2006/08/28

O inexorável plano inclinado

O José Barros, em resposta ao Migas, defende a separação de poderes como o principal travão às tendencias totalitárias de aquisição de poder por parte dos estados no que toca ao "controle" das liberdades dos cidadãos, definindo no seu caso o contexto de estado como o agregado do governo e da administração pública, e remetendo a manifestação final dessa separação de poder ao poder fiscalizador dos tribunais, ou seja, do poder judicial.

No fundo, ecoa um sentimento de muitos (incluindo os pais da Constituição Portuguesa) de que o poder judicial é um poder à parte, separado em grande parte da lógica da democracia, e que funciona como último garante do estado de direito ao ser o garante de independência e de autonomia, a última barreira e válvula de emergência entre a ordem e o caos. Foram como tal constituidos por este mundo fora poderes judiciais que, de uma maneira ou de outra acabaram por, na concretização desse desejo constitucional, se instalarem supostamente à margem da perfídia do estado. Acabou portanto por se instalar um certo poder judicial absoluto, tolerado, e distante de uma suposta limitação pela letra da lei, enquadrado em grande parte num conceito de uma espécie de "monarca absoluto distribuído", com estatuto semelhante ao que é referido pelo José Barros.

Tal cenário, apesar de cómodo e confortával, não nos pode fazer esquecer de uma coisa: é que o poder judicial também é estado. O passar um atestado de perversidão ao poder executivo e legislativo não pode deixar de ser, se justificado em grande parte pela realidade fática, um rótulo injusto quando imposto por tabela.

E não deixa de ser curioso que é exactamente no Reino Unido e nos Estados Unidos, sistemas baseados na common law e que garantem uma particular independência desse poder judicial por esse facto (sendo garantida uma muito maior latitude interpretativa da lei aos juízes), adicionado da grande autonomia e liberdade que é entregue ao processo legitimador dos tribunais de topo do poder judicial, que as maiores perversões juridicas tenham avançado nos últimos anos. Vejamos alguns exemplos.

Podemos começar pelo Terrorism Act britânico, aprovado este ano. À laia de exemplo, fica o caso relativo às detenções sem culpa formada: já idêntica iniciativa de 2000 tinha estabelecido esse período em 14 dias, quando a prisão preventiva em situações "vulgares" de homicídio ou violação ascende legalmente a 4 dias. Ora, apesar de ter sido travada a vontade do poder legislativo em estender esse período para 90 dias (sim, 3 meses sem culpa formada), após grande turbolência envolvendo o poder legislativo e judicial acabou por se assentar no dobro do limite anteriormente em vigor: 28 dias.

Nos Estados Unidos, apesar de terem sido estabelecidos nos anos 70, foi somente nos últimos anos (potenciado pelo PATRIOT Act) que aumentou o recurso a tribunais secretos, denominados United States Foreign Intelligence Surveillance Court. Nestes tribunais as audiências são fechadas ao público, que também não pode aceder aos autos. Somente advogados do estado estão autorizados a exercer nesta instância, e as audiências podem ocorrer em qualquer dia, a qualquer hora (segundo o artigo da Wikipedia).

No Reino unido, generaliza-se a aplicação de "Ordens de Comportamento Anti-Social" (ASBO), uma espécie de providencias cautelares que são aplicadas por forças de segurança ou tribunais a indivíduos com alegados comportamentos que se enquadram em ilegalidades, mas dos quais nunca foram condenados, no que na prática se consuma numa substituição do critério de "beyond reasonable doubt" associado ao direito criminal pelo critério de "probable cause" característico dos processos cíveis, de eliminar o direito que deve assistir a qualquer um a um julgamento (completo) justo, e no fundo em aplicar uma pena sem sentença. Curioso (e ilucidativo) é verificar como num site oficial do governo inglês destinado a explicar estas "ordens", são metidos no mesmo saco comportamentos tipicamente criminais e violentos (como o vandalismo, as ofensas corporais e crimes sobre a propriedade) com comportamentos tipicamente contra-ordenacionais e "comportamentais" (como o consumo de álcool ou de tabaco abaixo da idade mínima, a prostituição e as ofensas verbais).

