2006/09/06

Electricidade 2.0

A EDP tem todo um conjunto de infra-estruturas, construído e solidificado durante anos de monopólio protegido pelo Estado. Esta rede permite-lhe aceder com facilidade aos nossos contadores, provavelmente com custos médios decrescentes, o que lhe dá uma vantagem enorme em relação às restantes empresas e lhe permite arrancar com muito mais força para esta nova era de concorrência.

Assim, e embora não nos devamos esquecer que foram (pelo menos em parte) o esforço e os euros da EDP que sustentaram o crescimento da estrutura, é tempo desta servir de igual modo todos os fornecedores. Deste modo, em analogia com o famoso processo de desagregação do lacete local, em prática nas redes da PT desde a revolução da banda larga, proponho que se desagreguem os fios da tomada de todos os lares domésticos, de modo a facilitar a concorrência. Uma operação que poderia ser subsidiada pelo Estado, como forma de compensar os consumidores pelos anos de preços altos e de inexistência de evoluções.

Tiago Alves, n'O Telescópio.
Tendo como mote o referido artigo do Tiago Alves, impõe-se alguma revisão histórica sobre o passado da infrastrutura do sistema eléctrico de energia português, bem como uma reflexão sobre o futuro e as apostas que fazem sentido.

A versão 1.0 do SEE português não foi muito diferente do que pôde ser visto nos outros países: os custos elevados de estrutura, com a necessidade de grandes investimentos em equipamento com oferta relativamente limitada e em construção de infra-estruturas (muitas vezes requerendo processos públicos de expropriação), constituindo deste modo investimentos extremamente capital-intensivos e com prazos de amortização dilatados (geralmente inviáveis para a generalidade das débeis economias privadas da época) fizeram com que a solução encontrada tenha sido a de esploração centralizada de grandes recursos de produção, integrada verticalmente com o transporte e a distribuição dessa energia em enormes empresas públicas. Portugal não foi excepção, e a solução acabou por convergir num cenário essencialmente de monopólio do mercado pela EDP. À face das limitações da época, o negócio da produção, transporte e distribuição de energia (PTDE) era essencialmente visto como um monopólio natural entregue deste modo ao estado. Mas, contrariamente ao que diz o Tiago Alvez, não foram os "o esforço e os euros da EDP que sustentaram o crescimento da estrutura". Foram sim essencialmente os escudos dos impostos dos portugueses que permitiram a consolidação do modelo de negócio da empresa, mantendo-se também sobre ela uma obrigação de "serviço público" que a forçava a aceitar empreitadas muitas vezes económicamente não justificáveis, mas que politicamente lhe eram impostas.

Posteriormente, o progresso da técnica e das economias dos vários países começaram a fazer duvidar da bondade da anterior classificação do mercado de energia eléctrica como um "monopólio natural". O surgimento da vontade privada em assegurar significativos investimentos na área da produção, e de uma maneira geral, a visão de que essa classificação de monopólio natural da generalidade do mercado de PTDE deixava de fazer sentido e começava a constituir um entrave à liberdade comercial. Foram assim iniciados, mais ou menos agilmente, esforços de desverticalização das empresas monopolistas de PTDE, forçando-as a dividirem-se nas suas constituintes autónomas de produção, transporte e distribuição. Interviu-se também no sentido de desregulamentar o mercado e de permitir a livre concorrência entre os diversos agentes nas diversas áreas. Essencialmente, reduziu-se na generalidade a perspectiva de monopólio natural de todo uma negócio somente ao sector do transporte que, por imperatívos técnicos e/ou políticos, está limitado na sua capacidade de não impôr barreiras de entrada ao mercado, tendo-se portando optado por manter empresas monopolistas nessa área debaixo da alçado do estado ou de reguladores. Chegou-se assim ao presente cenário "1.5" do SEE.

Concretamente em Portugal, a EDP foi privatizada e, com este processo, foi alienada a rede de distribuição. Ou seja, o estado considerou que foi pago o preço justo pelo investimento que havia feito (nomeadamente) na rede de distribuição. Manteve, pelas considerações atrás referidas, a rede de transporte. Não há portanto qualquer justificação moral ou comercial para que persista e se justifique alguma possibilidade de "desagregação do lacete local" como é referido no artigo.

Um comentário à parte: é referida a possibilidade de o estado subsidiar o acesso a essa rede de distribuição, para compensar "os consumidores pelos anos de preços altos e de inexistência de evoluções". Ora isto é exactamente persistir no erro. Esses "preços altos" não eram altos. Eram sim preços artificialmente baixos criados administrativamente pela imposição administrativa de tarifas separadas da realidade do mercado e do valor real da energia, associada a mecanismos de subsídio e compensação alimentados, obviamente, por esses mesmos contribuintes. Mecanismos esses que, apesar da suposta "liberalização" do mercado, ainda subsistem, quer por exemplo em relação ao subsídio aos grandes consumidores ou às obrigações de compra e tarifárias em relação aos produtores eólicos.

