias conspirativas que expliquem a verdade sobre os atentados de Madrid e das chocantes revelações sobre os verdadeiros culpados das explosões ocorridas em Londres.
Fico à espera que engenheiros me expliquem que os comboios em Atocha teriam ficado em posições diferentes se os explosivos fossem de fabrico muçulmano e que agentes reformados da Scotland Yard revelem documentos que provem que Blair avisou os amigos para não apanharem o metro naquela manhã.

É que já passaram muitos meses e ainda não vi nada. Depois admirem-se que se diga que só nos EUA é que se faz boa ficção.

Resposta a um comentário do Hugo Oliveira

No post anterior, defendi a tese de que os conservadores defenderiam um tipo de liberalismo diferente daquele que maior parte dos liberais da blogosfera assume defender. Daí que o aparente convívio entre liberais e conservadores me pareça resultar de um engano involuntário que rasura as diferenças políticas entre as duas tendências, quando não resulte, como em alguns casos (revista Atlântico ou o recente discurso do PND), de uma estratégia política comum.

1. Assim, por exemplo, o Hugo Oliveira, a propósito das críticas do Carlos e do JLP ao artigo de MFM sobre os Morangos com Açúcar, diz isto: "O indeferentismo, cultural ou moral, que eu saiba, não é uma característica do liberalismo". E tem razão, mas não no sentido em que pensa que a tem. A verdade é que os liberais, como tantas outras pessoas, querem viver numa sociedade de gente culta, inteligente, trabalhadora e honesta. Simplesmente, não admitem que tal desiderato seja conseguido à custa da liberdade dos indíviduos, fazendo tábua rasa do princípio da neutralidade, segundo o qual o Estado não pode impôr uma moral particular à sociedade e reprimir modos diferentes de encarar ou de viver a vida. Lutar contra o Morangos com Açúcar ou contra outras imbecilidades do género poderá ser um objectivo de segmento da sociedade civil, que tem meios para se fazer ouvir e convencer o resto da população de que se deve acabar com programas do género. Mas enquanto tais manifestações de imbecilidade forem populares e lucrativas, cabe aos pais educarem as suas crianças no sentido de elas não se renderem a programas como o Morangos.

2. O conceito de liberdade negativa explica-se brevemente com a frase estafada de que a liberdade de uns acaba quando a dos outros começa. Simplesmente, há que ter em conta que a liberdade negativa não é um conceito operacional em direito. Os direitos têm de ter um conteúdo preciso e, por isso, o direito à vida, o direito à liberdade e o direito de propriedade exemplificam formas protegidas de liberdade. É na medida em que o exercício desses direitos conflitua com o exercício dos mesmos direitos por terceiros, que cabe ao Estado regular tais conflitos e, eventualmente, sancionar aquele que viola os direitos de outrém. O princípio do dano de Mill diz isto da perspectiva do Estado: o Estado só pode restringir a liberdade dos indivíduos quando o exercício da mesma cause danos a terceiros. O próprio Mill reconhece excepções ao princípio em causa: as crianças, por exemplo, têm de ver a sua liberdade restringida como forma de poderem ser protegidas da sua falta de autonomia. O que me leva a considerar que os liberais não podem apenas fazer uso de um conceito de liberdade enquanto livre-arbítrio, mas têm também de reconhecer um conceito de liberdade enquanto autonomia, que permita explicar o tratamento diferenciado que as crianças (e, eventualmente, os velhos ou doentes) mereçam. Assim se abre a porta à admissibilidade em certos casos de políticas que promovam as liberdades positivas de certos grupos; pelo menos, do grupo das crianças. A diferença entre o liberalismo clássico e o liberalismo moderno de Rawls e de Dworkin reside aqui. Mas estamos perante uma diferença subtil: trata-se apenas de saber que restrições à liberdade são admissíveis e quais é que não são. Os liberais puros dirão que as liberdades negativas só podem ser restringidas por outras liberdades negativas; os liberais moderados admitirão que algumas liberdades negativas possam ser, em casos contados, restringidas por algumas liberdades positivas.
O que é certo e sabido é que ambas as correntes liberais defendem o princípio da neutralidade, impedindo este as tais políticas moralistas que conservadores como MFM defendem. Nesse sentido, não concordo com o Hugo Oliveira, quando diz que a liberdade está sujeita a restrições resultantes do sentimento generalizado das pessoas. Porque vivemos em sociedades democráticas, a ideia do Hugo Oliveira é, em certo sentido, verdadeira: em democracia, vale o princípio maioritário e a maioria pode fazer vingar as suas ideias. Mas, partindo do princípio de que o liberalismo está correcto, o que há a fazer é tornar difícil a vitória de ideias iliberais, nomeadamente exigindo maiorias qualificadas para a remoção da constituição de princípios liberais importantes como o princípio da neutralidade. No dia em que a vontade maioritária prevaleça, a sociedade deixa de ser liberal e passa a ser outra coisa...

3- Não existe nenhuma antinomia entre liberalismo e religião. Precisamente o que se quer evitar numa sociedade liberal regida pelo princípio da neutralidade é que qualquer religião imponha a sua agenda moral, limitando a liberdade dos indivíduos e também a liberdade de culto de crentes de outras religiões. O princípio da neutralidade é, pois, uma garantia da liberdade religiosa e não uma qualquer forma do Estado impôr o ateísmo. Por exemplo, os muçulmanos têm direito de se manifestar pacificamente contra os cartoons e o jornal de os publicar. O governo, esse, não tem nada a ver com o assunto...

4- O liberalismo existe, pelo menos, desde Locke. Em certo sentido, alguns liberais até consideram que a o Feudalismo era um exemplo típico de uma sociedade liberal. Uma tradição política tão rica alberga necessariamente autores com diferentes pontos de vista, frequentes vezes, contraditórios entre si. Mas não é porque o autor liberal X defendeu Y que Y é uma política liberal. É nesse erro que me parece que o Hugo Oliveira cai quando menciona as posições de Popper ou de Hayek para dizer que o liberalismo aqui defendido não é o verdadeiro liberalismo ou, pelo menos, o único. A questão não é essa, mas saber se as posições aqui e noutros lados assumidas são melhores que as alternativas (mesmo as liberais) existentes.

5- Finalmente, concordo com o Francisco quando diz que o liberalismo está à margem da dicotomia direita-esquerda. Começou, no tempo dos Whigs por ser de esquerda, hoje está mais associado à direita, pelo facto de a esquerda acreditar no papel interventor do Estado na economia. Mas isso pouco nos deve interessar. Neste blogue, parece-me que posso falar por todos quando digo que o que se quer para o país é uma alternativa política liberal e não uma alternativa política liberal-conservadora ou liberal-social.

Ps: o interessante comentário do Hugo Oliveira pode ser lido na caixa de comentários deste post do Francisco.

Ainda o conservadorismo

Este post critica com mais jeito e acerto o tipo de conservadorismo que aqui se criticou. Não quero, no entanto e ao contrário do que fiz nesse post, meter os conservadores todos no mesmo saco e estar a argumentar contra um homem de palha. Ergo, vale a pena voltar ao tema.

Aproveitando o facto de o JM ter respondido a este post do Pedro Mexia e se ter, entretanto, gerado uma discussão muito boa na caixa de comentários do Blasfémias, convém explorar o tipo de crítica que tem sido feita pelos conservadores aos liberais com o intuito de trocar ideias (e não de medir forças, por assim dizer).

Quando alguns conservadores afirmam concordar com os liberais em matérias como a economia e os costumes, tal dá que pensar. Será a nova definição do conservadorismo uma espécie de "liberalismo sim, mas devagar" ou "liberalismo sim, mas dependendo de considerações de oportunidade?" Se fosse só isso, seríamos todos os liberais seriam conservadores e vice-versa. Ninguém pensa em acordar amanhã com o anúncio simultâneo da privatização dos sistemas de ensino, saúde e segurança social.