Recentemente, os rumores dão como espectável a extensão desse género de "ordens" ao crime informático (o que quer que isso seja). Não será difícil de a imaginar extendida a quem faça violação do direito de autor online ou a quem tenha daquele tipo de pornografia.

Assim como também não constitui surpresa que se confirme que o discurso do terrorismo, depois de bem vendido, seja rapidamente travestido. Por exemplo quando as anunciadas "medidas excepcionais" contra o terrorismo rapidamente se transformam e mutam em medidas contra o tráfico de droga, o contrabando, a fraude ou outros tipos de crime organizado.

Amanhã, talvez sejam os crimes fiscais.

A ler

No site do Ludwig von Mises Institute, Ten Recurring Economic Fallacies, por H.A. Scott Trask. Para aguçar o apetite, fica aqui a lista das falácias abordadas (relativas à realidade americana):

  1. A janela partida
  2. O benefício da guerra
  3. A melhor maneira de financiar uma guerra é recorrendo ao crédito
  4. Aumentar o défice beneficia a economia e a dívida (particularmente popular também entre nós)
  5. Iniciativas do governo para promover as exportações são uma boa ideia
  6. A guerra comercial funciona
  7. O final do Séc. XIX foi uma época de laissez-faire
  8. As corporações defendem o laissez-faire
  9. Hamilton foi excelente
  10. Agrarianismo ou Industrialismo: temos que escolher

Disto é que o meu povo gosta...

... ou a arte de fazer política com conteúdo:

Considerando que o social-democrata PSD ou o centrista CDS não podem ser considerados partidos de direita, o líder do PND adiantou que irá lançar neste Outono uma reflexão nacional sobre o que é pertencer a esta área do espectro ideológico.
Essa reflexão acontecerá numa digressão que Monteiro fará a várias zonas do país antes da realização do congresso do PND, agendado para Outubro.
Manuel Monteiro, que falava entre as três jovens e semi-despidas bailarinas que momentos antes haviam acompanhado no palco o músico brasileiro Milton Soares, disse "não ser filho do Estado Novo nem herdeiro do marcelismo", mas sim homem "crescido na liberdade".

Região de Leiria via Democracia Liberal, com negritos meus.

Clarificação

Vital Moreira transcreve na Causa Nossa um excerto de uma notícia do Diário Digital. Também o faço, acrescentando algo à transcrição original de modo a que melhor se possa enquadrar o problema:

Pelo menos três cadáveres com «sinais claros» de terem sido atacados com bombas de fósforo branco, uma arma química proibida, deram entrada durante a guerra no Líbano num hospital da cidade libanesa de Baalbek, disseram fontes médicas.

[...]

A utilização do fósforo branco, conhecido como o «novo napalm», contra pessoas é proibida pelas convenções internacionais, que apenas permitem o seu uso em casos muito restritos, como a iluminação de um campo de batalha não habitado.
Ora, a bem da verdade (e sem constituir nem acusação nem defesa pelo uso de tais armas) e num esforço de rigor que Vital Moreira, como jurista, compreenderá, convém esclarecer que essas armas não são universalmente proibidas.

Concretamente, a proibição do uso de tais armas contra civis foi estabelecida por um dos protocolos da Convenção sobre Certas Armas Convencionais (um anexo à Convenção de Genebra que entrou em vigor em 1983), nomeadamente o denominado "Protocolo III" sobre armas incendiárias. Contudo, e apesar de ser signatário da convenção (para o facto bastando ser signatário de pelo menos dois dos cinco protocolos que as constituem), Israel (aliás à semelhança dos Estados Unidos) não é signatário desse protocolo em concreto.

Como tal, o uso dessas armas não é alvo de nenhuma proibição que obrigue o estado de Israel, e a afirmação da notícia original é completamente falsa (a menos que se refira a serem ilegais em Portugal - não me parece - este sim signatário desse protocolo).