Qual é, quanto a mim, a solução do problema? A solução, quanto a mim, envolve uma mudança de paradigma, o que creio vai acontecer naturalmente a médio, longo prazo. Essencialmente uma mudança de um paradigma de produção centralizada para um paradigma de produção distribuída. E porquê?

Actualmente, a produção é essencialmente centralizada. Centrais de grande dimensão produzem, geralmente a distância significativa do local de consumo, enormes quantidades de energia que são injectadas na rede de transporte. Tipicamente, o rendimento desta produção, quando envolve combustíveis fósseis, é tipicamente da ordem dos 30-50% podendo em casos excepcionais atingir 70%. Ou seja, há logo à partida uma enorme fatia de recursos energéticos que é pura e simplesmente desperdiçada e perdida em calor. Nestas centrais, por razões de segurança de exploração da rede, que advém essencialmente da sua interligação e da imprevisibilidade de acidentes e consumos, é necessário proceder a sobredimensionamentos dos equipamentos, bem como assegurar que alguns operem em condições sub-óptimas de modo a assegurar essa segurança. Essencialmente, os planos de exploração (envolvendo compra de combustíveis, escalonamento de unidades) são baseados em previsões do consumo, como tal tendo que acautelar algum nível de incerteza.

Posteriormente, na rede de transporte, são adicionadas a este balanço energético perdas de (números redondos) 10%.

Veja-se portanto todo o enorme desperdício de energia associado a este paradigma de produção centralizada de energia, muitas vezes para, no final da cadeia se produzir, como utilização final da energia eléctrica... calor! Basta pensarmos na fatia da utilização de energia eléctrica associada ao ar-condicionado e aquecimento doméstico.

Qual é a alternativa?

Aproximar o consumo dessas formas de energia primária do consumo final de energia, em regime autónomo ou ligado à rede de distribuição. Convertendo-a directamente em calor ou em energia eléctrica no local de consumo. Livre de tarifários e de intermediário.

A energia passa a ser produzida "on demand" sem necessidade de tão grande sobredimensionamento de equipamentos e de dependência de previsões e com segurança acrescida, pela ocorrência de contingências ser muito mais limitada nas suas consequências no espaço.

Qual é o problema?

Essencialmente a necessidade de uma mudança da mentalidade dos consumidores e do enquadramento legislativo. Os equipamentos, apesar de ainda não disponíveis com o nível de solidez técnica e estabilidade dos associados aos sistemas "clássico", já existem e podem ser comprados numa diversidade de formas e permitindo o uso de diversos tipos de energias primária como a eólica, o gasóleo ou o gás, em formas que vão desde as micro-turbinas às pilhas de combustível, desde a cogeração aos geradores eólicos de última geração. Passando até, no futuro, por mini reactores nucleares sem manutenção nem necessidade de intervenção humana por períodos alargados e inerentemente seguros por não terem combustível suficiente para sustentar uma reacção em cadeia descontrolada.

Além disso, no caso do funcionamento ligado à rede, há a necessidade de fazer a reconversão de alguns equipamentos dessa rede de distribuição, concebidos originalmente para um fluxo previsivelmente unidireccional de energia eléctrica, bem como ao nível de gestão da rede será necessário adoptar novas práticas de gestão associadas à nova realidade.

Como se vê, excelentes perspectivas para um mercado emergente, com diversidade acrescida (maior relação com os produtores de equipamentos, mais escolha entre energias primárias) e a funcionar mais racionalmente e de uma maneira mais consonante com o Ambiente. E, acima de tudo, mais livre.

2006/09/05

A obscenidade do sucesso

Escreve Manuel Câmara, n'O Telescópio:

[Brad] DeLong usa como justificação para um sistema fiscal progressivo a ideia de que a opulência dos ricos causa um mal-estar entre os pobres, e que assim há uma transferência de bem-estar de ricos para pobres, que também gostarão de se sentir invejados.

[...]

Enquanto para alguns na direita a justificação de Brad DeLong pode parecer uma laracha, os economistas não a podem tratar levianamente. A sugestão de que os ricos retiram prazer da ostentação da sua riqueza e assim criam mau-estar entre os pobres não é completamente ridícula. Isso implicaria a existência de uma externalidade, o que levanta naturalmente a sugestão de se criar um imposto de pigou para a corrigir.