Também não é a questão racionalismo/irracionalismo que divide o Pedro Mexia do JM. Para ser politicamente relevante, o a divisão liberais-conservadores em torno do binómio racionalismo-irracionalismo teria de provocar divergências em torno das políticas concretas defendidas pelo Pedro Mexia e, diria, por muitos dos conservadores do Indy ou da Atlântico. Ora o Pedro Mexia diz concordar com os liberais na economia e nos costumes, o que deixa pouco de fora. Resta saber com que liberais o Pedro Mexia e os outros conservadores concordam...

Parece que os conservadores nos estão antes a dizer que o liberalismo que defendemos não é o verdadeiro liberalismo ou, pelo menos, o liberalismo com que eles concordam, caso em que importa saber como definem o liberalismo (cf. o comentário do Hugo Oliveira a este post do Francisco). A bola parece estar, pois, e neste aspecto, do lado dos conservadores, sem que tal signifique que os liberais se abstenham de continuar a explicar de forma simples o liberalismo (ou, fazendo uma concessão aos conservadores, o liberalismo que defendem).Falarei disso quando responder em post ao comentário do Hugo Oliveira.

5 anos: o dia que Não mudou o Mundo

Agora como antes, todos acham que os EUA são o único país no Mundo sem direito de defesa.

5 anos: o dia que NÃO mudou o Mundo

Por esta altura todos têm a certeza que as invasões do Afeganistão e do Iraque já estavam preparadas antes...

5 anos do cair na real



(link)

2006/09/10

Mais novas do fascismo dos costumes

Mais novidades sobre a galopante tentação de não deixar nada, mesmo nada, às mãos impreparadas de quem somente quer ser livre. Onde? No lugar do costume. Escreve a BBC News (com negritos meus):

The government should make it illegal for internet sites to incite or advise people on how to commit suicide, a charity says.

[...]

The charity said the 1961 Suicide Act should be amended to make it illegal to publish such material on the web.

The government said it was looking at how rules could be tightened.

At the moment, the law says it is illegal to aid, abet, counsel, procure or incite someone to commit suicide, but to be successfully prosecuted the individual has to have knowledge and participated in the suicide.

[...]

A spokeswoman added: "The sites take no responsibility for the advice they give, do not identify themselves and generally create an atmosphere where suicide is normal, acceptable and to be encouraged.
Mal seria a possibilidade de deixar as pessoas pensar pelas suas próprias cabeças. Veja-se o relato do pai de uma das alegadas "vítimas", entretanto tornado activista da regulação desse género de sites (também com negritos meus):
When Paul Kelly returned from a five-week holiday in the US he was hit by the bombshell that his son, Simon, had killed himself.

"I was devastated. Simon was bright, he had got into university and seemed to have everything going for him.

"It was hard to understand why he did it."

[...]

The 18-year-old had been accessing suicide websites.

Paul, 67, from Cornwall, said he did not want to go into what exactly happened, but added: "Records on his computer showed he had been visiting sites explaining techniques on how to kill yourself.

"He had also been into chatrooms where people had been discussing suicide. I am not saying if he had not been on the internet he would not have done it.

"We also found out he had been deeply depressed, but I believe the internet gave him the means to do it.
Vá-se lá pensar que um indivíduo maior, de 18 anos, seja autorizado a pensar pela sua propria cabeça. E a tomar uma decisão que a ele somente diz respeito. Ou pensar, sequer, em quais teriam sido os motivos efectivos da sua confirmada depressão.

Qual é a próxima, meter uma pessoa numa cela acolchoada se as suas pesquisas na Web fizerem tocar as sinetas de que se vai matar num qualquer departamento governamental?

Da superioridade da escola austríaca

http://small-brother.blogspot.com/2006/08/coerncia-ideolgica.html

Ps: na foto, Roland Linz, austríaco, matador, depois de depenar a águia Vitória com dois balázios.

2006/09/09

Confirmar o óbvio

Anda por aí muita gente surpreendida pelo "pacto de regime" entre PS e PSD para as questões da Justiça. Em como os dois principais partídos políticos portugueses se conseguiram aparentemente unir por uma determinada causa.

Não vejo onde está a surpresa ou a estranheza. Não sei em que é que isto difere de todas as "reformas" e "pactos" (implícitos ou explícitos) que reformaram sucessívos "reformas" e "pactos" originados dos exactos mesmos partidos políticos desde o 25 de Abril.

2006/09/08

E agora Pinto da Costa a não escolher uma gravata (cont)

Pinto da Costa - Vinha buscar a gravata que me tinham prometido.
Menina da Caixa - Ah, isso é que não pode ser. Foi para outro senhor igualmente distinto. Não podemos vender duas iguais. Daria muito no olho ... Com tantas gravatas, vender sempre a mesma dá muito no olho ... Peço desculpa ...
Pinto da Costa - Olhe, eu não quero entrar mais em esquemas nem falar muito ...
Menina da Caixa - Bom, posso sempre arranjar-lhe uma gravata igualmente boa, se me fizer um favor em troca
Pinto da Costa - E o que é que tenho que fazer ?
Menina da Caixa - Olhe, se pudesse apresentar as suas amigas ao nosso alfaite, ele fazia uma horas extra para lhe costurar a gravata. Elas são tão bonitas e ele anda tão sozinho….A mulher dele está muito envelhecida sabe ?
Pinto da Costa - Mas eu só quero a gravata que tenho direito, porque é que ainda tenho de dar alguma coisa em troca ?
Menina da Caixa - Porque é assim. Se não houver favores, a gravata vai para o outro senhor, que já é cliente há mais de 50 anos. É uma longa tradição, sabe. Não podemos esquecer o que ele fez por nós antes do 25 de Abril, foi ele que sozinho lançou a nossa marca. E olhe que hoje é uma marca apreciada por 6 em cada 10 portugueses...
Pinto da Costa - Bom, contra isso não posso fazer nada. Eu vou ver se as minhas amigas não se importam então…..
Menina da Caixa - E eu vou já mandar fazer a gravata....

Não nos dêem tanto serviço público que a gente não aguenta!

A RTP vai lançar, a partir da próxima segunda-feira e em horário nobre, uma série de programas de dez a 15 minutos que visa reforçar a programação de serviço público, anunciou hoje Luís Marques, administrador da empresa.

um passo corajoso porque mexe com a estrutura da grelha de programação no horário nobre" que é o de maiores audiências e, consequentemente, com mais publicidade, afirmou o administrador durante a apresentação daquilo que chamou "Um passo em frente" no serviço público de televisão.

Público Última Hora, com negritos meus.

E agora Luís Filipe Vieira a não escolher uma gravata II

Luís Filipe Vieira - Vinha buscar a gravata que me tinham prometido.

Menina da Caixa - Ah, isso é que não pode ser. Foi para outro senhor igualmente distinto. Não podemos vender duas iguais. Daria muito no olho ... Com tantas gravatas, vender sempre a mesma dá muito no olho ... Peço desculpa ...

Luís Filipe Vieira - Olhe, eu não quero entrar mais em esquemas nem falar muito ...

Menina da Caixa - Também temos aqui uma forca, serve?

Luís Filipe Vieira - F... Uma forca não. Sei bem para que serve isso.

Menina da Caixa - Olhe, e uma correntezinha ao pescoço com uma bigorna?

Luís Filipe Vieira - Nã ... F... Isso também me mata, não é?...

Menina da Caixa - Pois... Tenho aqui uma gravata Rosa às bolinhas...

Luís Filipe Vieira - Rosa? À, bolinhas ... Bom, isso não é bonito mas o pescoço fica intacto ...

( "E agora Luís Filipe Vieira a não escolher uma gravata" versão original)

2006/09/07

Um favorito pessoal



Parabéns, Mr. Lynch!

Sem título

Este senhor membro de um movimento de esquerda de pendor liberal conseguiu escrever todos os following statements nesta caixa de comentários do blasfémias:

"A lógica impecável deste tipo de liberalismo conduz a um aumento de desigualdades, que finalmente só pode conduzir a um colapso económico por falta de consumo.
Salários baixos --> mais lucros.
Mais lucros --> mais investimentos, em novas empresas com salários baixos.
Mais empresas com salários baixos --> ainda mais lucros --> ainda mais investimentos, etc.
Na conclusão deste processo, temos um exército de proletários, todos com emprego por salários cada vez mais baixos, acompanhado por uma pequena classe de capitalistas, com rendimentos cada vez maiores devido a terem cada vez mais ações em cada vez mais empresas.
Ou seja, uma desigualdade social crescente."