2006/08/27

Criminalização do incitamento ao terrorismo

No contexto da liberdade de expressão, é significativo que, nos EUA, o entendimento hoje da mesma seja menos restritivo do que era no princípio do séc.XX. Se nessa altura era normal e lícito, os Estados federados terem leis a proibir, sem mais, discursos subversivos que atentavam contra o poder, hoje o Supremo Americano não tem dúvidas em considerar tais leis inconstitucionais.
No que diz respeito à first ammendment os tribunais nunca consideraram e continuam a não considerar que o incitamento à prática de crimes constitua, sem mais, um exercício legítimo da liberdade de expressão. Se, no passado (Whitney v. California), os tribunais aplicavam o bad tendency test, segundo o qual estariam constitucionalmente proibidos os discursos que tivessem a tendência de promover a sedição ou a violação da lei, hoje aplica-se o Brandenburg Test (Brandenburg v. Ohio). Segundo este critério, só serão proibidos os discursos que advoguem intencionalmente a violação iminente da lei quando seja de crer que tal violação seja uma consequência provável do discurso. É fácil de ver que o critério é bem mais estrito, pois que se exige a intenção de causar a violação da lei por parte do discursante, bem como a iminência do perigo da violação da lei e a probabilidade da mesma vir a ocorrer.
O Patriot Act, apesar do seu espírito repressivo e tendencialmente totalitário, não limitou a liberdade de expressão. Em todo o caso, os juristas, em geral, concordam que uma limitação maior da liberdade de expressão em tempo de guerra é legítima, o que leva ao uso do Brandenburg Test em termos menos restritivos.
É nesse contexto que não vejo mal em limitar temporariamente a liberdade de expressão no caso de discursos que incitem ao terrorismo, desde que tal limitação seja feita nos termos razoáveis ou aceitáveis de que falei (por exemplo, nos termos do Brandenburg Test, entendido, para este efeito, em termos menos restritivos).
Mas, para além da necessidade de respeitar os requisitos do Brandenburg Test nos termos que referi, não me parece bastar que se declare informalmente guerra contra o terrorismo, como o governo do Bush tem feito, para que a criminalização do incitamento à prática de actos terroristas proceda. Se um governo quer fazer uso dos poderes especiais que lhe são conferidos pela Constituição em tempo de guerra tem de obter a declaração oficial da mesma. Só assim se respeita o equilíbrio de poderes que as constituições liberais consagram.

Nota: Vários países (Grã-Bretanha e Dinamarca, por exemplo) criminalizaram o incitamento à prática de crimes de terrorismo (cf., por exemplo, o art.1º do Terrorist Act). Fizeram-no em termos bem mais amplos daqueles que eu advogo.

Nota: valeria a pena discutir as razões filosóficas que me levam a crer que o incitamento à violência é uma excepção à liberdade de expressão, mas não há espaço para tal. A pedido de várias famílias, estou a tentar ser mais sintético nos posts que escrevo.:)

Separação de poderes - resposta ao Migas

Vem atrasada a resposta a este post do Migas. Abordarei a questão da criminalização do incitamento à prática do terrorismo num outro post.

Diz o Migas: "Independentemente da definição de "limites aceitáveis", o risco deste tipo de compromisso é mais abrangente do que a luta contra o terrorismo em geral, para não falar especificamente no terrorismo islâmico. Ainda está para vir o estado que desiste voluntariamente de poderes, uma vez adquiridos. A tendência natural do estado é de açambarcar mais poderes, e nem sempre por más razões; infelizmente a maior parte dos políticos acha que sabe o que é melhor para nós, mesmo que isso seja contra a nossa vontade...".

Resta saber o que entende o Migas por Estado. A pergunta Quis Custodiet Ipsos Custodes? tem resposta na própria separação de poderes. Se Estado significa neste contexto governo e administração pública, a resposta é fácil: quem controla o Estado são os tribunais (sobre os quais falarei no próximo post) e o Parlamento.
Sendo o parlamento um órgão plural, em que idealmente se encontram representadas as várias tendências políticas existentes na sociedade, as leis por ele aprovadas resultam de um debate entre os vários partidos representantes dessas mesmas tendências. Acresce que as leis elementares, isto é, aquelas que contendem com princípios essenciais, necessitam, para serem aprovadas, de maiorias qualificadas, o que, por um lado, obriga a um largo consenso para a sua aprovação e, por outro, dificulta a tarefa a quem as queira revogar.
Se o Migas tivesse razão, isto é se a tendência para o aumento dos poderes do Estado fosse irreversível, a Constituição de hoje, por exemplo, seria essencialmente a mesma de 1976, porque o Parlamento não teria abdicado dos poderes do Estado (que eram significativamente maiores em 76). Ora não foi isso aconteceu, porque a dura realidade económica do país obrigou a reformas e porque do debate parlamentar também surgiu um consenso em torno da necessidade de diminuir os poderes do Estado. Infelizmente, tal diminuição fica muito aquém do que seria desejável, mas para o caso não interessa.