[...]

No fundo podem-se inventar uma série de justificações económicas (nem sempre correctas) para promover qualquer política, mas o caso da progressividade dos impostos não me parece uma questão económica mas sim uma moral. Que justificação existe para penalizar o sucesso?
Não sou economista, mas conto ter a legitimidade de quem está atento a esse género de questões para comentar o cenário que é proposto.

Resumidamente, o suposto cenário de justificação de uma suposta "externalidade" acaba por não ser muito diferente da argumentação de alguma da nossa esquerda no sentido da classificação de alguns rendimentos como "obscenos", tentando promover impostos sobre grandes fortunas e lucros. A diferença neste caso é que tenta-se almejar a alguma credibilidade técnica sustentada num formalismo econonómico.

O problema desse género de considerações morais no que toca a uma política pública de fiscalidade afectando rendimento e património é que essencialmente precisam de uma entidade externa, normalmente o estado, que faça essa distinção entre o que é "obsceno" ou não, o que é "ostentação" e mero usufruto da sua propriedade. No caso referido, é necessário alguém que estabeleça objectivamente a natureza dessa externalidade, ou seja, quem transforme todos esses considerandos morais em regras práticas de cálculo desses efeitos.

Ora dificilmente será aceitável a possibilidade de conferir a alguém essa autoridade e legitimidade de transformar a sua perspectiva moral em regra geral coerciva que todos afecte. Pior do que uma mera laracha abre-se um caminho perigoso para demagogias e análises perversas reinarem:
  • O que é um "rico"?
  • O que é "mal-estar entre os pobres"?
  • Quanto é que o aumento dessa riqueza representa em termos de "ostentação" e "mal-estar"?
E estabelece-se o terreno propício a que sejam colocadas outras questões decorrentes desta:
  • Não sofrerá também um "rico" o efeito de uma externalidade semelhante tendo que conviver ou cruzar-se com um pobre andrajoso, que viva pacificamente com a sua situação, mas que provoque "mal-estar" no rico não por ostentação mas por decadência?
  • O exercício do poder coercivo do estado sobre a propriedade do "rico" também não lhe causa "mal-estar"?
Este género de considerandos demonstra a perversão que é misturar decisões e poderes arbitrários de indole moral com poder coercivo ao nível do que é conferido a um estado.

Não posso deixar de concordar com as considerações finais e com a conclusão apresentada por Manuel Câmara: a fiscalidade progressiva é uma questão moral e não económica. E é como tal profundamente errada e injusta, como qualquer penalização arbitrária e moralista do sucesso o é.

Bush compares Bin Laden to Hitler

President George W Bush has compared Osama Bin Laden to Lenin and Hitler in a speech to US military officers.

BBC NEWS.
Godwin's Law:
The law states:

"As an online discussion grows longer, the probability of a comparison involving Nazis or Hitler approaches one."

[...]

Although in one of its early forms Godwin's Law referred specifically to Usenet newsgroup discussions, the law is now applied to any threaded online discussion: electronic mailing lists, message boards, chat rooms, and more recently blog comment threads and Wikipedia discussion pages.

[...]

There is a tradition in many newsgroups and other Internet discussion forums that once such a comparison is made, the thread is finished and whoever mentioned the Nazis has automatically "lost" whatever debate was in progress. This principle is itself frequently (though perhaps incorrectly) referred to as Godwin's Law.

Post ligeiramente longo

Citações de uma noticia encomendada pertinente do DN de ontem.

A taxa de retenção ou insucesso no ensino básico continua a atingir valores inaceitáveis, na ordem dos 11,5%, tendo mesmo regredido em 2005 devido ao impacto negativo dos exames do 9.º ano.

...há uma aposta forte nas provas de aferição. Estes testes, que pretendem avaliar o sistema e não contam para a nota dos alunos...

...invocando que os resultados (dos exames de Química e Física) foram excepcionais e se deviam ao facto de se tratar de programas ainda em fase experimental...
Após um reajustamento curricular do 3 ciclo, um reformulação de programas e áreas vocacionais no secundário, o actual ministério conclui pela:
  • Manutenção de provas que não serve para nada;
  • Alteração das regras de avaliação a meio do jogo;
  • Feitura de experiências em cima de "fases experimentais";
  • Necessidade de histeria na reacção a uns exames que não são comparáveis com nada do que foi feito em Portugal até hoje nem com qualquer critério internacional.
O que nos leva ao seguinte:
A componente curricular (25 horas) do 1.º ciclo passa a ser dedicada em exclusivo às actividades lectivas obrigatórias, como o Português e a Matemática.

A partir deste ano lectivo (o inglês) é uma actividade extracurricular obrigatória em todas as escolas primárias.