"O aumento "artificial" dos salários aumenta a disponibilidade de dinheiro dos trabalhadores, e portanto pode aumentar o seu consumo. Ao aumentar o seu consumo, pode aumentar as perspetivas de lucro, criando consumos para novos bens."

"Um aumento dos salários pode, consoante a situação concreta, conduzir a desfechos diferentes:
[...]
3) Se houver capacidade produtiva excedentária, não se gera inflação nem desequilíbrio na balança de pagamentos, mas sim retoma-se a produção nas fábricas."
De facto, é bem provável que não se consiga encontrar alguém tão socialista no outro MLS.

És tu, JB?

A voracidade

A ler, no Parceiro Pensador, mais um sintoma elucidativo da voracidade de poder da União Europeia, materializado na crescente vontade que vem demonstrando, mais ou menos subrepticiamente (leia-se: com mais ou menos descaramento), de usurpar competências que não lhe foram delegadas e em se afirmar de facto como detentora de poderes soberanos que não tem. Agora, parece que quer começar a "ditar" direito penal...

7 razões para não acreditar em sentidos únicos

Refundação da direita e liberalismo em sentido único:

  1. Direita liberal em Portugal, só faz sentido enquanto conceito abstracto. Um movimento político concreto para existir tem que ser visível e palpável ao eleitorado, e neste caso corresponder à sua noção de direita. Ora o eleitorado da direita portuguesa segue esta ordem (da direita para a esquerda): (1) começa no nacionalismo reaccionário do extinto MAN, passa pelo (2) bolorento saudosismo salazarista de retornados e outros idosos nostálgicos, segue pelo (3) conservadorismo católico-moralista da família e bons costumes do CDS e pelo (4) populismo demagógico de subsídio à agricultura e pensões aos velhotes do PP e acaba no (5) keynesianismo do progresso e das autoestradas, "dos hipermercados ao domingo e da fé no euromilhões" - a famosa direita de boliqueime. E é a partir daí que maioria dos portugueses traça a thin red line onde acaba oficialmente direita e começa a esquerda.
  2. Consequentemente, é bom entender que quem vota na direita em Portugal, vota sobretudo numa identificação com os valores acima: o eleitorado de direita em Portugal não é na sua maioria um eleitorado liberal. Por boa razão, a robustez intelectual e política da tese liberal nunca passou de um devaneio marginal de alguns membros do CDS e do PSD. Por alguma razão as "bases" nunca aceitaram essa orientação liberal. Não digo com isto que não haja eleitorado liberal, acho até que tem crescido a olhos vistos, mas vem tanto da esquerda como da direita. E embora com os seus defeitos, os seguidores do MLS são um exemplo disso. Dirigir a agenda liberal a um eleitorado de direita, apresentando-a como uma solução da direita, é quanto a mim um erro para a afirmação de um país mais liberal.
  3. Há também quem afirme que a direita partidária nacional (o PSD, o CDS) é na verdade uma esquerda pois é igualmente socializante, e que mesmo, mesmo, mas mesmo a sério de direita são os liberais. E quanto mais liberais mais de direita. Bom, por muito jeito que esta nova definição de direita possa dar a alguns e por muita justificação semântica que isto possa ter no campo da filosofia política, a verdade é que é uma definição completamente afastada da realidade do eleitorado em Portugal. Ora como diz o JM, uma definição é uma definição e vale pela aceitação que tem. E redifinir todo o espectro político de direita como sendo de esquerda para poder comprar o liberalismo em exclusivo, é daquelas definições de aceitação muito limitada.
  4. Identificar a esquerda com socialistas e comunistas é tão redutor como identificar a direita com nacionalistas e fássistas.
  5. Assim sendo, dizer que Portugal é um país demasiado centrado à esquerda também não me convence . É um país onde o estatismo é omnipresente, e o liberalismo residual, seja à esquerda ou à direita. Portugal é dos últimos países da Europa a ainda punir judicialmente o aborto, o que é no mínimo estranho num país centrado à esquerda. O que acho é que Portugal é um país demasiado centrado a norte do compasso, e isso é o essencial a combater.
  6. Tem se mostrado tão difícil (ou tão fácil) para a esquerda abdicar do intervencionismo económico e do welfare state como para a direita abdicar da sua moral conservadora. Aliás, segundo o Index of Economic Freedom o nível de liberdade económica diminuiu com o PSD, voltando a aumentar com o regresso da "esquerda", o que seria incompreensível se o liberalismo económico fosse uma opção exclusiva da direita.
  7. Parece-me que seria bem mais importante e construtivo forçar a mudança de paradigma, e mudar as mentalidades, de forma transversal. Ser de esquerda ou direita é irrelevante e levantar esta dicotomia é seguir uma agenda política esgotada e inconsequente . É urgente que saibamos pôr essa mudança de paradigma à frente das agendas de direita ou esquerda que os partidos e a comunicação social vão ditando. Mas infelizmente, não é isso que vejo. Os blogs liberais - maioritariamente de direita, é verdade - preocupam-se com a agenda política da direita e não com a agenda política liberal, pior, em caso de conflito entre ambas, colocam não raras vezes o liberalismo na gaveta. De outra forma não se entende a simpatia generalizada pelo governo de Bush, o isolamento do AMN no que diz respeito ao casamento homossexual, a teoria da imoralidade dos morangos com açúcar, ou o voluntarismo mostrado na defesa de religiosos radicais, quando são atacados pela liberdade de expressão artística. Esta direita pode ser liberal, mas, pese embora todos os atributos que lhe reconheço, não é um liberalismo de direita, é uma direita de pendor liberal. E isso quando se vai a votos, faz toda a diferença.

Dois pesos?

Vital Moreira clama por rigor jornalístico nas notícias relativas à recente decisão do TJCE no que toca à problemática da taxa reduzida de IRS e IRS nos Açores.

Tem toda a razão, e só lhe fica bem em o lembrar, particularmente em algo que tem a ver com a sua área. Mas estranha-se a intervenção neste caso concreto quando outras bem recentes, do mesmo foro, mereceram tratamento substancialmente diferente.

A eventual prova de que há rigores que devem ser pedidos, e faltas dele que devem ser convenientemente engolidas.

Vida no deserto

Caro Cirilo,

Entre esta fanática capaz de pôr os cabelos do JLP em pé....

"Londonistan is very much a cri de coeur. But it is not a cry of despair. Phillips advocates an ambitious program to reverse the process that has left Britain uniquely vulnerable to its enemies and uniquely dangerous to its allies. Abolition of wrongheaded human-rights legislation, tougher immigration controls, prosecution of Islamist radicals in special courts, bans on organizations and individual clerics who advocate extremism, close monitoring of mosques as well as of Muslim charities and schools—all of this and more would go far to remove the immediate threat. More problematic, though no less desirable, is Phillips’s call for a restoration of the primacy of indigenous British culture and Judeo-Christian values."

...mais esta fanática:

"The furor caused by her vicious remarks about the 9/11 widows ("I've never seen people enjoying their husbands' deaths so much.") has distracted people from the main topic of her book: evolutionary biology, or rather the pathetic pseudoscientific arguments of its modern fundamentalist challenger, Intelligent Design (ID). This occupies four of Coulter's eleven chapters. Enamored of ID, and unable to fathom a scientific reason why biologists don't buy it, Coulter suggests that scientists are an evil sub-cabal of atheist liberals, a group so addicted to godlessness that they must hide at all costs the awful "truth" that evolution didn't happen. She accuses evolutionists of brainwashing children with phony fossils and made-up "evidence," turning the kids into "Darwiniacs" stripped of all moral (i.e., biblical) grounding and prone to become beasts and genocidal lunatics. To Coulter, biologists are folks who, when not playing with test tubes or warping children's minds, encourage people to have sex with dogs. (I am not making this up.)"

e este fanático, para além de idiota,
http://arrastao.weblog.com.pt/arquivo/2006/09/um_idiota_e_um_idiota

venha o diabo e escolha, porque, sinceramente, o deserto é preferível. Haverá esperança quando aqueles que escrevem um excelente texto como este começarem a condenar uns e outros fanáticos sem qualquer distinção. Espero não ter de esperar 40 anos...:)

Leituras recomendadas

Para aumentar a agonizante "travessia do deserto" do nosso JB, chamo a atenção para este post de um dos tais "conservadores", que escreve excelentemente e reflecte com profundidade.

