Fiquei algo surpreendido (mas não muito) com a reacção ao meu anterior artigo desta série. Surpreendido porque achava que o facto de, desde a massificação da utilização e da proliferação do gás natural, não me lembrar de uma golpe com tanto potencial no cartel do petróleo como a introdução dos biocombustíveis, poderia ser acompanhado por muito do "ecologismo" reinante, e naturalmente pelos comentários neste blog. Afinal, o adversário é de força, e é um dos que costumam unir as hostes quando se trata de abanar a bandeira do ambiente.
Mais ainda: de uma vez só, poder-se-ia apertar simultaneamente com o cartel do petróleo e com a política de intervencionismo e proteccionismo reinante em relação à produção agrícola, pondo os dois a competir entre si num novo mercado com proporções brutais.
Mas não. Parece que ainda há outras prioridades, mesmo aos olhos dos eco-bem-intencionados.
Parece que, com a concorrência acrescida, a produção agrícola que se ia arrastando há anos essencialmente como um sumidouro de subsídios e na agonia de uma política de estruturação essencialmente centralizada, descobriu um novo fôlego com perspectivas até de a tirar de uma vez do bolso do contribuinte. Mas há um problema. Parece que faz aumentar o preço de alguns géneros alimentícios.
Coisa grave, dirão logo alguns. Afinal, antes do combustível vêm a necessidade alimentar. O problema é que a realidade os parece desmentir, não fosse verificar-se o aumento da procura deste género de bens com destino a serem processados como combustível, e não pelo engrossar da procura dos esfomeados. Logo se erguem os adeptos do intervencionismo, já com a visão clara e catastrófica do futuro que há-de vir, se os iluminados não forem chamados a intervir: que não pode ser, que é imoral alguns "morrerem à fome" para que sejam salvaguardadas as necessidades de combustível de outros. E fica a curiosidade sobre a solução alternativa proposta. Provavelmente, o intervencionismo do passado seria resolvido por... mais intervencionismo. Afinal, aos decisores corresponderá naturalmente a obrigação de serem mais inteligentes que todos os agentes do mercado. Criar-se-ão quotas de produção alimentar e de produção para outros fins? Irão (no pun intended) subsidiar o petróleo? Vão garantir novos preços mínimos subsidiados para se aumentar a produção? Afinal, a imaginação do intervencionismo socialista não tem limites (para além dos da bolsa de contribuintes e consumidores).
E a alternativa que proponho, dir-me-ão? Bem, a alternativa, quanto a mim, é separar problemas que não têm nada a ver um com o outro. Deixar o mercado funcionar, estabelecendo os equilibrios que tiver que estabelecer entre oferta e procura dos diversos produtos. No seguimento dos transitórios que hão-de (eventualmente) vir, e se a (nova) riqueza resultante na maisvalia do recurso milho (que entrará no país se este optar por exportar esse produto) não resolver por si só o problema, e houver pessoas em situação de limite que sejam empurradas para situações de fome, resolve-se o problema da fome, de acordo com uma perspectiva de safety-net, como aos outros que caiam nessa situação pelo motivo que for. Sem ter nada a ver com petróleo nem com milho.