O Plano Nacional de Leitura, que arranca este ano lectivo... Pretende criar hábitos e competências de leitura e escrita, sobretudo entre os mais novos. Numa primeira fase centra-se no pré-escolar e no 1.º ciclo...

Os resultados desastrosos (na Matemática) implicam medidas em todos os graus de ensino. Para além da formação contínua de 7000 professores desta disciplina no 1.º ciclo, os 2.º e 3.º ciclos serão este ano alvo de um Plano de Acção para a Matemática. ...um conjunto de metas a atingir e as estratégias necessárias. Desta análise pode resultar a necessidade do reforço dos meios humanos e dos recursos didácticos...

As escolas já tinham professores com preparação para acompanhar alunos com Necessidades Educativas Especiais, mas pela primeira vez foi criado um grupo específico para estes profissionais.

As aulas de substituição, introduzidas no último ano lectivo...

...os trabalhos de casa devem ser feitos na escola, durante os prolongamentos de horário. Maria de Lurdes Rodrigues entende que os TPC são um factor de desigualdade social, nomeadamente no acesso a material de apoio.
Na minha opinião, prepara-se um violento assalto à existência saudável das crianças que vão passar por esta tempestade, nomeadamente as que se situam entre os 4 e os 10 anos.

Todas as medidas apontam para o reforço, o aumento, o estímulo, a ocupação com contéudos "sérios", o maior empenho. Todos os lindos vocábulos que nos acompanham desde o tempo do senhor Roberto Carneiro (20 anos).

Podia rebater um a um todos os pressupostos e falácias de tamanha psicose interventiva, mas não só não escrevo posts longos como não é o objectivo do mesmo.

A nossa classificação internacional (Pisa) está a ser avaliada da seguinte forma: "aí está a correr mal, então toma lá dose a duplicar".

Para quem observe sem paixões, detecta-se uma obssessãozita. Ou não? Estes meninos vão chegar ao ensino facultativo ainda mais fartos desta orgânica.

Tenham medo, muito medo...

P.S:: Impressiona verificar que não há uma iniciativa nem um gasto com alunos razoáveis ou, horror dos horrores, bem sucedidos.
Não é de espantar que alguns possam vir a descobrir que ser preguiçoso faz bem ao ego.

É o tal estado mínimo

Liverpool negoceia (para construção de novo estádio) concessão de um terreno municipal por 999 anos, mais acessibilidade e arranjos envolventes ao futuro complexo no valor de 240 milhões de libras.

Adaptado desta notícia

Post escrito rapidamente para colocar por cima do Karloos

Afinal Pinto da Costa é tão arguido quanto LF Vieira.

Vai a ver-se, os maiores podres do chutebol nacional estão certamente nos dirigentes do cabeceirense de baixo...

Humor Negro

No mundial de atletismo para deficientes que agora decorre, os atletas também sofrem lesões ou limitam-se a mudar de categoria?

A seguir com atenção



... as crónicas de cinema do Festival de Veneza por Eurico de Barros no Diário de Notícias:

(30, 31) Agosto
(1, 2, 3, 4, 5, 6, 8, 9, 10) Setembro

Curiosidades dos tempos que passam II

Publicamos a proposta de alteração dos Estatutos que vai ser apresentada por Manuel Monteiro no próximo Congresso. Também relembramos os Estatutos em vigor.

PROPOSTA DE ALTERAÇÃO
(Congresso de Lisboa, a 4 e 5 de Novembro de 2006)

[...]

SECÇÃO XI
DURAÇÃO DOS MANDATOS E REELEGIBILIDADE

Artigo 35º
(Duração dos Mandatos e Reelegibilidade)

[...]

4. A reeleição para um terceiro mandato consecutivo só é permitida, enquanto o partido não possuir representação parlamentar nacional.

[...]

EM VIGOR:

ESTATUTOS
DO
Partido da Nova Democracia

[...]

SECÇÃO X
DURAÇÃO DOS MANDATOS E REELEGIBILIDADE

Artigo 34º
(Duração dos Mandatos e Reelegibilidade)

[...]

4. A reeleição para um terceiro mandato consecutivo não é permitida.

Democracia Liberal.

Curiosidades dos tempos que passam

A SEDE NACIONAL

D.L. – Vamos então ao segundo assunto: a NovaDemocracia nasceu no Norte, mais concretamente no Porto e é nesta cidade que tem a sua Sede Nacional. Mas agora que você veio viver para Lisboa faz sentido continuar com a sede nacional no mesmo local? Ou teremos mais uma daquelas situações típicas em que a Sede formal está num lado e o centro de decisão noutro?
MM [Manuel Monteiro] – Ter a Sede nacional no Norte não é para mim irrelevante é a afirmação da diferença e não é pelo facto de eu agora morar em Lisboa, que essa situação deve sofrer alterações.