Zé, ainda te vou ver a defender as virtudes do trabalho "braçal", denunciando corajosamente os exploradores aumentos salariais das chefias não produtivas.

Como diria o slogan da galp, queremos mais, queremos muito mais...

Um conhecido liberal da nossa praça desenvolveu uma inovadora teoria libertativa, baseada na tolerância epistemológica do postulado "olho por olho, dente por dente" quando, numa mútuo mimoseamento público, um dos contendores trate de presentear o membro da espécie que se lhe opõe com um rotundo e progenitorial insulto, num crescendo de interacção, onde a escala se inicia nos hábitos maternos, passa pela cruzamento dos membros superiores pela cavidade craneana alheia e termine quiçá no arremesso de explosivos de deflagração fragmentada e retardada.

Por outro lado, quando, por oclusão mental ou simples ausência de criatividade, a verborreia discursiva se compagine nos amplos limites da pura calúnia ou maledicência intencionalmente atentatória, define esta nova praxeologia que se deva evitar a confrontação, eventualmente esgrimida em civilidade e institucionalidade, optando-se pela frouxidão e complacência, e, como recurso medicinal complementar, a criação de uma lista negra vocabular, a publicar pela direcção geral de linguística e fraseologia.

2006/09/06

Electricidade 2.0

A EDP tem todo um conjunto de infra-estruturas, construído e solidificado durante anos de monopólio protegido pelo Estado. Esta rede permite-lhe aceder com facilidade aos nossos contadores, provavelmente com custos médios decrescentes, o que lhe dá uma vantagem enorme em relação às restantes empresas e lhe permite arrancar com muito mais força para esta nova era de concorrência.

Assim, e embora não nos devamos esquecer que foram (pelo menos em parte) o esforço e os euros da EDP que sustentaram o crescimento da estrutura, é tempo desta servir de igual modo todos os fornecedores. Deste modo, em analogia com o famoso processo de desagregação do lacete local, em prática nas redes da PT desde a revolução da banda larga, proponho que se desagreguem os fios da tomada de todos os lares domésticos, de modo a facilitar a concorrência. Uma operação que poderia ser subsidiada pelo Estado, como forma de compensar os consumidores pelos anos de preços altos e de inexistência de evoluções.

Tiago Alves, n'O Telescópio.
Tendo como mote o referido artigo do Tiago Alves, impõe-se alguma revisão histórica sobre o passado da infrastrutura do sistema eléctrico de energia português, bem como uma reflexão sobre o futuro e as apostas que fazem sentido.

A versão 1.0 do SEE português não foi muito diferente do que pôde ser visto nos outros países: os custos elevados de estrutura, com a necessidade de grandes investimentos em equipamento com oferta relativamente limitada e em construção de infra-estruturas (muitas vezes requerendo processos públicos de expropriação), constituindo deste modo investimentos extremamente capital-intensivos e com prazos de amortização dilatados (geralmente inviáveis para a generalidade das débeis economias privadas da época) fizeram com que a solução encontrada tenha sido a de esploração centralizada de grandes recursos de produção, integrada verticalmente com o transporte e a distribuição dessa energia em enormes empresas públicas. Portugal não foi excepção, e a solução acabou por convergir num cenário essencialmente de monopólio do mercado pela EDP. À face das limitações da época, o negócio da produção, transporte e distribuição de energia (PTDE) era essencialmente visto como um monopólio natural entregue deste modo ao estado. Mas, contrariamente ao que diz o Tiago Alvez, não foram os "o esforço e os euros da EDP que sustentaram o crescimento da estrutura". Foram sim essencialmente os escudos dos impostos dos portugueses que permitiram a consolidação do modelo de negócio da empresa, mantendo-se também sobre ela uma obrigação de "serviço público" que a forçava a aceitar empreitadas muitas vezes económicamente não justificáveis, mas que politicamente lhe eram impostas.

Posteriormente, o progresso da técnica e das economias dos vários países começaram a fazer duvidar da bondade da anterior classificação do mercado de energia eléctrica como um "monopólio natural". O surgimento da vontade privada em assegurar significativos investimentos na área da produção, e de uma maneira geral, a visão de que essa classificação de monopólio natural da generalidade do mercado de PTDE deixava de fazer sentido e começava a constituir um entrave à liberdade comercial. Foram assim iniciados, mais ou menos agilmente, esforços de desverticalização das empresas monopolistas de PTDE, forçando-as a dividirem-se nas suas constituintes autónomas de produção, transporte e distribuição. Interviu-se também no sentido de desregulamentar o mercado e de permitir a livre concorrência entre os diversos agentes nas diversas áreas. Essencialmente, reduziu-se na generalidade a perspectiva de monopólio natural de todo uma negócio somente ao sector do transporte que, por imperatívos técnicos e/ou políticos, está limitado na sua capacidade de não impôr barreiras de entrada ao mercado, tendo-se portando optado por manter empresas monopolistas nessa área debaixo da alçado do estado ou de reguladores. Chegou-se assim ao presente cenário "1.5" do SEE.

Concretamente em Portugal, a EDP foi privatizada e, com este processo, foi alienada a rede de distribuição. Ou seja, o estado considerou que foi pago o preço justo pelo investimento que havia feito (nomeadamente) na rede de distribuição. Manteve, pelas considerações atrás referidas, a rede de transporte. Não há portanto qualquer justificação moral ou comercial para que persista e se justifique alguma possibilidade de "desagregação do lacete local" como é referido no artigo.

Um comentário à parte: é referida a possibilidade de o estado subsidiar o acesso a essa rede de distribuição, para compensar "os consumidores pelos anos de preços altos e de inexistência de evoluções". Ora isto é exactamente persistir no erro. Esses "preços altos" não eram altos. Eram sim preços artificialmente baixos criados administrativamente pela imposição administrativa de tarifas separadas da realidade do mercado e do valor real da energia, associada a mecanismos de subsídio e compensação alimentados, obviamente, por esses mesmos contribuintes. Mecanismos esses que, apesar da suposta "liberalização" do mercado, ainda subsistem, quer por exemplo em relação ao subsídio aos grandes consumidores ou às obrigações de compra e tarifárias em relação aos produtores eólicos.

Qual é, quanto a mim, a solução do problema? A solução, quanto a mim, envolve uma mudança de paradigma, o que creio vai acontecer naturalmente a médio, longo prazo. Essencialmente uma mudança de um paradigma de produção centralizada para um paradigma de produção distribuída. E porquê?

Actualmente, a produção é essencialmente centralizada. Centrais de grande dimensão produzem, geralmente a distância significativa do local de consumo, enormes quantidades de energia que são injectadas na rede de transporte. Tipicamente, o rendimento desta produção, quando envolve combustíveis fósseis, é tipicamente da ordem dos 30-50% podendo em casos excepcionais atingir 70%. Ou seja, há logo à partida uma enorme fatia de recursos energéticos que é pura e simplesmente desperdiçada e perdida em calor. Nestas centrais, por razões de segurança de exploração da rede, que advém essencialmente da sua interligação e da imprevisibilidade de acidentes e consumos, é necessário proceder a sobredimensionamentos dos equipamentos, bem como assegurar que alguns operem em condições sub-óptimas de modo a assegurar essa segurança. Essencialmente, os planos de exploração (envolvendo compra de combustíveis, escalonamento de unidades) são baseados em previsões do consumo, como tal tendo que acautelar algum nível de incerteza.