Ainda em resposta ao argumento do Migas, podemos ir mais longe e perguntar o que é que aconteceria se em vez de uma democracia tivéssemos um ditadura liberal (passe o possível paradoxo), isto é, um regime em que um ditador ou monarca absoluto se comprometesse a respeitar a vida, liberdade e propriedade dos membros da sociedade. A resposta parece-me óbvia: tal ditadura ofereceria ainda assim uma menor garantia contra abusos de poder, em razão da velha máxima segundo a qualquer poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Quanto à questão do controlo do governo, estamos, pois, apesar de tudo, melhor em democracia.

2006/08/26

Phishing à brasileira

Extratos de um e-mail recebido há dois dias:

"Devido a situação que nós temos em nosso país em torno a Online-Banking, nós fazemos exame de medidas para rever todas as contas..."

"As contas que não passarão a revisão a 01.09.06, serão restritas à explanação a fim de seu abertura..."

"Nós pedimos-lhe desculpas por aquelas medidas. Nós agradecemos para Sua compreensão e esperamos continuar a colaboração com Você."
Oh cara, tem escolinha lá em Minas?

2006/08/25

You can't polish a turd

O PSD contratou a IPIS, consultores de relações públicas, do grupo Brandia Central de Comunicação – o maior do sector de publicidade e comunicação no País – para tratar da imagem do partido e também do seu líder, Marques Mendes, confirmou ao CM, o secretário-geral do partido, Miguel Macedo, sublinhando que a acção da IPSIS será centrada nas áreas do grafismo e design.

(Correio da Manhã, via Corta-fitas.)

Momento de choque do dia (atrasado)

CAA acompanha a Rádio Renascença?

Curiosidades de um estado de direito (?) à beira-mar plantado

Aparentemente, e por mais estranho que possa parecer aos olhares mais desprevenidos, em Portugal um órgão de soberania encarregue de zelar pelo estado de direito não pode suspender um mandato político democraticamente eleito.

Mas um partido pode.

2006/08/24

A imagem de 6 milhões...

Luis Filipe Vieira não gosta de calúnias:
Acha que os resultados futebolísticos deste ano vão ser falseados.
Acha que o apitodourado vai ser escondido.
Acha que o presidente da liga vai ser uma marionete.
Acha que os mafiosos italianos deviam aprender em Portugal.
Acha que tem um dossier com informações gravíssimas.
Acha que está rodeado de dirigentes sem carácter.

Quando a "batata quente" lhe tocou a ele, AMUOU.

P.S.: A radio bagdad noticia que fonte da PJ informou que a notica do 24H é falsa. Esperemos que Mário Crespo não tenha mais nenhum director de um órgão do estado a "açambarcar" as suas entrevistas à custa das fontes...

Este ano temos candidato para os Oscar®



link

Ainda sobre o terrorismo

A não perder, "What the terrorists want", no blog do Bruce Schneier (também disponível na Wired):

The point of terrorism is to cause terror, sometimes to further a political goal and sometimes out of sheer hatred. The people terrorists kill are not the targets; they are collateral damage. And blowing up planes, trains, markets or buses is not the goal; those are just tactics. The real targets of terrorism are the rest of us: the billions of us who are not killed but are terrorized because of the killing. The real point of terrorism is not the act itself, but our reaction to the act.

And we're doing exactly what the terrorists want.

We're all a little jumpy after the recent arrest of 23 terror suspects in Great Britain. The men were reportedly plotting a liquid-explosive attack on airplanes, and both the press and politicians have been trumpeting the story ever since.

In truth, it's doubtful that their plan would have succeeded; chemists have been debunking the idea since it became public. Certainly the suspects were a long way off from trying: None had bought airline tickets, and some didn't even have passports.