D.L. – Mas agora é regionalista?
MM – Não, não sou e precisamente por isso defendo a Sede nacional no Norte do País.

D.L. – Bom, mas na prática ….
MM – Na prática e na teoria. Para mim a defesa do Norte é a defesa da posição estratégica nacional, é a defesa de Lisboa, é a defesa do Alentejo, é a defesa do Algarve. Não pense que tenho conceitos de bairro nesta minha posição e que digo o que digo dada a minha profunda ligação ao Minho; se tivesse tais conceitos pediria aos meus verdadeiros amigos que me ajudassem a superar tal pequenez e atraso.

Democracia Liberal, 6 de Fevereiro de 2006
Publicamos a proposta de alteração dos Estatutos que vai ser apresentada por Manuel Monteiro no próximo Congresso. Também relembramos os Estatutos em vigor.

PROPOSTA DE ALTERAÇÃO
(Congresso de Lisboa, a 4 e 5 de Novembro de 2006)

[...]

Artigo 4°
(Sede)

A Sede nacional é na cidade de Lisboa

Democracia Liberal, 31 de Agosto de 2006

Conclusões (infelizmente) da bola

Depois da maratona que constituiu este Prós&Contras sobre a problemática do Futebol, na acepção da sua relação com o direito (e o Estado de Direito) e tendo como moldura o "Caso Mateus", não posso deixar de afirmar que fiquei desgastado. Desgastado por toda a leviandade, a ligeireza e com todo o pântano que emerge das relações entre estado, FPF e liga.

Sintomática foi a afirmação de Laurentino Dias que interessava ao estado que "houvesse uma 1ª e uma 2ª liga, com 16 equipas". Porquê? Ter-se-à descoberto uma nova competência essencial do nosso estado, e um novo direito fundamental à bola?

Não estivemos a assistir a neófitos nem a comentadores de bancada. Estivemos a assistir à triste figura de pessoas com cargos de topo e da maior responsabilidade que zelam por algo a que o estado optou por conferir o estatuto de utilidade pública, ou que dentro do estado se devem encarregar de zelar pelo cumprimento desse mandato. Qualquer um que tenha assistido deve partilhar de uma sensação perturbante que me ficou e que é a que, presentes que estavam os vários actores e vértices de poder do problema, subsiste a dúvida: quem é que dos presentes responde perante quem, quais são as relações hierárquicas de poder e quem é auditável por quê, em última instância e quando os competências são postas em causa?

Mas faltou um protagonista essencial, que desde há muito passa impune e silencioso no marasmo e nos meandros da podridão instalada: lembremo-nos do digno Conselho Superior de Magistratura. Aquele a quem cumpre autorizar os magistrados judiciais (a maioria deles no topo da carreira, membros do Tribunal da Relação ou do Supremo Tribunal de Justiça) a poderem integrar os orgão jurisdicionais que regem este lodaçal, sem que para tal tenham que suspender as suas funções de titulares de orgãos de soberania ou aos seus poderes de magistrados judiciais. São estes ilustres protagonistas da nossa república de juízes que assinam por baixo e abençoam, com a sua presença, os órgãos da (suposta) justiça desportiva que produziram os resultados que bem se conhecem.

É este CSM que assiste impávido e sereno, e ainda assina por baixo, a esta nefasta perversão em que poder judicial legítimo se transveste e avença, com a cumplicidade do estado de direito (?), em mero árbitro jurisdicional de uma ordem interna e privada, como se vê, à margem de todo o ordenamento jurídico que nos rege constitucionalmente.

São estes mesmos que guardam a nossa liberdade e a ordem constitucional. Ficamos esclarecidos. Mas não tranquilos.

2006/09/04

Estalos e bofetadas da bola

Assustadora a perspectiva de que alguém com as responsabilidades públicas (e legais) de Gilberto Madail achar pacificamente comparável a legitimidade democrática e o valor em termos de direito de uma instituição resultante de vários tratados internacionais, negociados por estados soberanos, como a União Europeia, e uma associação de direito privado (a FIFA) que, por acaso, agremia sócios de diversas nacionalidades.

Também esclarecedor é sem dúvida o diálogo de faca nas costas numa mão, pancadinha na outra, de Valentim Loureiro com o referido Gilberto Madail. A queixarem-se de uma "falta de clareza de competências" não de ontem, mas de há 16 anos.

Vacas magras



Parece que Francisco Louçã anda por aí a pé, de mochilinha, a pregar a boa-nova.