Posteriormente, na rede de transporte, são adicionadas a este balanço energético perdas de (números redondos) 10%.

Veja-se portanto todo o enorme desperdício de energia associado a este paradigma de produção centralizada de energia, muitas vezes para, no final da cadeia se produzir, como utilização final da energia eléctrica... calor! Basta pensarmos na fatia da utilização de energia eléctrica associada ao ar-condicionado e aquecimento doméstico.

Qual é a alternativa?

Aproximar o consumo dessas formas de energia primária do consumo final de energia, em regime autónomo ou ligado à rede de distribuição. Convertendo-a directamente em calor ou em energia eléctrica no local de consumo. Livre de tarifários e de intermediário.

A energia passa a ser produzida "on demand" sem necessidade de tão grande sobredimensionamento de equipamentos e de dependência de previsões e com segurança acrescida, pela ocorrência de contingências ser muito mais limitada nas suas consequências no espaço.

Qual é o problema?

Essencialmente a necessidade de uma mudança da mentalidade dos consumidores e do enquadramento legislativo. Os equipamentos, apesar de ainda não disponíveis com o nível de solidez técnica e estabilidade dos associados aos sistemas "clássico", já existem e podem ser comprados numa diversidade de formas e permitindo o uso de diversos tipos de energias primária como a eólica, o gasóleo ou o gás, em formas que vão desde as micro-turbinas às pilhas de combustível, desde a cogeração aos geradores eólicos de última geração. Passando até, no futuro, por mini reactores nucleares sem manutenção nem necessidade de intervenção humana por períodos alargados e inerentemente seguros por não terem combustível suficiente para sustentar uma reacção em cadeia descontrolada.

Além disso, no caso do funcionamento ligado à rede, há a necessidade de fazer a reconversão de alguns equipamentos dessa rede de distribuição, concebidos originalmente para um fluxo previsivelmente unidireccional de energia eléctrica, bem como ao nível de gestão da rede será necessário adoptar novas práticas de gestão associadas à nova realidade.

Como se vê, excelentes perspectivas para um mercado emergente, com diversidade acrescida (maior relação com os produtores de equipamentos, mais escolha entre energias primárias) e a funcionar mais racionalmente e de uma maneira mais consonante com o Ambiente. E, acima de tudo, mais livre.

2006/09/05

A obscenidade do sucesso

Escreve Manuel Câmara, n'O Telescópio:

[Brad] DeLong usa como justificação para um sistema fiscal progressivo a ideia de que a opulência dos ricos causa um mal-estar entre os pobres, e que assim há uma transferência de bem-estar de ricos para pobres, que também gostarão de se sentir invejados.

[...]

Enquanto para alguns na direita a justificação de Brad DeLong pode parecer uma laracha, os economistas não a podem tratar levianamente. A sugestão de que os ricos retiram prazer da ostentação da sua riqueza e assim criam mau-estar entre os pobres não é completamente ridícula. Isso implicaria a existência de uma externalidade, o que levanta naturalmente a sugestão de se criar um imposto de pigou para a corrigir.

[...]

No fundo podem-se inventar uma série de justificações económicas (nem sempre correctas) para promover qualquer política, mas o caso da progressividade dos impostos não me parece uma questão económica mas sim uma moral. Que justificação existe para penalizar o sucesso?
Não sou economista, mas conto ter a legitimidade de quem está atento a esse género de questões para comentar o cenário que é proposto.

Resumidamente, o suposto cenário de justificação de uma suposta "externalidade" acaba por não ser muito diferente da argumentação de alguma da nossa esquerda no sentido da classificação de alguns rendimentos como "obscenos", tentando promover impostos sobre grandes fortunas e lucros. A diferença neste caso é que tenta-se almejar a alguma credibilidade técnica sustentada num formalismo econonómico.

O problema desse género de considerações morais no que toca a uma política pública de fiscalidade afectando rendimento e património é que essencialmente precisam de uma entidade externa, normalmente o estado, que faça essa distinção entre o que é "obsceno" ou não, o que é "ostentação" e mero usufruto da sua propriedade. No caso referido, é necessário alguém que estabeleça objectivamente a natureza dessa externalidade, ou seja, quem transforme todos esses considerandos morais em regras práticas de cálculo desses efeitos.

Ora dificilmente será aceitável a possibilidade de conferir a alguém essa autoridade e legitimidade de transformar a sua perspectiva moral em regra geral coerciva que todos afecte. Pior do que uma mera laracha abre-se um caminho perigoso para demagogias e análises perversas reinarem:
  • O que é um "rico"?
  • O que é "mal-estar entre os pobres"?
  • Quanto é que o aumento dessa riqueza representa em termos de "ostentação" e "mal-estar"?
E estabelece-se o terreno propício a que sejam colocadas outras questões decorrentes desta:
  • Não sofrerá também um "rico" o efeito de uma externalidade semelhante tendo que conviver ou cruzar-se com um pobre andrajoso, que viva pacificamente com a sua situação, mas que provoque "mal-estar" no rico não por ostentação mas por decadência?
  • O exercício do poder coercivo do estado sobre a propriedade do "rico" também não lhe causa "mal-estar"?
Este género de considerandos demonstra a perversão que é misturar decisões e poderes arbitrários de indole moral com poder coercivo ao nível do que é conferido a um estado.

Não posso deixar de concordar com as considerações finais e com a conclusão apresentada por Manuel Câmara: a fiscalidade progressiva é uma questão moral e não económica. E é como tal profundamente errada e injusta, como qualquer penalização arbitrária e moralista do sucesso o é.

Bush compares Bin Laden to Hitler

President George W Bush has compared Osama Bin Laden to Lenin and Hitler in a speech to US military officers.

BBC NEWS.
Godwin's Law:
The law states:

"As an online discussion grows longer, the probability of a comparison involving Nazis or Hitler approaches one."

[...]

Although in one of its early forms Godwin's Law referred specifically to Usenet newsgroup discussions, the law is now applied to any threaded online discussion: electronic mailing lists, message boards, chat rooms, and more recently blog comment threads and Wikipedia discussion pages.

[...]

There is a tradition in many newsgroups and other Internet discussion forums that once such a comparison is made, the thread is finished and whoever mentioned the Nazis has automatically "lost" whatever debate was in progress. This principle is itself frequently (though perhaps incorrectly) referred to as Godwin's Law.

Post ligeiramente longo

Citações de uma noticia encomendada pertinente do DN de ontem.

A taxa de retenção ou insucesso no ensino básico continua a atingir valores inaceitáveis, na ordem dos 11,5%, tendo mesmo regredido em 2005 devido ao impacto negativo dos exames do 9.º ano.

...há uma aposta forte nas provas de aferição. Estes testes, que pretendem avaliar o sistema e não contam para a nota dos alunos...

...invocando que os resultados (dos exames de Química e Física) foram excepcionais e se deviam ao facto de se tratar de programas ainda em fase experimental...
Após um reajustamento curricular do 3 ciclo, um reformulação de programas e áreas vocacionais no secundário, o actual ministério conclui pela:
  • Manutenção de provas que não serve para nada;
  • Alteração das regras de avaliação a meio do jogo;
  • Feitura de experiências em cima de "fases experimentais";
  • Necessidade de histeria na reacção a uns exames que não são comparáveis com nada do que foi feito em Portugal até hoje nem com qualquer critério internacional.
O que nos leva ao seguinte:
A componente curricular (25 horas) do 1.º ciclo passa a ser dedicada em exclusivo às actividades lectivas obrigatórias, como o Português e a Matemática.

A partir deste ano lectivo (o inglês) é uma actividade extracurricular obrigatória em todas as escolas primárias.

O Plano Nacional de Leitura, que arranca este ano lectivo... Pretende criar hábitos e competências de leitura e escrita, sobretudo entre os mais novos. Numa primeira fase centra-se no pré-escolar e no 1.º ciclo...