Regardless of the threat, from the would-be bombers' perspective, the explosives and planes were merely tactics. Their goal was to cause terror, and in that they've succeeded.

Imagine for a moment what would have happened if they had blown up 10 planes. There would be canceled flights, chaos at airports, bans on carry-on luggage, world leaders talking tough new security measures, political posturing and all sorts of false alarms as jittery people panicked. To a lesser degree, that's basically what's happening right now.

Our politicians help the terrorists every time they use fear as a campaign tactic. The press helps every time it writes scare stories about the plot and the threat. And if we're terrified, and we share that fear, we help. All of these actions intensify and repeat the terrorists' actions, and increase the effects of their terror.

[...]

The surest defense against terrorism is to refuse to be terrorized. Our job is to recognize that terrorism is just one of the risks we face, and not a particularly common one at that. And our job is to fight those politicians who use fear as an excuse to take away our liberties and promote security theater that wastes money and doesn't make us any safer.

2006/08/23

Da publicidade

Pablo Picasso, the painter, was dining at a restaurant in New York City. A fan introduced herself to him and gusshed at how thrilled she was to meet the great artist and how she loved his work. Encouraged by Mr. Picasso's polite acceptance, the fan begged, "Oh, Mr. Picasso, would you draw me a sketch?" Picasso grabbed some paper, and with a pen, promptly sketched the waiters passing parfaits. As the woman reached for the sketch, Pablo Picasso said, "Madame. That will be $10,000." Shocked, she replied, "But that only took you 5 minutes." "No Madame," replied Picasso, "it took me 50 years."

(fonte)
A actividade profissional dos publicitários consiste em conhecer a psicologia dos consumidores, para melhor poder distorcer e controlar a sua tomada de decisão quando está indeciso entre marcas diferentes, ou entre comprar e não comprar um produto.
Assim sendo, o consumidor não será influenciado apenas pela qualidade e pelo preço de um produto, mas também por toda uma série de mensagens com o intuíto expresso de condicionar e distorcer a racionalidade da sua decisão.

O que é curioso nisto tudo é que acaba por ser o consumidor a pagar pela publicidade de que é alvo, visto que os custos desta se reflectem no valor do produto final.

Falácias da Ética Neo-Liberal IV - a publicidade


Vamos considerar duas marcas e modelos de automóveis: o Nissan X-PTO, e o Reanult n-sei-qts. São modelos de carros familiares, e vamos imaginar que são os únicos à venda num determinado mercado.

Nesse mercado nenhum dos vendedores faz qualquer anúncio.
Cada produtor tem uma determinada fatia de mercado, e vende o o seu modelo a um determinado preço.

Quando um consumidor quer comprar um automóvel, ele vai decidir entre esses dois modelos. Em que é que se baseia a sua decisão? Ele leva em conta o preço de cada um dos produtos, ele vê quais das características se adaptam mais às suas preferências. Se percebe pouco de automóveis, pode pedir a opinião a alguém que perceba mais. Percebendo ou não, pode dar uma vista de olhos nas revistas da especialidade.

No fim de tudo houve dois factores fundamentais que condicionaram a sua decisão: o preço do produto, e a sua qualidade (na óptica desse consumidor específico).

A motivação de cada um dos produtores acaba por se centrar em dois vectores: o aumento da qualidade e a redução dos custos.

Depois surge a publicidade.
Uma das marcas (a Nisan, por exemplo) opta por lançar uma campanha publicitária para promover o seu produto.

Este produto mantém-se igual, mas devido aos custos da campanha publicitária, o seu custo aumentou. Os consumidores terão de pagar mais por este produto.
Seria de esperar que, sendo o produto igual, e o custo superior (sem que a margem de lucro do produtor aumente), as suas vendas diminuíssem.

Isso faria todo o sentido, mas se isso acontecesse dificilmente algum produtor apostaria na pubilicidade, visto que estaria a deitar dinheiro para o lixo.

Então vejamos com atenção: o Nissan X-PTO é o mesmo, mas mais caro. No entanto as vendas do Nissan X-PTO aumentaram. Pessoas que antes optavam pelo Renault n-sei-qts passaram a optar pelo Nissan.
Como a opção anterior era baseada no preço e na qualidade do produto (e ela foi alterada sem que a qualidade melhorasse, e tendo o preço piorado) isso mostra que a publicidade neste caso só pode ser eficiente caso tivesse condicionado a decisão do consumidor de forma irracional.
A publicidade só pode ter feito sentido se ENGANOU o consumidor.