Desgraçado.

Cortaram-lhe as ajudas de custo ou apreenderam-lhe a carta, foi?

O verdadeiro Aristóteles



Caro João Miranda:

Acho que eventualmente poderá ter surgido um equívoco na análise das palavras do Sr. António Vilarigues. A instrução (apesar da minha conta pessoal muito favorável aos "analistas de sistemas") pode não ter chegado para mais.

O glorioso mercado "aberto" II

Os mesmos que hoje vão vivendo na ilusão de fornecimento de energia em que os grandes consumidores têm a sua tarifa subsidiada pelo estado (ou seja, em que todos os contribuintes dão uma mãozinha) e os consumidores domésticos têm o aumento da sua tarifa limitado pelo "regulador" ao valor da inflacção (mesmo no suposto "mercado" que hoje se inicia) são os mesmos que vão ficar muito surpreendidos com o aumento da sua factura energética quando este mercado for realmente livre e for pago o efectivo preço de mercado, e que se vão revoltar contra o neo-liberalismo dizendo que afinal os mercados livres só servem para aumentar os preços e não (como é frequentemente anunciado por alguns) para os diminuir. E que também não vão estranhar o facto de os seus impostos não diminuirem, mesmo terminando os subsídios e as ajudinhas.

Lá está, são as perspectivas bizarras da justiça social...

A ler

Nós, os sensatos entre o povo dos Estados Unidos, numa tentativa de ajudarmos toda a gente a entender-se, recuperarmos um semblante de justiça, evitarmos mais revoltas, mantermos a nação segura, promovermos comportamentos positivos e garantirmos a benção de uma liberdade sem dívidas para nós próprios e para os nossos netos e bisnetos, aqui tentamos novamente ordenar e estabelecer algumas linhas mestras de senso comum para os permanentemente queixosos, complexados, alienados e outros bébés chorões esquerdistas.

Consideramos estas verdades evidentes em si mesmas, que muitíssimas pessoas ficaram confundidas com a Lista de Direitos, e que são tão lerdas que precisam de uma Lista de Não-Direitos.
A Lista de Não-Direitos, avançada pelo Migas na respectiva crónica.

O glorioso mercado "aberto"

A partir de hoje, os clientes domésticos já podem escolher entre a EDP e a EDP.

Marcelo sobre o caso Mateus

Por uma vez, o Professor fez serviço público. Parece hoje mais ou menos consensual que o Gil Vicente tem direito a recorrer aos tribunais comuns de um acto administrativo emanado de uma Federação com poderes de império. Tendo em conta que na base do conflito estava uma questão laboral (saber se o contrato do jogador com o Lixa era válido ou inválido), não havia, de facto, quaisquer razões para o clube não poder recorrer da decisão de não permitir a inscrição de Mateus na época a decorrer.
Duvido é da utilidade da decisão de recurso: ou o Gil desce se não recorrer ou sofre pesadas sanções se fizer uso do seu direito. Até que a justiça seja reposta, as consequências serão trágicas para o clube. Vale a pena? Vamos a ver se o Gil faz jus ao dito de Pessoa.

A proposta de constituição do PND

  1. Uma constituição que não consagra o direito de propriedade, arredando-o do conceito das formas de manifestação da dignidade da pessoa humana...
  2. Uma constituição que parece defender direitos sociais ao considerar que a dignidade humana envolve "qualidade de vida em termos económicos, sociais, culturais e ambientais" (art.º 1 nº3, al.h)) e que o Estado deve garantir como direitos fundamentais todos os direitos necessários à promoção dessa suposta vertente da dignidade humana (art.1º nº4)...
  3. Uma constituição que não se limita a consagrar o direito ao desenvolvimento livre da personalidade (art.1º nº3 al.c)), parecendo, pelo contrário, decidir confinar esse desenvolvimento aos limites de um "modelo educativo personalista e humanista" (mesmo artigo)...
  4. Uma constituição que garante às crianças a "inserção num ambiente familiar normal" (art.1º nº1 al.d))...
  5. Uma constituição que não torna a vinculação das entidades privadas às normas sobre direitos fundamentais dependente do articulação destas normas com os princípios básicos do direito privado, entre os quais o princípio da liberdade contratual (art.1º nº6)...
  6. Uma constituição que, não contente com o facto de o Estado respeitar e garantir os direitos fundamentais e de cada um de nós dever respeitar os direitos dos outros, nos obriga a garantir a dignidade humana do "próximo"(art.1º nº7)...
...não é uma constituição liberal. Muito pelo contrário, estamos perante uma proposta de constituição filosoficamente comunitarista, que mistura socialismo nos planos económico e social com conservadorismo no plano dos costumes. Numa palavra, é uma proposta de constituição democrata-cristã. Nada que espante: trata-se apenas de um produto daquilo que os PP e ex-PP sempre foram e sempre serão.