Os resultados desastrosos (na Matemática) implicam medidas em todos os graus de ensino. Para além da formação contínua de 7000 professores desta disciplina no 1.º ciclo, os 2.º e 3.º ciclos serão este ano alvo de um Plano de Acção para a Matemática. ...um conjunto de metas a atingir e as estratégias necessárias. Desta análise pode resultar a necessidade do reforço dos meios humanos e dos recursos didácticos...

As escolas já tinham professores com preparação para acompanhar alunos com Necessidades Educativas Especiais, mas pela primeira vez foi criado um grupo específico para estes profissionais.

As aulas de substituição, introduzidas no último ano lectivo...

...os trabalhos de casa devem ser feitos na escola, durante os prolongamentos de horário. Maria de Lurdes Rodrigues entende que os TPC são um factor de desigualdade social, nomeadamente no acesso a material de apoio.
Na minha opinião, prepara-se um violento assalto à existência saudável das crianças que vão passar por esta tempestade, nomeadamente as que se situam entre os 4 e os 10 anos.

Todas as medidas apontam para o reforço, o aumento, o estímulo, a ocupação com contéudos "sérios", o maior empenho. Todos os lindos vocábulos que nos acompanham desde o tempo do senhor Roberto Carneiro (20 anos).

Podia rebater um a um todos os pressupostos e falácias de tamanha psicose interventiva, mas não só não escrevo posts longos como não é o objectivo do mesmo.

A nossa classificação internacional (Pisa) está a ser avaliada da seguinte forma: "aí está a correr mal, então toma lá dose a duplicar".

Para quem observe sem paixões, detecta-se uma obssessãozita. Ou não? Estes meninos vão chegar ao ensino facultativo ainda mais fartos desta orgânica.

Tenham medo, muito medo...

P.S:: Impressiona verificar que não há uma iniciativa nem um gasto com alunos razoáveis ou, horror dos horrores, bem sucedidos.
Não é de espantar que alguns possam vir a descobrir que ser preguiçoso faz bem ao ego.

É o tal estado mínimo

Liverpool negoceia (para construção de novo estádio) concessão de um terreno municipal por 999 anos, mais acessibilidade e arranjos envolventes ao futuro complexo no valor de 240 milhões de libras.

Adaptado desta notícia

Post escrito rapidamente para colocar por cima do Karloos

Afinal Pinto da Costa é tão arguido quanto LF Vieira.

Vai a ver-se, os maiores podres do chutebol nacional estão certamente nos dirigentes do cabeceirense de baixo...

Humor Negro

No mundial de atletismo para deficientes que agora decorre, os atletas também sofrem lesões ou limitam-se a mudar de categoria?

A seguir com atenção



... as crónicas de cinema do Festival de Veneza por Eurico de Barros no Diário de Notícias:

(30, 31) Agosto
(1, 2, 3, 4, 5, 6, 8, 9, 10) Setembro

Curiosidades dos tempos que passam II

Publicamos a proposta de alteração dos Estatutos que vai ser apresentada por Manuel Monteiro no próximo Congresso. Também relembramos os Estatutos em vigor.

PROPOSTA DE ALTERAÇÃO
(Congresso de Lisboa, a 4 e 5 de Novembro de 2006)

[...]

SECÇÃO XI
DURAÇÃO DOS MANDATOS E REELEGIBILIDADE

Artigo 35º
(Duração dos Mandatos e Reelegibilidade)

[...]

4. A reeleição para um terceiro mandato consecutivo só é permitida, enquanto o partido não possuir representação parlamentar nacional.

[...]

EM VIGOR:

ESTATUTOS
DO
Partido da Nova Democracia

[...]

SECÇÃO X
DURAÇÃO DOS MANDATOS E REELEGIBILIDADE

Artigo 34º
(Duração dos Mandatos e Reelegibilidade)

[...]

4. A reeleição para um terceiro mandato consecutivo não é permitida.

Democracia Liberal.

Curiosidades dos tempos que passam

A SEDE NACIONAL

D.L. – Vamos então ao segundo assunto: a NovaDemocracia nasceu no Norte, mais concretamente no Porto e é nesta cidade que tem a sua Sede Nacional. Mas agora que você veio viver para Lisboa faz sentido continuar com a sede nacional no mesmo local? Ou teremos mais uma daquelas situações típicas em que a Sede formal está num lado e o centro de decisão noutro?
MM [Manuel Monteiro] – Ter a Sede nacional no Norte não é para mim irrelevante é a afirmação da diferença e não é pelo facto de eu agora morar em Lisboa, que essa situação deve sofrer alterações.

D.L. – Mas agora é regionalista?
MM – Não, não sou e precisamente por isso defendo a Sede nacional no Norte do País.

D.L. – Bom, mas na prática ….
MM – Na prática e na teoria. Para mim a defesa do Norte é a defesa da posição estratégica nacional, é a defesa de Lisboa, é a defesa do Alentejo, é a defesa do Algarve. Não pense que tenho conceitos de bairro nesta minha posição e que digo o que digo dada a minha profunda ligação ao Minho; se tivesse tais conceitos pediria aos meus verdadeiros amigos que me ajudassem a superar tal pequenez e atraso.

Democracia Liberal, 6 de Fevereiro de 2006
Publicamos a proposta de alteração dos Estatutos que vai ser apresentada por Manuel Monteiro no próximo Congresso. Também relembramos os Estatutos em vigor.

PROPOSTA DE ALTERAÇÃO
(Congresso de Lisboa, a 4 e 5 de Novembro de 2006)

[...]

Artigo 4°
(Sede)

A Sede nacional é na cidade de Lisboa

Democracia Liberal, 31 de Agosto de 2006

Conclusões (infelizmente) da bola

Depois da maratona que constituiu este Prós&Contras sobre a problemática do Futebol, na acepção da sua relação com o direito (e o Estado de Direito) e tendo como moldura o "Caso Mateus", não posso deixar de afirmar que fiquei desgastado. Desgastado por toda a leviandade, a ligeireza e com todo o pântano que emerge das relações entre estado, FPF e liga.

Sintomática foi a afirmação de Laurentino Dias que interessava ao estado que "houvesse uma 1ª e uma 2ª liga, com 16 equipas". Porquê? Ter-se-à descoberto uma nova competência essencial do nosso estado, e um novo direito fundamental à bola?

Não estivemos a assistir a neófitos nem a comentadores de bancada. Estivemos a assistir à triste figura de pessoas com cargos de topo e da maior responsabilidade que zelam por algo a que o estado optou por conferir o estatuto de utilidade pública, ou que dentro do estado se devem encarregar de zelar pelo cumprimento desse mandato. Qualquer um que tenha assistido deve partilhar de uma sensação perturbante que me ficou e que é a que, presentes que estavam os vários actores e vértices de poder do problema, subsiste a dúvida: quem é que dos presentes responde perante quem, quais são as relações hierárquicas de poder e quem é auditável por quê, em última instância e quando os competências são postas em causa?

Mas faltou um protagonista essencial, que desde há muito passa impune e silencioso no marasmo e nos meandros da podridão instalada: lembremo-nos do digno Conselho Superior de Magistratura. Aquele a quem cumpre autorizar os magistrados judiciais (a maioria deles no topo da carreira, membros do Tribunal da Relação ou do Supremo Tribunal de Justiça) a poderem integrar os orgão jurisdicionais que regem este lodaçal, sem que para tal tenham que suspender as suas funções de titulares de orgãos de soberania ou aos seus poderes de magistrados judiciais. São estes ilustres protagonistas da nossa república de juízes que assinam por baixo e abençoam, com a sua presença, os órgãos da (suposta) justiça desportiva que produziram os resultados que bem se conhecem.

É este CSM que assiste impávido e sereno, e ainda assina por baixo, a esta nefasta perversão em que poder judicial legítimo se transveste e avença, com a cumplicidade do estado de direito (?), em mero árbitro jurisdicional de uma ordem interna e privada, como se vê, à margem de todo o ordenamento jurídico que nos rege constitucionalmente.

São estes mesmos que guardam a nossa liberdade e a ordem constitucional. Ficamos esclarecidos. Mas não tranquilos.