É tão simples quanto isto: se a publicidade não tivesse enganado o consumidor, ela não teria sido paga. Não teria sido feita em primeiro lugar.

Mais sobre publicidade


Até porque em tempos o assunto já foi abordado privadamente em conversa entre os small-brothers, não resisto a abordar o tema do papel da publicidade no mercado.

Em primeiro lugar, há uma ressalva a fazer. Basicamente, o que está expresso na perspectiva apresentada pelos artigos da Esquerda Republicana acima é uma perspectiva muito próxima da teoria do valor baseado no trabalho, típica e popular nas visões socialistas da economia. Segundo ela, o valor de um determinado produto é o somatório de todo o trabalho envolvido na sua produção, e tem como corolário o facto de que, para não ignorar a lei da oferta e da procura, o equilíbrio entre oferta e procura se estabelece no preço natural do bem, associado então tão somente à quantidade de trabalho que foi envolvida na sua produção.

Desse modo, a perspectiva da introdução da publicidade no mercado serve somente para o tornar menos eficiente, já que, tendo que ser paga, altera o preço de produtos iguais em termos de valor de trabalho e como tal não se justifica.

Ora essa teoria está longe de ser uma tautologia, tendo sofrido críticas ferozes, nomeadamente de distintos economistas liberais. O substrato da crítica é que o consumidor não tem a visão comparativa desse custo de produção dos produtos, do seu "valor em trabalho", e como tal não os leva em conta na sua decisão, intervindo no mercado sim baseado na sua perspectiva de valor do bem, em função da sua visão de utilidade pessoal deste para si. Há assim, na prática, um total desacoplamento entre o custo de produção de um determinado bem e o valor que lhe é atribuído pelo consumidor. Aliás, é fácil de perceber a distinção: entre dois fornecedores do bem "ouro", um que perdeu longos anos em prospecção deste e outro que descobriu uma jazida por acaso, tal é irrelevante na fixação do preço de mercado deste, uma vez que o factor determinante é qual é a visão da utilidade dos consumidores de ouro deste.

Sendo assim, quanto a mim a publicidade tem essencialmente dois efeitos benéficos:

O primeiro é o relativo à disseminação da informação no mercado. O factor chave na eficiência do mercado, e na interacção com este é, quanto a mim, a informação e o modo como esta se distribui neste. Se a informação fosse perfeita, toda a economia podia estagnar e toda a concorrência poderia ser eliminada, convergindo os bens para os seus "preços verdadeiros". Mas tal não acontece, e é exactamente a heterogeneidade da distribuição dessa informação que faz funcionar o mercado. Quem tem mais informação (quer produtor quer consumidor) tem uma melhor visão do mercado e como tal uma maior probabilidade de com ele interagir com sucesso.

Ora uma das vantagens da publicidade é exactamente essa. Se o melhor carro para mim, que melhor me satisfaz (ou, no caso da visão apresentada o que tem "melhor qualidade e mais baixo preço") está à venda na Estónia sem se divulgar a ninguém, só sendo discoberto "por acidente", naturalmente que é de esperar que eu continue a consumir os produtos inferiores disponíveis localmente. É um bocado como a perspectiva do produto bom e inovador, com uma massa de potenciais clentes potenciais, que só no dia que se anuncia na TV é que passa a ter acessibilidade ao mercado e a ser visível pelos seus potenciais consumidores.

Outro efeito é na alteração da curva de utilidade dos consumidores. Como se viu pela introdução, para quem critica a teoria do valor baseado no trabalho a perspectiva é a seguinte: o encontro em termos de oferta e procura não se dá baseado no factor preço, mas sim baseado no encontro entre o valor oferecido pelo produtor e o valor anseado pelo consumidor. Ora, desse modo, a missão do produtor não é a de fornecer o produto mais barato e de melhor "qualidade", mas sim em se conseguir adequar ao perfil de valor ou utilidade dos seus potenciais consumidores. Deste modo, é natural que este tente estabelecer um perfil psicológico do mercado de modo a que, recorrendo a estratégias de marketing, consiga sensibilizar o consumidor de que o seu produto é o que mais o consegue satisfazer. Não precisa de enganar nem defraudar. Basta-lhe saber qual é a mensagem certa que tem que passar. As premissas do negócio são claras, o cliente fica (ainda mais) satifeito.