PS: dito isto, faço minhas as palavras do JLP neste post. E lembro que, há uns tempos atrás, ambos também dissémos que o liberalismo mais tarde ou mais cedo seria apropriado por quem, com reserva mental, dele quisesse tirar proveito político. Está a acontecer, mas não é propriamente o, por ora, solitário PND que deve preocupar um liberal; é antes o tal conservadorismo-pseudo-liberal que mais cedo ou mais tarde fará o seu caminho num dos principais partidos políticos de direita. Resta que, como, entretanto, me apercebi de que muitos liberais da blogosfera navegam essa onda, desisti de perder tempo a acreditar no liberalismo enquanto alternativa política viável nos próximos anos. Que a democracia-cristã lhes faça a todos bom proveito.

2006/09/03

O manifesto equivocado

Naturalmente, não pude deixar de ir satisfazer a minha curiosidade no anunciado Manifesto da Direita em Portugal, anunciado por Manuel Monteiro e pelo PND como o caminho da salvação para a direita portuguesa.

Li o documento que, ele próprio, se anuncia como "não sendo um tratado de filosofia política". O que restou no final: muito pouco.

Honra se lhe seja feita, o referido documento é, à semelhança de outros documentos de outrora divulgados pela organização, bem escrito, claro e, acima de tudo, cuidadoso em apontar para os consensos óbvios e em contornar as areias movediças das ideias objectivas e dos temas (que os há) fracturantes da direita. Não fica portanto dúvida na clareza das intenções, na necessidade do disclamer e no destino do documento, essencialmente não os protagonistas de discussões ideológicas mas sim a massa popular do povão de direita.

Ultrapassada uma introdução preenchida pelas verdades históricas do cenário político do pós-25 de Abril, que recorde-se, já passou os 30 anos de história, e que nada acrescenta a uma constatação que é pública e mais que estafada em inúmeros artigos de opinião da auto-reconhecida direita, avança-se para a necessidade do "recentrar" do espectro político, assente num espectro incompleto que "salta da esquerda para a extrema direita".

O primeiro equívoco será exactamente esse. Será que efectivamente não existe direita em Portugal? Será que não existem arautos imemoriais do conservadorismo e da Doutrina Social da Igreja que pregam há anos (ou mesmo décadas) as virtudes da sua boa-nova e a contraposição com o papão da "esquerda"? Não seremos nós ainda herdeiros em muita da nossa legislação de um conservadorismo popular (e bem reconhecível) que não hesitou em se associar à esquerda das mesmas "causas" e "valores" e que, esse, não teve problemas em disseminar pelo nosso ordenamento jurídico e constitucional as marcas da "tradição" e da "boa moral"? Mesmo quando agora parece ter descoberto que ganhar dinheiro e ter lucro deixou de ser "pecado"?

Pior do que isso, será que ainda faz sentido arregimentar combatentes para uma batalha baseada em esteriótipos gerados na escolha de cadeiras numa assembleia revolucionária de há mais de 200 anos atrás? Ou não estará a luta mais apropriadamente a ser travada entre os que defendem o totalitarismo do estado como solução para todos os problemas e os que defendem a liberdade e o indivíduo como a melhor solução?

O que me parece é que o alvo é bem mais a tal "direita" que congregua desde os "totalitários dos valores" aos "liberais da carteira" (bem consentâneo aliás com a auto-classificação do PND como partido do "conservadorismo liberal"), do que uma verdadeira opção pela Liberdade que contrarie a tirania do estado. Senão vejamos, analisando ponto por ponto todos os pontos de vista esclarecedores em contrário:

A Nação surge como quadro de referência à acção do Homem, funcionando como entidade facilitadora e integradora do seu desenvolvimento e da sua acção. Uma nação entendida como comunidade de sangue, de terra, de bens e de destino, reunindo os homens que, entre si, possuem vínculos históricos, culturais e linguísticos.
Não será de estranhar que, antes de mais, a afirmação primeira de manifesto seja em prol da "Nação", naturalmente de deterimento do indivíduo, como unidade orgãnica do desenvolvimento. Conservadorismo oblige. O colectivismo da esquerda proletária é rapidamente substituído por uma alternativa do "colectivismo do sangue, da terra, dos bens e do destino", e o endivíduo despromovido a uma mera roda da sua engrenagem. Sintomática é além disso a adopção de um critério de nacionalidade "de sangue", da raça, não afirmado na liberdade da escolha mas sim filho da aleatoriedade do nascimento.
Este homem concreto representa um feixe de valores, mas também de direitos essenciais e liberdades concretas que ultrapassam, em muito, os direitos, na generalidade menores, que a nossa Constituição garante, bem como a única liberdade que hoje lhe é reconhecida entre nós, assim como na generalidade dos países formalmente democráticos: a liberdade de voto.