2006/09/04

Estalos e bofetadas da bola

Assustadora a perspectiva de que alguém com as responsabilidades públicas (e legais) de Gilberto Madail achar pacificamente comparável a legitimidade democrática e o valor em termos de direito de uma instituição resultante de vários tratados internacionais, negociados por estados soberanos, como a União Europeia, e uma associação de direito privado (a FIFA) que, por acaso, agremia sócios de diversas nacionalidades.

Também esclarecedor é sem dúvida o diálogo de faca nas costas numa mão, pancadinha na outra, de Valentim Loureiro com o referido Gilberto Madail. A queixarem-se de uma "falta de clareza de competências" não de ontem, mas de há 16 anos.

Vacas magras



Parece que Francisco Louçã anda por aí a pé, de mochilinha, a pregar a boa-nova.

Desgraçado.

Cortaram-lhe as ajudas de custo ou apreenderam-lhe a carta, foi?

O verdadeiro Aristóteles



Caro João Miranda:

Acho que eventualmente poderá ter surgido um equívoco na análise das palavras do Sr. António Vilarigues. A instrução (apesar da minha conta pessoal muito favorável aos "analistas de sistemas") pode não ter chegado para mais.

O glorioso mercado "aberto" II

Os mesmos que hoje vão vivendo na ilusão de fornecimento de energia em que os grandes consumidores têm a sua tarifa subsidiada pelo estado (ou seja, em que todos os contribuintes dão uma mãozinha) e os consumidores domésticos têm o aumento da sua tarifa limitado pelo "regulador" ao valor da inflacção (mesmo no suposto "mercado" que hoje se inicia) são os mesmos que vão ficar muito surpreendidos com o aumento da sua factura energética quando este mercado for realmente livre e for pago o efectivo preço de mercado, e que se vão revoltar contra o neo-liberalismo dizendo que afinal os mercados livres só servem para aumentar os preços e não (como é frequentemente anunciado por alguns) para os diminuir. E que também não vão estranhar o facto de os seus impostos não diminuirem, mesmo terminando os subsídios e as ajudinhas.

Lá está, são as perspectivas bizarras da justiça social...

A ler

Nós, os sensatos entre o povo dos Estados Unidos, numa tentativa de ajudarmos toda a gente a entender-se, recuperarmos um semblante de justiça, evitarmos mais revoltas, mantermos a nação segura, promovermos comportamentos positivos e garantirmos a benção de uma liberdade sem dívidas para nós próprios e para os nossos netos e bisnetos, aqui tentamos novamente ordenar e estabelecer algumas linhas mestras de senso comum para os permanentemente queixosos, complexados, alienados e outros bébés chorões esquerdistas.

Consideramos estas verdades evidentes em si mesmas, que muitíssimas pessoas ficaram confundidas com a Lista de Direitos, e que são tão lerdas que precisam de uma Lista de Não-Direitos.
A Lista de Não-Direitos, avançada pelo Migas na respectiva crónica.

O glorioso mercado "aberto"

A partir de hoje, os clientes domésticos já podem escolher entre a EDP e a EDP.

Marcelo sobre o caso Mateus

Por uma vez, o Professor fez serviço público. Parece hoje mais ou menos consensual que o Gil Vicente tem direito a recorrer aos tribunais comuns de um acto administrativo emanado de uma Federação com poderes de império. Tendo em conta que na base do conflito estava uma questão laboral (saber se o contrato do jogador com o Lixa era válido ou inválido), não havia, de facto, quaisquer razões para o clube não poder recorrer da decisão de não permitir a inscrição de Mateus na época a decorrer.
Duvido é da utilidade da decisão de recurso: ou o Gil desce se não recorrer ou sofre pesadas sanções se fizer uso do seu direito. Até que a justiça seja reposta, as consequências serão trágicas para o clube. Vale a pena? Vamos a ver se o Gil faz jus ao dito de Pessoa.

A proposta de constituição do PND

  1. Uma constituição que não consagra o direito de propriedade, arredando-o do conceito das formas de manifestação da dignidade da pessoa humana...
  2. Uma constituição que parece defender direitos sociais ao considerar que a dignidade humana envolve "qualidade de vida em termos económicos, sociais, culturais e ambientais" (art.º 1 nº3, al.h)) e que o Estado deve garantir como direitos fundamentais todos os direitos necessários à promoção dessa suposta vertente da dignidade humana (art.1º nº4)...
  3. Uma constituição que não se limita a consagrar o direito ao desenvolvimento livre da personalidade (art.1º nº3 al.c)), parecendo, pelo contrário, decidir confinar esse desenvolvimento aos limites de um "modelo educativo personalista e humanista" (mesmo artigo)...
  4. Uma constituição que garante às crianças a "inserção num ambiente familiar normal" (art.1º nº1 al.d))...
  5. Uma constituição que não torna a vinculação das entidades privadas às normas sobre direitos fundamentais dependente do articulação destas normas com os princípios básicos do direito privado, entre os quais o princípio da liberdade contratual (art.1º nº6)...
  6. Uma constituição que, não contente com o facto de o Estado respeitar e garantir os direitos fundamentais e de cada um de nós dever respeitar os direitos dos outros, nos obriga a garantir a dignidade humana do "próximo"(art.1º nº7)...
...não é uma constituição liberal. Muito pelo contrário, estamos perante uma proposta de constituição filosoficamente comunitarista, que mistura socialismo nos planos económico e social com conservadorismo no plano dos costumes. Numa palavra, é uma proposta de constituição democrata-cristã. Nada que espante: trata-se apenas de um produto daquilo que os PP e ex-PP sempre foram e sempre serão.

PS: dito isto, faço minhas as palavras do JLP neste post. E lembro que, há uns tempos atrás, ambos também dissémos que o liberalismo mais tarde ou mais cedo seria apropriado por quem, com reserva mental, dele quisesse tirar proveito político. Está a acontecer, mas não é propriamente o, por ora, solitário PND que deve preocupar um liberal; é antes o tal conservadorismo-pseudo-liberal que mais cedo ou mais tarde fará o seu caminho num dos principais partidos políticos de direita. Resta que, como, entretanto, me apercebi de que muitos liberais da blogosfera navegam essa onda, desisti de perder tempo a acreditar no liberalismo enquanto alternativa política viável nos próximos anos. Que a democracia-cristã lhes faça a todos bom proveito.

2006/09/03

O manifesto equivocado

Naturalmente, não pude deixar de ir satisfazer a minha curiosidade no anunciado Manifesto da Direita em Portugal, anunciado por Manuel Monteiro e pelo PND como o caminho da salvação para a direita portuguesa.

Li o documento que, ele próprio, se anuncia como "não sendo um tratado de filosofia política". O que restou no final: muito pouco.

Honra se lhe seja feita, o referido documento é, à semelhança de outros documentos de outrora divulgados pela organização, bem escrito, claro e, acima de tudo, cuidadoso em apontar para os consensos óbvios e em contornar as areias movediças das ideias objectivas e dos temas (que os há) fracturantes da direita. Não fica portanto dúvida na clareza das intenções, na necessidade do disclamer e no destino do documento, essencialmente não os protagonistas de discussões ideológicas mas sim a massa popular do povão de direita.

Ultrapassada uma introdução preenchida pelas verdades históricas do cenário político do pós-25 de Abril, que recorde-se, já passou os 30 anos de história, e que nada acrescenta a uma constatação que é pública e mais que estafada em inúmeros artigos de opinião da auto-reconhecida direita, avança-se para a necessidade do "recentrar" do espectro político, assente num espectro incompleto que "salta da esquerda para a extrema direita".

O primeiro equívoco será exactamente esse. Será que efectivamente não existe direita em Portugal? Será que não existem arautos imemoriais do conservadorismo e da Doutrina Social da Igreja que pregam há anos (ou mesmo décadas) as virtudes da sua boa-nova e a contraposição com o papão da "esquerda"? Não seremos nós ainda herdeiros em muita da nossa legislação de um conservadorismo popular (e bem reconhecível) que não hesitou em se associar à esquerda das mesmas "causas" e "valores" e que, esse, não teve problemas em disseminar pelo nosso ordenamento jurídico e constitucional as marcas da "tradição" e da "boa moral"? Mesmo quando agora parece ter descoberto que ganhar dinheiro e ter lucro deixou de ser "pecado"?