Terminemos com um exemplo. Existem no mercado diversos produtos que se apresentam como "socialmente responsáveis", como por exemplo café que garante ter dado as recompensas justas aos produtores durante o seu processo de fabrico, ou diamantes que publicitam não serem "de sangue", ou seja, provenientes de locais em que servem para custear conflitos e exploração de populações. Segundo a tese apresentada, gastar dinheiro a divulgar esta informação por quem vende estes produtos, sendo publicidade, é enganar o consumidor: tanto a qualidade é a mesma como até potencialmente o custo é o mesmo.

Contrariamente, para um liberal, a perspectiva é diferente: tanto o mercado beneficiou por ter mais informação acessível, podendo melhor julgar os efeitos secundários das suas compras, como por parte dos produtores dos referidos "produtos socialmente conscientes" foi tão somente agarrada uma oportunidade de aumentar a utilidade do seu produto que, relembro, objectivamente pode ser o mesmo do concorrente, a um determinado segmento do mercado que atribui utilidade adicional a um produto que seja apresentado desse modo.

Coerência Ideológica

Eu não quero ser bufo mas chegou-me aos ouvidos que o nosso estimado Karloos foi visto ontem à noite a comemorar uma vitória de um exército vermelho sobre uns tais discípulos da escola austríaca....

Parecendo que não, era importante subir um bocadinho os níveis de coerência ideológica se faz favor.

Momento de humor do dia (anterior)

Na fase mais "caliente" deste último épico encarnado, um adepto do benfica o comentador da tvi manifestou a sua profunda emoção através da seguinte sentença: "Há muito que não se via uma noite europeia tão entusiasmante no estádio da luz".

Atendendo a que se trata de uma pré-eliminatória de uma prova internacional, uma questão se impõe, a quem tenha algumas dificuldades em lidar com os truques da língua portuguesa:

Será que o senhor estava tentar fazer um elogio à nação benfiquista??

P.S.: O mesmo afortunado tinha esclarecido, momentos antes, que o jogador de seu nome Pichlman, tinha entrado em campo para jogar em "cunha" na defesa benfiquista.
Provavelmente, ainda não estaria totalmente refeito.

2006/08/22

A luta contra o imperialismo continua

O exército iraniano descobriu perto da sua costa uma base militar colocada pelos EUA, certamente para preparar a invasão. Os soldados americanos estavam disfarçados de operários romenos e a base naval disfarçada de plataforma petrolífera, mas o exército islâmico não se deixou enganar e efectuou um ataque à altura.

FashionBlog

Já a tinha deslindado, mas as caixas de comentários aos dois últimos posts do blasfémias esclareceram em definitivo:

Anda por lá um senhor (do qual sou fã) que tem o "mau" hábito de confrontar o merchandising governamental com a análise fria dos resultados e das estatísticas disponíveis.

Mau? Porquê? De acordo com as opiniões cumulativas de diversos internautas, esta prática é profundamente negativa, pois induz um elevado estado de desmoralização e até depressão, sendo que, consenso geral, o comum dos portugueses já anda farto de más notícias.
Os factos andam um bocadito fora de moda...

P.S.: Perante o cenário supra, decidi contribuir modestamente para o esbatimento desta praga negativista:
Scolari convocou Quaresma.
De momento, é o que se pode arranjar.

Post para manter o status blogoesférico

Ver mais

Ver menos

Estão a ver, não ficamos atrás de ninguém...

Momento de humor do dia

Num comentário no Slashdot, a um artigo sobre a alegada autorização dos administradores da AOL para divulgarem publicamente informação privada dos seus clientes, lê-se:


"The Justice Department has repeatedly signaled its strong interest, through continued conversations with Internet companies and members of Congress, in having the data retained to help it fight terrorism and child pornography"

I bet they have a stamp that says that.