Esses valores, esses direitos e essas liberdades representam a matriz fundadora do homem que, nascido na Grécia, lançou as bases da civilização ocidental na qual nos integramos e que é parte essencial e insubstituível do nosso património como portugueses.
Sem dúvida a passagem citada será uma das mais sintomáticas do texto, e exemplar no que toca à forma de "liberalismo" proposta. Sem querer entrar em discurso de "filosofia política", e como tal contrariar o espírito do anunciado do documento criticado, a critica é tão simples e óbvia, mesmo para não liberais, que facilmente será compreensível para os que não partilham dessa filosofia: o Liberalismo não se afirma por um "feixe" de "liberdades", de "direitos" ou de "valores". O Liberalismo defende sim que o estado normal do homem é a Liberdade, e que tudo o resto são limitações que só se legitimam quando defenderem o respeito pela Liberdade de terceiros. Tão somente isto. Não há liberdades enumeradas, direitos concedidos por simpatia ou condescendência majestática pelo estado ou "valores" que não sejam os sentidos pelos próprios indivíduos. O defender o contrário é assumir uma faceta claramente não-liberal de que cada um só existe na medida do alvará que lhe for concedido pelo estado. Veja-se o exemplo da Constituição dos Estados Unidos da America, claramente liberal em espírito e em grande parte em forma, que estabelece o seu conteúdo não pela afirmação de "direitos" ou liberdades avulsas, mas em proclamar a liberdade negativa e em enunciar os casos particulares em que é necessário o seu arbítrio entre indivíduos.

Esta tendência garantista está aliás expressa noutras passagens:
Ser sujeito de deveres é um direito inalienável de todo o homem e é nos seus deveres, mais do que nos seus direitos, que se funda o essencial da sua dignidade de Homem.

[...]

A Lei e um certo consenso ético que estruturam uma sociedade democrática moderna, são padrões válidos pelos quais terão de ser aferidos e julgados os comportamentos individuais. Esses comportamentos serão claramente certos ou evidentemente errados, e como tal julgados, à luz desses padrões éticos e jurídicos.

[...]

Ao Estado, através de um conjunto de competências que lhe é outorgado pelos cidadãos, compete definir as regras da vida em comunidade, aplicá-las e vigiar para que sejam cumpridas.
O raciocínio é bem claro: o Homem só tem legitimidade quando a justifica pelo cumprimento dos seus deveres e se subjuga aos padrões "válidos" que aferem e julgam a sua liberdade individual, e só participa na sociedade na medida em que cumpre as suas "regras", superiormente definidas.

Esta perspectiva surpreendentemente soviética da vida em sociedade, ainda mais expressa num documento que começa por referir o Manifesto Comunista de Marx e Engels, é sim um tique esclarecedor de quem visualiza a sociedade como definida por regras precisas que definem o que é permitido e tolerado. Com um direito que regule a periodicidade da amamentação e que puna quem cuspa no chão ou mastigue pastilha elástica, ou que coma comida "imprópria" e faça sexo de maneira "insalúbre".

O resto, o ser liberal na economia, além de ser pouco credível face a estas generalidades anunciadas, acaba por pouco interessar. Acaba por ser só uma estratégia de marketing conveniente para aliciar os que dentro do liberalismo se afirmam como mais utilitaristas. Também os que dia-a-dia são expoliados da sua propriedade por um estado que não olha a limites. Acaba por ser um conjunto de lugares comuns para um determinado público. Mas, esteja-se atento e as contradições são rápidas a surgir. Como numa anunciada proposta de nova Constituição que, em toda a sua extensão e em toda o seu "rigor", desde em definir duração de mandatos até datas de eleições, se "esquece" de uma coisa tão básica (aliás estabelecida na nossa Constituição em vigor) como o direito à propriedade privada. Aliás, curiosamente, a palavra "propriedade" não é referida uma única vez num documento que, apesar de pretensões de neutralidade política, é proposto por um partido com supostos objectivos liberais. Assim como endeusa a nação mas em seguida inclui directamente tratados internacionais na Constituição, para além da legitimidade que já lhes assiste pelo reconhecimento da integração do direito internacional no direito interno.

Direita desta, ainda bem que se clarifica. Porque é dela que eu não quero minimamente fazer parte.