Pior do que isso, será que ainda faz sentido arregimentar combatentes para uma batalha baseada em esteriótipos gerados na escolha de cadeiras numa assembleia revolucionária de há mais de 200 anos atrás? Ou não estará a luta mais apropriadamente a ser travada entre os que defendem o totalitarismo do estado como solução para todos os problemas e os que defendem a liberdade e o indivíduo como a melhor solução?

O que me parece é que o alvo é bem mais a tal "direita" que congregua desde os "totalitários dos valores" aos "liberais da carteira" (bem consentâneo aliás com a auto-classificação do PND como partido do "conservadorismo liberal"), do que uma verdadeira opção pela Liberdade que contrarie a tirania do estado. Senão vejamos, analisando ponto por ponto todos os pontos de vista esclarecedores em contrário:

A Nação surge como quadro de referência à acção do Homem, funcionando como entidade facilitadora e integradora do seu desenvolvimento e da sua acção. Uma nação entendida como comunidade de sangue, de terra, de bens e de destino, reunindo os homens que, entre si, possuem vínculos históricos, culturais e linguísticos.
Não será de estranhar que, antes de mais, a afirmação primeira de manifesto seja em prol da "Nação", naturalmente de deterimento do indivíduo, como unidade orgãnica do desenvolvimento. Conservadorismo oblige. O colectivismo da esquerda proletária é rapidamente substituído por uma alternativa do "colectivismo do sangue, da terra, dos bens e do destino", e o endivíduo despromovido a uma mera roda da sua engrenagem. Sintomática é além disso a adopção de um critério de nacionalidade "de sangue", da raça, não afirmado na liberdade da escolha mas sim filho da aleatoriedade do nascimento.
Este homem concreto representa um feixe de valores, mas também de direitos essenciais e liberdades concretas que ultrapassam, em muito, os direitos, na generalidade menores, que a nossa Constituição garante, bem como a única liberdade que hoje lhe é reconhecida entre nós, assim como na generalidade dos países formalmente democráticos: a liberdade de voto.

Esses valores, esses direitos e essas liberdades representam a matriz fundadora do homem que, nascido na Grécia, lançou as bases da civilização ocidental na qual nos integramos e que é parte essencial e insubstituível do nosso património como portugueses.
Sem dúvida a passagem citada será uma das mais sintomáticas do texto, e exemplar no que toca à forma de "liberalismo" proposta. Sem querer entrar em discurso de "filosofia política", e como tal contrariar o espírito do anunciado do documento criticado, a critica é tão simples e óbvia, mesmo para não liberais, que facilmente será compreensível para os que não partilham dessa filosofia: o Liberalismo não se afirma por um "feixe" de "liberdades", de "direitos" ou de "valores". O Liberalismo defende sim que o estado normal do homem é a Liberdade, e que tudo o resto são limitações que só se legitimam quando defenderem o respeito pela Liberdade de terceiros. Tão somente isto. Não há liberdades enumeradas, direitos concedidos por simpatia ou condescendência majestática pelo estado ou "valores" que não sejam os sentidos pelos próprios indivíduos. O defender o contrário é assumir uma faceta claramente não-liberal de que cada um só existe na medida do alvará que lhe for concedido pelo estado. Veja-se o exemplo da Constituição dos Estados Unidos da America, claramente liberal em espírito e em grande parte em forma, que estabelece o seu conteúdo não pela afirmação de "direitos" ou liberdades avulsas, mas em proclamar a liberdade negativa e em enunciar os casos particulares em que é necessário o seu arbítrio entre indivíduos.

Esta tendência garantista está aliás expressa noutras passagens:
Ser sujeito de deveres é um direito inalienável de todo o homem e é nos seus deveres, mais do que nos seus direitos, que se funda o essencial da sua dignidade de Homem.

[...]

A Lei e um certo consenso ético que estruturam uma sociedade democrática moderna, são padrões válidos pelos quais terão de ser aferidos e julgados os comportamentos individuais. Esses comportamentos serão claramente certos ou evidentemente errados, e como tal julgados, à luz desses padrões éticos e jurídicos.

[...]

Ao Estado, através de um conjunto de competências que lhe é outorgado pelos cidadãos, compete definir as regras da vida em comunidade, aplicá-las e vigiar para que sejam cumpridas.
O raciocínio é bem claro: o Homem só tem legitimidade quando a justifica pelo cumprimento dos seus deveres e se subjuga aos padrões "válidos" que aferem e julgam a sua liberdade individual, e só participa na sociedade na medida em que cumpre as suas "regras", superiormente definidas.

Esta perspectiva surpreendentemente soviética da vida em sociedade, ainda mais expressa num documento que começa por referir o Manifesto Comunista de Marx e Engels, é sim um tique esclarecedor de quem visualiza a sociedade como definida por regras precisas que definem o que é permitido e tolerado. Com um direito que regule a periodicidade da amamentação e que puna quem cuspa no chão ou mastigue pastilha elástica, ou que coma comida "imprópria" e faça sexo de maneira "insalúbre".

O resto, o ser liberal na economia, além de ser pouco credível face a estas generalidades anunciadas, acaba por pouco interessar. Acaba por ser só uma estratégia de marketing conveniente para aliciar os que dentro do liberalismo se afirmam como mais utilitaristas. Também os que dia-a-dia são expoliados da sua propriedade por um estado que não olha a limites. Acaba por ser um conjunto de lugares comuns para um determinado público. Mas, esteja-se atento e as contradições são rápidas a surgir. Como numa anunciada proposta de nova Constituição que, em toda a sua extensão e em toda o seu "rigor", desde em definir duração de mandatos até datas de eleições, se "esquece" de uma coisa tão básica (aliás estabelecida na nossa Constituição em vigor) como o direito à propriedade privada. Aliás, curiosamente, a palavra "propriedade" não é referida uma única vez num documento que, apesar de pretensões de neutralidade política, é proposto por um partido com supostos objectivos liberais. Assim como endeusa a nação mas em seguida inclui directamente tratados internacionais na Constituição, para além da legitimidade que já lhes assiste pelo reconhecimento da integração do direito internacional no direito interno.

Direita desta, ainda bem que se clarifica. Porque é dela que eu não quero minimamente fazer parte.

2006/09/02

2006/09/01

Conservadorismo Indy

Como o Pedro Mexia, não gosto de algoritmos (liberais ou outros) em política. Mas também nunca percebi em que se traduzia politicamente o estado de espírito que parece ser o traço definidor do conservadorismo político.

Anos de Independente, de Coluna Infame ou agora de revista Atlântico continuam a não esclarecer a questão de saber em que políticas concretas se diferenciam os novos conservadores dos liberais e demais alternativas políticas. Não tenho dúvidas que existam diferenças concretas, mas parto do princípio de que o silêncio em relação às mesmas por parte dos novos conservadores significa falta de argumentos, falta de imaginação política ou ainda de consistência teórica. Tal silêncio é ainda consistente com a consideração, implícita na reportagem de hoje do Público, de que o conservadorismo Indy sempre se afirmou mais pela pose do que pela substância; a pose que o Ricardo Dias Felner tão bem descreve ao dizer que a alternativa de direita forjada pelo Independente deveria ser simultaneamente conservadora e sofisticada, tradicionalista e libertina. Ou seja, tudo e nada...ou seja, irrelevante. Talvez mais prosaicamente se explique a inanidade do projecto político do jornal atendendo ao facto de as elites culturais do Portugal dos anos 90 preferirem ouvir o maravilhoso Neil Hannon a ler relatórios do Banco de Portugal.

Como revelam tão bom gosto, não os posso censurar. Mas também não posso deixar de continuar a pensar que, politicamente, o país nada ganhou com o Independente.

Ouch!



(link)

Via Boing Boing.